Conheci a Mc Linn da Quebrada em 2016, após o lançamento de Enviadescer, seu primeiro single, na internet. Pouco antes desse primeiro contato, me recordo bem, grupos virtuais discutiam uma outra música, de outro artista também da comunidade LGBT, que versava por ai como, pra ser viado, era preciso ser muito mais que homem: devia-se ser macho — porque, como sugerido na letra, dar o cu era uma coisa que carecia de muita coragem. Mesmo forçando a barra em mim mesmo, pra tentar entender aonde aquilo queria chegar, não vi nada de benéfico ali. E da mesma forma que fui um dos que acharam aquilo tudo um pequeno sinal de retrocesso, muita gente amou e ama até hoje. E isso também é válido.

Mas não é difícil entender os motivos de um discurso assim ser aceito pela própria comunidade LGBT (em especial, a cis gay): aquela música era só mais uma afirmação do gay discreto, homem, viril, que não leva desaforo pra casa porque macho é bruto mesmo e a gente resolve as coisas na porrada. Pra mim, que não me encaixo no estereótipo universal do que é ser gay, no entanto, não era o tipo de resposta à LGBTfobia que a gente precisava. Nos meus ouvidos, a música do Mc Queer era só mais normatividade disfarçada de luta.

A ideia de que para ser gay é preciso ser “muito macho”, nunca me contemplou. As primeiras vezes que me deparei com esse tipo de afirmação foi dentro da minha própria casa, na boca de meus pais, irmãos e parentes, nos meus círculos íntimos de amizade, e não parou quando entrei na universidade, me envolvi mais com o meio gay, nas ruas por onde passo, nos lugares em que vivo, nos filmes, na TV, nas mesas de bar e até mesmo na música. O mundo todo diz isso o tempo todo. É o senso comum, que trás junto com essas palavras olhares violentos que dizem: seja gay, mas não ouse renegar sua masculinidade, se não o bicho pega.

E no meio desse turbilhão, Linn aparece debochando do macho discreto e reivindicando o direito de não sermos como eles. O direito de sermos quem realmente somos: seres que não se encaixam em padrão algum, que não é bem visto nem pelos seus iguais, que é estranho. Linn estava cantando no meu ouvido que não havia nada de errado em ser bixa, que duvidoso era o oposto.

Foi a primeira vez na vida que uma música me disse que era lindo não ser cisnormativo e, finalmente, me mostrava que era possível lutar sem cair no senso comum dos discursos higienizantes.

Meses depois após esse alívio que foi Enviadescer, fomos todos presenteados com o segundo single dela: Talento.

Se antes, Linn nos dizia que abandonar a cisnorma e seus rastros de normatividade era o caminho, com Talento ela parecia dar uma resposta natural a toda normatividade hipócrita que é parte gritante da comunidade LGBT — e que foi sintetizada na música de Mc Queer. O discurso agora era mais direto e até mesmo mais violento: Linn dizia ao padrão discreto de viado que não se submeteria mais ao que ele diz, que não importa o quanto ele pedisse, não se curvaria mais às suas vontades clandestinas que só nos deseja no canto escuro do banheiro, escondido do mundo. Que resistência vai além de ter coragem pra dar o cu: ser viado não é tem nada a ver com reafirmar masculinidade e/ou um questão de bravura sexual, é não temer existir como quiser. Porque é isso que nós somos.

E não parou por aí. “Bixa Preta” e “A Lenda”, falam diretamente com o lado racista e misógino da comunidade LGBT, que trata o gay negro e/ou afeminado como seres menores e dignos de riso, nunca de respeito, justamente por fugirem do padrão branco cisnormativo que nos escraviza e, como já dito, é tão exaltado mesmo entre nós. “Mulher” é uma ode à travestilidade e todas as mulheres trans, que também tem que lidar diariamente com o preconceito de todos os lados: hetero ou não, essas mulheres sofrem na mão de toda a população cis e são renegadas e perseguidas até mesmo pelos próprios LGBs. Na mesma linha, “Pirigosa” é um grito de resistência pela comunidade de pessoas trans em geral, mas em especial a galera não-binária, que também tem que lidar com o desrespeito dentro e fora da comunidade LGBT o tempo todo. “Necomância”, “Pare Querida” e Dedo no Cú” são a castração do macho e ruptura necessária com o sexo falocêntrico e mecanizado: ninguém precisa de pau de macho pra gozar, e o sexo vai muito além de entra e sai vara, como ela reafirma em “Tomara”.

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“Submissa do 7º dia” e “Bixa Travesti”, são um manifesto em si: o que há de errado em não ser normativo? O que há de tão certo em se reprimir pra se encaixar em um mundo que nunca vai te aceitar, não importando o quão macho você demonstre ser? O que é que há em mim que tanto incomoda vocês, cis-heteros, viadada normativa em seus corpos brancos, lindos e malhados? O quê?

Mc Linn da Quebrada é a voz que o movimento LGBT precisava, não só por propor através de sua arte uma forma visceral de resistência frente à LGBTfobia, mas por, também, não ter medo de expor as barreiras que existem entre nós mesmos e tem nos feito, por muitas vezes, dar um passo à frente e três para trás.

E o melhor de tudo, é que a bixaria tá só começando.

Batam palmas para as travestis.

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