Os Entendidos

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Debater a diversidade com bom humor.

15 de março de 2016, 16h13

Por que Bolsonaro é uma ameaça às mulheres?

Essa semana tivemos mais uma passeata da direita manifestando todo o tipo de sandice, como já é de costume. Um ponto inédito foi a hostilização à presença de Aécio Neves e outros figurões do PSDB, que, antes, representavam politicamente o setor anti-PT ou anti-esquerda. Lembro que em uma dessas passeatas, talvez a de um ano […]

Essa semana tivemos mais uma passeata da direita manifestando todo o tipo de sandice, como já é de costume. Um ponto inédito foi a hostilização à presença de Aécio Neves e outros figurões do PSDB, que, antes, representavam politicamente o setor anti-PT ou anti-esquerda. Lembro que em uma dessas passeatas, talvez a de um ano atrás, o Aécio apareceu, ficou uns 20 minutos e foi embora. Mas deu tempo de ser tietado por ninguém menos que Jair Bolsonaro, e, de quebra, esnobá-lo. Parece que o jogo virou. Dessa vez, Aécio foi posto para fora, enquanto Bolsorano foi ovacionado como o novo líder político e candidato preferido da direita civil à presidência da República nas eleições de 2018.

venus Há muitas razões para isso. A primeira delas é que ficou muito feio continuar defendendo um sujeito envolvido em inúmeros escândalos de corrupção, como é o caso de Aécio Neves (mesmo que Bolsonaro também esteja circundado de suspeitas de atos ilícitos, só que a direita civil ainda não descobriu). Outra razão é que, assim como Aécio, Bolsonaro defende um regime que adote o neoliberalismo como orientação econômica, o que garantiria a esse setor civil amedrontado pela “ameaça comunista” permanecer à frente das outras castas socioeconômicas. O último dos motivos é a inclinação de Bolsonaro à extrema-direita, com seus discursos pró-armas, anticomunistas e neopentecostais. Por neopentecostais entenda-se: justificativas pseudo-cristãs para a demonização de gays e mulheres. Ele reúne características que atraem as alas mais retrógradas da sociedade.

É claro que continua sendo muito válido refutar o neoliberalismo, que não tem quase nada que o sustente como proposta para reformas estruturais de caráter político, econômico e social; mas vou deixar essa conversa para uma outra oportunidade. Hoje, gostaria de aproveitar a notícia da conversa entre Bolsonaro e Ellen Page para refletir, num papo de mulher para mulher, sobre essa figura que parece despontar assustadoramente como liderança reacionária. Sabendo se tratar de uma atriz americana e ativista da causa LGBT, Bolsonaro se dispõe a falar sobre sua forma de “educar” uma criança gay: pela “cura” através da porrada. Com o pretexto de defender valores morais – mais do que duvidosos – Bolsonaro faz uma clara apologia à violência doméstica contra crianças. O mesmo que defende a pena de morte como solução para a criminalidade propõe ideias fazendo apologia ao crime. Que é, por sua vez, crime. O que fica ainda mais grave quando se trata de um homem em pleno exercício de um cargo político.

https://www.youtube.com/watch?v=ju80vxDc1HA

 A reação de Ellen Page é um corajoso desafio à ousadia de Bolsonaro. Ela pergunta se ele acha que, sendo ela gay, ela mereceu apanhar quando criança para se “ajustar”. Uma figura autoritária e tirana como ele nos faz esperar uma resposta à altura, um machão afrontando uma garota pequena e delicada, mas o que acontece não é isso. Bolsonaro recua, preferindo cinicamente cantar a interlocutora, numa tentativa de fazê-la amolecer e aceitar melhor o absurdo que acabara de ouvir. A confissão de que ele assobiaria para ela na rua pareceu uma forma dissimulada de dizer: eu sou homofóbico, menos com você. Isso provavelmente porque ele acha que ser assediada por ele é um privilégio, é como receber uma medalha.

O que muita gente pensaria, em primeiro lugar, seria que a repulsa provocada por essa cantada tem origem no fato de Page ser gay, o que faz total sentido, mas sendo ela gay ou não, ela é antes de tudo, mulher. O constrangimento consiste no fato de sermos humanas e nem sempre estarmos disponíveis às investidas sexuais de terceiros. Ser cantada nos faz sentir como seres sem alma, sem valor, sem autonomia e dignidade para escolhermos o momento de vivenciarmos nossa sexualidade. O homem que canta, na verdade, assedia, porque ele empurra a mulher para uma situação sexual sem que ela tenha escolhido estar nessa situação. O contexto é o mesmo do estupro, é violento porque não é consensual.

O homem assedia porque ele é um produto social. Ele é socializado como alguém que tem, naturalmente, o domínio sobre a mulher. Todos os homens são assim? É claro que não, muitos são capazes de se ressocializar, desaprender o que são obrigados a assimilar desde que nascem, seja pela família, seja pela escola, seja pela tv, seja pela cultura. Mas todos os homens são criados para ser assim, simplesmente por nascerem homens. Eles aprendem que a mulher é propriedade deles, portanto, é um direito deles incluí-las em uma ocasião sexual quando bem entendem. É um direito deles querer fazer uma mulher se sentir privilegiada por ele acha-la bonita. É um direito deles, e até mesmo um valor, uma demonstração de nobreza, um favor, “elogiar” uma mulher. Sendo, no entanto, uma situação em que a mulher não escolhe estar, a cantada é uma agressão, não é uma gentileza, é uma desrespeito à dignidade e à liberdade da mulher, é apenas uma demonstração de poder. Não é cantada, é ameaça.

Bolsonaro não foi gentil com Ellen Page, nem com nenhuma outra mulher, não publicamente. O ocorrido é lamentável. Igualmente à proposta de se pagar menores salários às mulheres por elas engravidarem; assim como a grave ofensa feita à Maria do Rosário, a quem Bolsonaro disse que não merecia ser estuprada por ele; assim como todas as outras atrocidades já proferidas por esse indivíduo. Mas, na atual conjuntura, em que temos essa sombra fascista rondando o país, o fato deve nos comover como mulheres a pensar em votar como mulheres, pensando no quanto um presidente conservador pode tornar o país um lugar muito mais inseguro, injusto e regressivo para nós. O constrangimento vivido por Ellen Page deve nos transferir automaticamente ao lugar dela e, de lá, entendermos que o que foi praticado contra ela foi praticado contra todas nós.