No último domingo (27), em Los Angeles, aconteceu a 89ª cerimônia do Oscar — considerado o mais importante prêmio do cinema mundial. Grandes premiações foram feitas e aclamadas pelo público, como o caso de Viola Davis, vencedora do prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante, por sua atuação em “Fences”, e Mahershala Ali, que levou o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante por “Moonlight”, vencedor também da categoria de Melhor Filme. No entanto, podemos aprender com a Academia que se você é acusado por assédio sexual, ganha de brinde uma indicação na categoria de Melhor Ator. E foi exatamente isso o que aconteceu com Casey Affleck.

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Em 2010, o irmão de Ben Affleck dirigiu o documentário “Eu ainda estou aqui”, o qual rendeu a ele uma série de acusações de assédio.  De acordo com Amanda White, produtora do filme, Affleck a constrangeu diversas vezes, chegando a ponto de agarrá-la pelo braço após ela se negar a ir para seu quarto de hotel. White afirma, também, que Affleck a trancou fora de seu quarto e incentivou outro homem a tirar a roupa na sua frente, além de se referir às mulheres como “vacas”. A diretora de fotografia, Magdalena Gorka, relatou que também sofreu assédios constantes nas mãos de Affleck e de outros homens da equipe. Gorka conta que em determinada ocasião, enquanto dormia, o ator se deitou em sua cama de cueca e camiseta, cheirando a álcool.

Contudo, nenhuma dessas acusações impediu que Affleck fosse não só indicado ao Oscar como também vencesse o prêmio. A atriz e ativista dos direitos das mulheres, Brie Larson, foi quem entregou a estatueta ao ator. Vencedora do prêmio de Melhor Atriz do ano passado por “O Quarto de Jack” – em que interpretou uma mãe sobrevivente de violência sexual e psicológica –, a atriz chamou a atenção ao se recusar a aplaudir Affleck após o anúncio. Esta foi a segunda vez em que a ativista se negou a reconhecer a premiação do ator. Durante a cerimônia do Globo de Ouro, em janeiro, Larson também nos representou com sua manifestação silenciosa.

A mesma tristeza que tomou conta do rosto de Larson ao ter que entregar, pela segunda vez, um prêmio a um homem acusado duas vezes por assédio sexual, foi sentida por muitas mulheres e comentada nas redes sociais. A sensação é de que não existe absolutamente nada de ruim que possa ser feito por um homem que seja capaz de manchar sua carreira.

Quem assistiu a performance de Justin Timberlake, concorrente na categoria de Melhor Canção Original, ao cantar “Can’t Stop The Feeling” no início da cerimônia, nem deve se lembrar que ele foi o responsável pela exposição do mamilo de Janet Jackson no Superbowl de 2004 e pelo declínio de sua carreira. Na época, ele era apenas um cantor lançando carreira solo e tentando se livrar do passado em boy band, já Janet era uma artista consagrada. A cantora ajudou Justin no lançamento de sua carreira solo e de presente recebeu ingratidão e indiferença do astro, que se desculpou na época, mas foi incapaz de boicotar os prêmios que recebeu em solidariedade à amiga. Alguém ainda escuta falar de Janet Jackson? A resposta é não, mas de Justin, nunca deixamos de escutar.

Mel Gibson, Johnny Depp, Sean Penn, Roman Polanski, Michael Fassbender, Sean Connery e Woody Allen são outros exemplos de homens que foram acusados de violência contra a mulher, mas não tiveram suas carreiras afetadas de forma alguma. O mesmo não aconteceu com famosas como Winona Ryder e Britney Spears ou com homens negros que passaram pela mesma acusação. O que deixa evidente que, para Hollywood, você só será boicotado se for mulher ou negro.

Apesar disso, estamos em um momento em que a luta por direitos avança cada vez mais e nós, mulheres, não iremos assistir caladas a esse tipo de acusação, a menos, é claro, que calar-se seja um manifesto como fez Brie Larson. Estamos alertas e mesmo que não possamos fazer nada para impedir absurdos como esses, não esqueceremos. Na imagem abaixo, nós temos apenas três vencedores: Mahershala Ali, Emma Stone e Viola Davis.

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