“Prometo combater a ideologia de gênero de qualquer forma que se manifeste, e seus efeitos nocivos”. A frase está na carta compromisso do prefeito eleito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella. Ela é parte de uma lista de promessas que inclui a defesa do direito à vida desde a sua concepção, da família constituída de acordo com as doutrinas da igreja e o respeito à diversidade religiosa da cidade, com o compromisso de barrar qualquer lei que vá de encontro a esses “valores inalienáveis”. Uma carta que não causa surpresa nenhuma, mas que pelo menos serve para pensarmos nos tais “efeitos nocivos” dessa tal de “ideologia de gênero”…

DandoPintaSloganO resultado das eleições 2016 está sendo amplamente discutido e ainda deve ser tema de diversas pesquisas em Ciência Política nos próximos anos. O processo que engloba as manifestações de 2013, o impeachment de Dilma Rousseff e a “implosão do PT” nas urnas é fascinante, especialmente para quem pensa o papel da Esquerda no Brasil e a onda conservadora que cresce em todo mundo. E é nesse contexto que temas como regulamentação do aborto e do consumo – e comércio – de drogas, além dos direitos sexuais e da identidade de gênero, são transformados em “espantalhos” capazes de fazer com que grande parte do eleitorado escolha candidatos que, à rigor, trabalharão contra seus interesses. É o uso da moral como capital político, o que não é nenhuma novidade.

A “ideologia de gênero” é um desses “espantalhos”. Primeiro porque o termo é aplicado como se um grupo ou alguém – no caso, lideranças LGBT – estivesse tentando aplicar algum tipo de ideal normativo. Em segundo lugar, porque os debates sobre gênero e sexualidade que tanto parecem assustar a população estão restritos às esferas acadêmica e política, o que faz com que praticamente NADA discutido nos debates televisivos ou em memes de Facebook tenha conteúdo pertinente às teorias e disputas que estão sendo utilizadas para batizar e demonizar conceitos. E por fim, porque são justamente aqueles que desejam calar a discussão sobre sexualidade que estão o tempo todo a falar dela, produzindo os tais “efeitos nocivos” que juram estar combatendo. Seria cômico se não fosse trágico!

A ideia de discutir sexo e sexualidade nas escolas não é nova, está aí regulando o que é considerado “sadio” ou “doente” há mais de um século. O máximo que se tentou fazer foi discutir o respeito à diversidade, inclusive como forma de diminuir a violência e a LGBTfobia. Entretanto, propostas do tipo são rechaçadas pelo medo de que esse debate ameace “o estado natural das coisas”, que nada mais é do que a articulação entre saberes biológicos e o moralismo, frequentemente baseado em preceitos religiosos. A temida “teoria queer” fala justamente do caráter normativo dos gêneros e das técnicas que aprendemos a utilizar para entrar em acordo com nossa identidade de gênero, o que por sua vez não diz respeito aos nossos desejos e práticas sexuais. E olha que coisa, todas essas formas de ver o mundo – a biológica, a teórica, a moralizante, a religiosa – são apenas eixos analíticos para tentar entender e classificar alguma coisa. São escolhas, mais ou menos legítimas de acordo o lugar em que estão sendo aplicadas e, especialmente, por quem e com quê propósito.

Ou seja, a verdadeira “ideologia de gênero” é essa aplicada por pais, professores, políticos e pastores que insistem em dividir o mundo em azul e rosa.

É esse verdadeiro fetiche pelo padrão binário entre “homem/masculino/macho” e “mulher/feminino/fêmea” que cria dois tipos ideais extremos e, portanto, inatingíveis. Mesmo o mais machão dos homens ou a mais delicada das mulheres não conseguirão corresponder completamente a esse ideal, então o que é produzido é a angústia, o PROBLEMA de nunca estar plenamente “certo”. E é esse o “espantalho”, é esse o medo. O medo de que caso esse assunto seja debatido de maneira responsável, as pessoas – e principalmente as crianças – consigam perceber as rédeas utilizadas para controlá-las. O “dano” tão temido é que alguém seja livre para fazer as próprias escolhas e para encontrar seu lugar no mundo, e tentar impedir isso não é nada cristão generoso.

Ah, então quer dizer que não existe homem e mulher ou que é errado “agir feito homem” ou “agir feito mulher”? Não. No mundo tem de tudo, do mais tradicional ao mais alternativo. O que não dá é para tentar impor uma “verdade” a todos – ainda mais quando se procura sustentá-la em coisas tão poderosas quanto as leis, a medicina ou a religião – e depois “pagar de bonzinho” lavando as mãos quando esse poder resulta em tragédia. Nesse caso, seria mais honesto dizer que não se importa com ninguém mesmo e que o único objetivo é a obtenção de ainda mais poder, mas aí pega mal, né? Sinceridade não ganha a eleição.

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

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