_Alô?

_Centro de Referência LGBT, boa tarde.

_Oi, eu não sei explicar, mas assim… Eu não sou mulher. Eu não tenho com quem conversar essas coisas.

No início de 2014, ligay para o Disque Cidadania do programa Rio Sem Homofobia. Cada dia que passava me sentia menos mulher, sentia que tinha alguma coisa “errada” comigo. Não tinha mais dinheiro pra pagar psicólogo, não estava entendendo nada.

Minhas amigas não me reconheciam mais, achavam minha masculinidade “agressiva”. Me sentia sozinho no mundo, sem dinheiro, sem família, sem amigos e sem perspectivas profissionais. Lembro dessa angústia de querer falar alguma coisa, mas não encontrar as palavras. Cortei o cabelo bem curto e fui mudando o guarda-roupa, aos poucos, para algo que realmente me fazia sentir bem. Nesse meio tempo, me mudei do Rio de Janeiro para uma vila rural no interior por uma temporada e por questões econômicas. Na roça a homofobia tem outra cara, tive o desprazer de sofrer uma agressão física direta, que me proponho a contar em uma outra oportunidade.

O fato é: não conseguia sair de casa, tinha medo de tudo. Minha figura híbrida era motivo de conversas constrangedoras, não sabia como lidar. Para não sair de casa, comecei a trabalhar com texto. Escrevia e fazia transcrições para sobreviver. Não queria ver ninguém. No meio de tantas violências visíveis e invisíveis, resolvi ligar para o serviço do programa estadual.

Dias depois a assistente social foi à minha casa, conversou comigo, me encorajou a denunciar as violências sofridas. A partir daí, comecei a frequentar o Centro de Referência LGBT de Nova Friburgo, na Região Serrana do Rio de Janeiro. Lá eu tinha acesso à internet quando precisava, encontros com outras pessoas LGBT, palestras e acompanhamento jurídico e psicológico.

Lembro como se fosse ontem a assistente social dizendo que eu tinha um vizinho que era homem trans. Será que ele também se sente só? Ele trabalha onde? Me senti abraçado com essa notícia, menos sozinho. Nos reconhecemos dias depois no ponto de ônibus, trocamos experiências e falamos da vida.

Frequentei esse Centro de Referência LGBT até me mudar para São Paulo. Foi de extrema importância para mim em vários aspectos profissionais e pessoais ter sido usuário do Rio Sem Homofobia. O programa tinha profissionais qualificados, que não só sabiam o que era transexualidade (raro) como tinha pessoas trans empregadas no programa (mais raro ainda). Ali, convivendo com outras pessoas como eu, o desespero foi dando lugar para a autoestima e pude, em poucos meses, me declarar TRANS e mais tarde, HOMEM TRANS.

Foi em um café no corredor com algumas trabalhadoras do Centro de Referência que escolhi meu nome, criamos possibilidades engraçadas, rimos juntes e foi nesse clima descontraído que renasci. Esse lugar ficava/fica em um ambiente de repartição pública no centro da cidade, mas ao mesmo tempo era diferente de todos os outros escritórios vizinhos pelo simples fato de ser frequentado pelas sapatonas, bichas, travestis, homens e mulheres trans da cidade. Era colorido, diverso, vivo e ocupado.

Sabe, eu precisei muito do Rio Sem Homofobia. Sei que outras pessoas também precisaram e ainda precisam. Do jeito que esse mundo tá, nós crescemos achando que somos uma aberração da natureza, um experimento divino que deu errado, um corpo equivocado, um doente mental, um ser inferior. Foi preciso alguém ir na minha casa e dizer: NÃO TEM NADA DE ERRADO COM VOCÊ, EXISTEM OUTRAS PESSOAS QUE PASSAM POR ISSO!

Pior que ser cidadão de segunda categoria é ser filho, irmão e amigo de segunda categoria. A soma de tantas violências nos traz a triste dificuldade de nos “autoestimar”, e aí, queridinha, como faz? Como produzir renda se você se sente um bosta? Como se projetar profissionalmente sem referências? Como não sucumbir à transfobia diária? Eu nem sei responder a essa última pergunta, só sei que precisamos de políticas públicas pra ontem. O sucateamento do programa é um retrocesso pelo simples fato de escancarar o descaso da sociedade com nossas vidas. O Brasil mata LGBT todo dia, precisamos de projetos de acolhimento, programas de geração de renda, campanhas de combate à discriminação por orientação sexual e identidade de gênero, enfim, políticas públicas, né mores!

Quero agradecer a TODAS as pessoas envolvidas no projeto. Graças à atuação de profissionais qualificados e às pessoas que conheci, pude levantar minha voz fina e dizer: sou homem. Hoje gosto muito mais de mim, me sinto, enfim, #transvivo. Dedico esse texto aos profissionais do Rio Sem Homofobia que estão há meses com seus salários atrasados, quando não demitidos, em especial a Lívia Amora e Bianca Cereja.

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