Imagine você, homem ou mulher cisgênero (vá até o fim do texto, se não conhece essa palavra), diante da seguinte situação: depois de passar por um longo processo seletivo para trabalhar em uma empresa, o analista de recursos humanos te diz que o seu é o melhor currículo entre todos os candidatos participantes, mas que não irá contratá-la porque não gostou do seu queixo. Sim, é um absurdo. Mas acontece coisa parecida (muito pior) com um grupo marginalizado de brasileiros. Travestis, mulheres e homens transexuais passam por humilhações no mercado de trabalho tão e somente por serem quem são. Embora iniciativas do poder público e da esfera privada estejam tentando mudar esse cenário, ainda é enorme o preconceito contra este segmento da população que, pela falta de opções, acaba empurrado para o mercado informal de trabalho.

Para as pessoas trans, terminar o ensino médio já é um desafio tortuoso. O isolamento e o bullying de colegas de sala e até de professores provocados pelo preconceito fazem muitos adolescentes desistirem de frequentar a escola. Para os que conseguem vencer essa batalha e precisam ingressar no mercado de trabalho, a realidade joga mais um balde de água gelada nas costas. Exclusão, exclusão e exclusão. Na comparação, conseguir um emprego formal está para a maioria das pessoas trans como uma promoção para um cargo de melhor remuneração está para os trabalhadores cis.

Segundo dados da ONG Transrevolução, 90% das mulheres trans têm a prostituição como fonte de renda. A mais antiga profissão do mundo é aquela opção que sobra diante da árida oferta de trabalho. A estudante de jornalismo Bárbara Aires foi demitida do primeiro emprego (pasmem, uma boate gay!) ao ter a identidade de gênero descoberta pela gerente. “Quando tinha 18 anos e comecei a tomar hormônios, eu já trabalhava nessa casa servindo bebida num bar. Durante o expediente, eu ficava (vestida) como menino e na hora de ir embora passava um batom e soltava o cabelo. Eu consegui fazer isso por três domingos. No quarto domingo, a gerente disse que não iria mais me chamar porque a casa não comportava pessoas como eu”, contou. Ela tentou empregos e “bicos” como balconista, vendendo churrasquinho e como cabeleireira, mas o final sempre se repetia: as portas batiam com força no momento que o contratante percebia que Bárbara é uma mulher transexual.

A realidade não cansa de dar exemplos da marginalização das pessoas trans. O fotógrafo e designer gráfico Kaique Theodoro, 22 anos, tentou uma chance no mercado de trabalho formal há dois anos em um momento de dificuldade financeira. Disputou uma vaga como atendente em uma rede de lanchonetes e chegou até a etapa final coberto de elogios. Tudo mudou quando ficou em frente à analista de recursos humanos para a entrega dos documentos.

“Estava desesperado procurando emprego, sem ter como fazer a hormonioterapia. Quando a gerente, ou supervisora, ou dona da franquia, whatever, viu minha carteira de trabalho com o sexo feminino, jogou na mesa e disse que não tinha como lidar com isso, que não fazia ideia do motivo de eu ter passado no processo seletivo. Eu peguei a carteira de volta, engoli a raiva e fui embora puto da vida com vontade de pegar ela pelos cabelos”, recordou o artista, que não voltou a tentar uma vaga de emprego com carteira assinada.

Resignar-se diante da imposição do uso do nome de batismo, comportar-se como convencionalmente alguém do sexo que consta na certidão de nascimento se comportaria e até aceitar de cabeça baixa as piadas fazem parte da tortura diária sofrida por grande parte homens e mulheres trans para conseguir o dinheiro na conta no fim do mês. O homem trans Cauã Cintra, 20 anos, enfrenta o cúmulo de ser impedido de usar o banheiro compartilhado pelos demais colegas de empresa.

O analista de sistema Cauã Cintra foi proibido de usar o banheiro na frente dos outros colegas de trabalho. "A transfobia é todo o dia"Foto: Felipe Martins

O analista de sistema Cauã Cintra foi proibido de usar o banheiro na frente dos outros colegas de trabalho. “A transfobia é todo o dia”Foto: Felipe Martins

“Eles não respeitam meu nome social, não respeitam meu gênero, não respeitam nada. Eu trabalho no segundo andar.  Os equipamentos do servidor do TI ficam no quarto andar. Eles me obrigam a usar o banheiro do quarto andar para ninguém me veja. Dizem que uma mulher poderia ficar constrangida se eu usasse o banheiro feminino, mas não me permitem usar o masculino”, contou o analista de sistemas goiano. “A minha dificuldade é lidar com a transfobia diária que eu sofro lá. Mas eu não posso largar o meu emprego que eu preciso para viver”.

A objetificação do corpo da travesti e da mulher transexual é mais um obstáculo enfrentado no dia a dia dessas pessoas. Para muitos homens mergulhados no preconceito, ser travesti é sinônimo de ser prostituta. A assistente de pesquisas clínicas da Fiocruz, Kakau Ferreira, 32 anos, enfrentou o assédio de um superior imediato quando trabalhava na loja de uma rede de fast food. Nem o ambiente de trabalho coletivo impediu o homem de tratá-la com desprezo.

“Ele tentava me aliciar, dizia para eu usar uma calça mais apertada. Até que chegou um dia que ele falou pra mim. “Hoje nós vamos sair”. Eu falei que não. Eu quero respeito. Minha identidade de gênero não te dá o direito de me desrespeitar. Aí ele mostrou mais ainda quem era e falou: “Já que você não quer foder comigo, eu vou te demitir”. Dito e feito, me chamaram no RH e me mandaram embora”, recordou a mulher transexual moradora da Baixada Fluminense.

Kakau Ferreira sofreu preconceito  e assédio sexual em locais onde trabalhou. Atualmente trabalha na FIocruz. Os órgãos estatais são portas de saída da marginalização das pessoas trans. Foto: Felipe Martins

Kakau Ferreira sofreu preconceito e assédio sexual em locais onde trabalhou. Atualmente trabalha na FIocruz. Os órgãos estatais são das portas de saída da marginalização das pessoas trans. Foto: Felipe Martins

Desiludida com o mercado formal de trabalho, ela começou a trabalhar como empregada doméstica. O que parecia ser uma solução, virou um inferno.

“Um policial militar disse para mim: Quando a minha mulher sair para a academia, eu quero sair com você e te pago R$ 300. Eu disse para ele que não estava na casa dele em troca de sexo, estava para ganhar o meu dinheiro cuidando da casa”. Eu pedi demissão e fui trabalhar em banca de jornal, mas o problema sempre se repetia. Sempre achavam que a minha identidade de gênero dava liberdade para a busca por sexo”, disse ela.

Um raro exemplo com final positivo encontrado por esta reportagem é o da revendedora Lara Lincoln. Exercendo a profissão para uma das maiores companhias de cosméticos do mundo, acabou obrigada a enfrentar a transfobia de uma executiva de vendas.

“Eu tinha conseguido a retificação dos meus documentos com o nome social e pedi para que ela fizesse a troca dos meus dados no sistema da empresa. Ela se negou a fazer, disse que não precisava, que iria dar trabalho. Eu bati o pé, disse que  ela iria fazer sim. É um direito meu e aquele nome antigo não diz nada mais sobre quem eu sou. Ela resolveu me afrontar e procurar a minha mãe para dizer que eu estava criando caso para a empresa. Fiquei revoltada e fui procurar os meus direitos. Falei com pessoas ligadas aos movimentos sociais e direitos humanos e o caso foi à frente até chegar ao comando da companhia. O diretor e o presidente nacional da empresa pediram formalmente desculpas para mim, garantindo que a característica que eles pregam é de respeito à identidade de gênero e orientação sexual das pessoas”.

Mercado informal e carreira pública são “alternativas”

A fama internacional da modelo Lea T e o sucesso no cinema e em séries de televisão da jornalista e atriz Carol Marra são realidade muito distantes para a maioria dos homens e mulheres transexuais no Brasil. O professor de Língua Portuguesa paraense Rafael Carmo, 24 anos, está fora de sua área de formação depois de conseguir uma primeira oportunidade dando aula de redação. Atualmente, trabalha com a esposa, também transexual, em um carro de lanches.

Rafael Carmo trabalha vendendo lanches depois de ter trabalhado como professor de redação "As portas sempre se fecham quando descobrem que a gente é trans". Foto: Felipe Martins

Rafael Carmo trabalha vendendo lanches depois de ter trabalhado como professor de redação “As portas sempre se fecham quando descobrem que a gente é trans”. Foto: Felipe Martins

“Em todo o processo de seleção, a gente sempre ouve a mesma coisa: eu vou te ligar depois, outra hora. Quando a responsável pela entrevista olha os meus documentos, muda completamente de fisionomia. A pessoa passa a me tratar no feminino, com discriminação, na frente de todo mundo. É um constrangimento muito grande, um desrespeito”, disse. “Aí eu acabo pensando em cair na prostituição. Não é questão de escolha, a gente acaba sendo jogado. Não é que a gente não queira trabalhar no mercado formal, é o mercado formal que fecha as portas para a gente”.

A professora Maya Valentina descarta trabalhar na rede privada de ensino

A professora Maya Valentina descarta trabalhar na rede privada de ensino

Formada em Artes Plásticas com pós-graduação em Arte Ilustrativa pela UFRJ, a professora Maya Valentina Monteiro, 39 anos, jamais cogitou a possibilidade de dar aulas fora da rede pública. “Nunca procurei escola privada. Acho um ambiente muito hostil. Se na rede pública passamos por problemas de preconceito, imagina na rede particular. Se houvesse algo assim, nem me contratariam, pois me imponho mesmo”. Essa valentia foi necessária ser aplicada quando um aluno agiu com preconceito transfóbico, pedindo a saída da professora da escola. “Ele foi à direção perguntar como uma coisa, se referindo a mim, poderia dar aula. Foi extremamente preconceituoso. Mas, por onde eu passo o que eu recebo é o carinho dos meus alunos. E no final das contas, ficou pior para ele. A turma inteira, aliás, a escola inteira se levantou contra o desrespeito que eu sofri e ele foi punido com uma advertência”, lembrou.

Das turmas onde lecionou, Maya tem grandes recordações. As primeiras aulas no ensino superior, na UFRJ, aconteceram na emergência de substituir um outro professor quase no fim do semestre e com o conteúdo atrasado.

” Eu peguei essa turma e passei todo a matéria que tinha que dar e mais um pouco. No final do período, fiz uma exposição linda no terraço do prédio para mostrar que eles conseguiram. Para mostrar que eles venceram e eu também venci. Fui muito aplaudida e, como consequência, todas as outras turmas que eu vinha a dar aulas ficavam lotadas, com alunos na lista de espera por uma vaga.”.

ONGs e poder público criam programas sociais

As prefeituras das duas capitais mais importantes do país criaram programas de capacitação profissional e fecharam parcerias com empresas para aumentar a empregabilidade de pessoas trans e travestis. O pioneiro Projeto Damas, da Coordenadoria Especial da Diversidade Sexual da Prefeitura do Rio (Ceds-Rio), segundo os dados oficiais, beneficiou 180 alunas nos últimos seis anos com cursos de etiqueta, ética, língua portuguesa, inglês e direito, culminando com estágios em empresas públicas e órgãos do Município.

“Eu tive noções de leis que amparam as pessoas LGBTs, noções de informática e português. E informações importantes que muitas das trans como eu não têm acesso. Aprendi como fazer para dar entrada no pedido de mudança do nome no registro civil, como fazer o acampanhamento médico. Através do Damas eu consegui o uso do nome social no meu trabalho. Hoje, eu posso andar de crachá com o nome que eu escolhi, o nome que me identifica”, disse Hellen Nogueira, que através do Damas conseguiu estagiar como secretária na Defensoria Pública do Rio.

Através do projeto da Prefeitura do Rio, Hellen conseguiu um estágio como secretária na Defensoria Pública.

Através do projeto da Prefeitura do Rio, Hellen conseguiu um estágio como secretária na Defensoria Pública.

Das mais de 20 pessoas trans ouvidas por esta reportagem, Hellen foi a única que declarou ter sido inteiramente respeitada como funcionária de uma empresa privada. Ela iniciou sua transição quando já trabalhava como atendente de supermercado. “Com o apoio do Damas, eu levei a minha situação ao Recursos Humanos da empresa. O meu caso foi resolvido rapidamente e em toda a minha documentação na empresa passou a constar meu nome social. Todos passaram a me tratar de acordo com a minha identidade de gênero. É maravilhosa a sensação de se sentir respeitada plenamente como ser humano. Aqui sou aceita do jeito que eu sou”.

No entanto, algumas mulheres transexuais ouvidas pelos Entendidos criticaram a qualidade do programa. “Na minha turma de 2014, nenhuma menina foi contratada através do projeto”, disse Lívia Andrade, 29 anos. Lara Lincoln, por sua vez, afirma que teve problemas até para receber o ordenado de um serviço prestado para a RioTur, empresa de turismo do Município. “Sofri transfobia em empresas onde fui encaminhada pela coordenadoria. E ao procurar a ajuda da Ceds, disseram que não iriam se indispor com os parceiros deles por minha causa”, relatou. “Na RioTur, eu quase não recebi. E quando fui reclamar ainda saí como errada”, continuou. “Outro grande problema que existia no Damas era o higienismo. Eles escolhiam as mulheres mais próximas de um padrão de beleza aceito pela sociedade para trabalhar no atendimento ao público. Quem não se encaixasse, estava fora. A intenção do Damas é ótima. Tive boas oportunidades para trabalhar nos eventos. Mas esse higienismo precisa ser repensado”, ponderou.

Em São Paulo, o programa Transcidadania foi ainda mais além: Em apenas dois anos, 300 vagas foram oferecidas para as alunas e alunos do curso, que recebem ainda bolsa-auxílio no valor de R$ 924 mensais. O programa engloba o ensino fundamental e médio pela Educação de Jovens e Adultos (EJA), cursos no Pronatec e aulas de Cidadania e Direitos Humanos. A diferença entre o orçamento dos dois programas é gigantesca. Segundo Os Entendidos apurou, o Damas teve um orçamento próximo de R$ 500 mil no último ano da gestão do prefeito Eduardo Paes. No mesmo período, o Transcidadania contou com um orçamento de R$ 2 milhões. A duração do curso é outro fator que diferencia os dois programas. Enquanto no pioneiro carioca as aulas variaram de quatro a sete meses, no programa paulistano os alunos têm uma grade curricular que se estende por dois anos.

“O Transcidadania mudou minha vida. Graças ao projeto consegui concluir o ensino médio e ingressar na faculdade de Direito através de uma bolsa do ProUni. O programa é muito bom. Consegui um estágio no centro de referência LGBT da Prefeitura que ajudou a ampliar meus conhecimentos”, contou Athena Joy, 28 anos. Ela lamenta que a empresa que trabalhava em parceria com o projeto encerrou o convênio. Muitas meninas empregadas acabaram mandadas embora. “Agora todas estão procurando um novo emprego, mas o problema é que o preconceito é muito grande. Quando as empresas descobrem que somos travestis, fecham as portas para a gente. Não é fácil”, resumiu.

Da iniciativa da ativista travesti Indianara Siqueira nasceu o PreparaNem. Um curso pioneiro voltado para travestis e transexuais que desejam retomar os estudos e se preparar para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Ministrado no Rio de Janeiro, contou com o apoio dos movimentos sociais para que as aulas chegassem até o final com toda a matéria dada. Os auditórios de sindicatos serviram de sala de aula para as pessoas trans receberem o conteúdo das disciplinas.

Para Bárbara Aires, o curso preparatório para o Enem mudou sua vida "Foi uma rede de afeto". Foto: Felipe Martins

Para Bárbara Aires, o curso preparatório para o Enem mudou sua vida “Foi uma rede de afeto”. Foto: Felipe Martins

Para Bárbara Aires, o curso preparatório para o Enem mudou sua vida “Foi uma rede de afeto”. Foto: Felipe Martins[/caption]Contudo, o cenário mais acolhedor foi a Casa Nem, imóvel no bairro da Lapa que ganhou esse apelido por ser a sede de outro projeto da ativista. Além das aulas, o sobrado acolhe 25 travestis e transexuais em situação de rua, virando ponto de encontro para festas e rodas de conversa de travestis e homens e mulheres trans de toda a cidade. No primeiro ano, o Prepara colheu resultados de saltar os olhos. Alunas conseguiram ingressar em universidades com grande concorrência por uma vaga, como a PUC e a UFRJ. E a semente se espalhou para outras cidades do país. Coletivos, ONGs e universidades públicas criaram cursos para atender este público. Capitais como Porto Alegre, Recife, Belo Horizonte e Goiânia passaram a contar com projetos semelhantes para a inclusão deste grupo marginalizado da população na sociedade.

“O Prepara foi fundamental na minha vida. Eu estava precisando me prostituir na rua. Estava quase sem dinheiro para pagar as contas do apartamento onde eu morava. Por pouco, não virei moradora de rua. Por isso que eu digo que o Prepara não é só um curso, é também proteção para a gente. Com toda a rede de afetos que foi construída, eu consegui alugar o apartamento que eu moro hoje. Eu me dediquei aos estudos, fiz o Enem. Com a minha nota, consegui pleitear que o exame fosse reconhecido como conclusão do Ensino Médio. Passei no vestibular e consegui uma bolsa na faculdade de Jornalismo onde hoje eu estudo. Graças a Deus e ao Prepara consegui trazer minha mãe de São Paulo para morar comigo e até mobiliei minha casa. A rede criada em torno desse projeto foi fundamental para resolver as minhas vulnerabilidades”, contou a estudante de jornalismo Bárbara Aires.

No entanto, a Casa Nem corre o risco de fechar por falta de apoio financeiro. Uma “vaquinha” foi criada na internet para arrecadar fundos para o projeto não parar.”Ainda estamos tentando resistir nessa guerra que a sociedade cisheteronormativa nos declara e pratica sobre nossos corpos todos os dias”, disse a criadora do PreparaNem, Indianara Siqueira.

De acordo com dados da ONG Transgender Europe, o Brasil amarga a liderança no ranking de assassinatos de travestis e transexuais no mundo. Em 2016, 177 pessoas trans foram assassinadas: 95 mulheres travesits, 60 mulheres transexuais e 22 homens transexuais.

Cisgênero – Pessoa cujo gênero é o mesmo que o designado em seu nascimento. Cauã Reymond, ator,  é um homem heterossexual cisgênero. Thammy Miranda, ator e filho da Gretchen, é um homem heterossexual transgênero.

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