“Negro” somos uma obra de ficção dos brancos. Um ser inventado e teorizado para justificar a suposta “superioridade branca”. Uma ladainha para legitimar o domínio de sinhôs e sinhás brancos sobre os corpos, as identidades e as vidas dos colonizados. Uma balela tão repetida que hoje em dia passa batida como algo “natural” – com gosto de “sempre foi assim”. Um personagem triste e miserável criado para apaziguar o peso nas consciências mais “sensíveis” da Casa Grande. Afinal, sem essa criatura, o criador “branco” não teria porquê nos guiar rumo a “civilização” através de continuados atos de barbárie. Para tal feito religião, ciência e literatura uniram esforços na tecedura de inúmeras narrativas sobre o quão exótico somos: do que gostamos, como dançamos, para que existimos, o que produzimos,… e o que desejamos. Ou, ao menos, o que deveríamos desejar.

 

“Hoje a noite, amante negro / Eu vou enfeitar o meu corpo no seu”

Sábado fui a uma festa onde o público, majoritariamente gay masculino, vai para ferver. Uma night para aqueles que se permitem romper com o decoro social e seguir seus instintos sexuais de macho – visto a pouca frequência e sucesso dos afeminados no recinto – sem qualquer tipo de pudor. Isso mesmo, um evento onde o sexo rola solto. Sem escurinho ou reservados e ao som de batidas eletrônicas – que na minha opinião podiam ser trocadas por sarração.mp3. Sempre evitei esse tipo de evento, mas surgiu o convite e como nunca soube entender exatamente porquê acabei encasquetado com alguns porquês.

Já sabia que a galera aproveitava o guarda-volumes para se trocar e andar só de cueca (importada), indumentárias de couro, máscara ou o que fosse. Tanto para facilitar o desenrolar das coisas quanto para mostrarem aos outros suas intenções e disposições. E foi assistindo aquele desfile de corpos, em sua maioria brancos, seminus que me deparei com o privilégio que é poder se apresentar como objeto de luxúria por capricho e voluntariedade. Foi acompanhando o ambiente de permissividade no qual os outros se embriagavam que percebi que aquele espaço de socialização gay não me oferecia absolutamente nada de muito novo, pois o pressuposto de que meus impulsos sexuais são mais aflorados independe do que esteja vestindo – ou deixando de vestir. Nunca foi necessário pretexto nenhum para que minha figura fosse encarada como um artigo libidinoso a disposição. Inclusive já sofri abordagens mais invasivas muito mais gratuitamente – isso é, quando não sentem motivos para me temer e evitar.

Entrei achando que presenciar o pessoal fudendo pelos cantos me deixaria desconfortável, mas passei a noite refletindo sobre o papel que a cor da minha pele exerce nos espaços de socialização gay. O que me incomodou foi reparar que a concentração de melanina na minha derme tem o efeito muito parecido ao de um jockstrap: o de um sinal de na pista pra negócio – não só lá, mas em diferentes lugares e contextos. O que me deixou desgostoso foi constatar que tal como um chapéu de cowboy basta para alguém embarcar num fetiche faroeste, os meus traços e minha tonalidade também bastam para aqueles com desejo de vivenciar o que seria trepar com um negão. Bem aos moldes daquela experiência que de tão exótica costuma ter até uma categoria própria nos sites pornô.

Antes que me acusem de moralismo, aponto que não se trata de condenar orgias ou o tesão de ninguém. Cada um sabe onde o calo aperta e como o jato jorra. A questão é: o que para a maioria daqueles homens brancos de classe média era uma oportunidade fora do comum, na minha pele não representou nada de extraordinário. Pelo contrário, de certa forma acaba me enquadrando no personagem que há muito me animaliza e que me descreve como garanhão, procriador, selvagem e cavalar. Não por conta de algum apetrecho que tenha escolhido usar ou de uma festa que tenha decidido ir, mas por ser quem  – ou o que – sou.

Certamente nem todos os frequentadores saíram de casa querendo revolucionar o que for. Sem dúvidas, a maioria estava mais afim mesmo era em dar uma aliviada ou em acompanhar pornô ao vivo de catuaba na mão. Porém, por mais que eu aprecie essas coisas, o que mais me agradou lá foram as conversas que travei. Talvez por conta delas me veio o questionamento sobre os divergentes interpretações que tirei da situação. Contudo foi interessante confirmar como algumas relações estruturam até os espaços mais “desconstruídos”. Por mais que eu não considere a festa um lugar exatamente racista, como parte da sociedade, o racismo não poderia ter deixado de marcar presença.

“Lá vem o negão / Cheio de paixão “

Novamente, não estou querendo dizer que homens negros que curtem essa marola estão errados; ou que não se dão ao respeito; ou que são co-responsáveis pelo estereótipo. Nada disso! Apenas reparei que o viés transgressor desfrutado pelos brancos nessa história simplesmente não se aplica em corpos negros. Não pelo ato em si, mas justamente pela plateia branca.

A história de homens negros realizando atos sexuais sob olhares exaltados de homens e mulheres brancos – independente da vontade dos envolvidos – não é nenhuma novidade. Não começou com os contos eróticos na internet, nem com o Kid Bengala ou com o “negão do Whatsapp”. Clandestinidade, precariedade e riscos à própria saúde fazem parte do cotidiano de pessoas negras no continente americano desde que o primeiro tumbeiro zarpou da África. Ausência de afeto e reação instintiva a estímulos também.

Não surpreende que corpos negros encontrem-se facilmente a dispor da curiosidade e do apetite brancos. Revolucionário seria a criação de interações novas, para além do senso comum deixado pelos escravocratas. Inovador seria deliberadamente renunciar às manjadas brancas e/ou o total descompromisso com suas expectativas. Transformação seria se pessoas negras não dependêssemos de avais e convites brancos para gozarmos e explorarmos nossas próprias fantasias. Sem a necessidade de disfarces, pretextos ou sujeição a temáticas pré-concebidas. Contudo, trocando observações com outros frequentadores negros acredito que a proposta de uma noite de luxúria somente entre pretos não teria o mesmo apelo para os que lá se encontravam. Alguns inclusive demonstravam confiança no roteiro prescrito para melhor se assimilar. Pode ter sido só impressão, mas já fui a muitos rolês GGG pra não reconhecer quando um homem negro está mais interessado na aceitação de algum boy magia – leia-se branco – do que abertos para se identificar com outro corpo negro.

Para sermos aceitos como amantes promissores nesse açogue mercado, é preciso, além da hipermasculinidade, o silenciamento de qualquer tensão racial, assim como um repertório cultural refinado – leia-se branco também. Pois, por mais que se espere do falo negro a capacidade (mitificada) de destruir/castigar/arrombar, um pulso firme só é valorizado em nós no campo do erótico. Isso porque o nosso fenótipo foi conotado pelos europeus como um símbolo de primitividade e a nossa pele como indicativo do que precisa ser superado – leia-se embranquecido. As potencialidades mais requisitadas foram sempre físicas/manuais e não mentais, até porque a pressuposta supremacia intelectual dos povos brancos fundamenta justamente a diferenciação entre domadores e domesticáveis. Ou seja, para nos provarmos bons candidatos afetivo-sexuais num mundo que orgulhosamente reverencia Rodrigos Hilberts, se faz necessário que muitas das vezes acabemos rejeitando os nossos e a nós mesmos.

“Você é um negão de tirar o chapéu

Curiosamente, tão ausentes quanto os corpos negros estavam as pintosas (obviamente de todas as cores) e outros disruptores da heteronormatividade. Embora não houvesse barbies, o culto à masculinidade e à branquidade se faziam bastante presentes. E o mais impressionante é que nem era algo deliberado. Talvez porque esses subgrupos dos marginalizados não precisarem pagar ingresso nem data no calendário para vivenciar sexualidade de formas não-convencionais, o próprio projeto não seja lá tão atraente. Ninguém precisa sair de casa pra receber um “não curto negros” ou “prefiro discretos”.

Todavia, de todas as minhas observações, a que mais me inquietou foi o descaso com sexo seguro. Fiquei intrigado se a razão disso era o tesão desenfreado dos participantes, ou  se muitos ali já estavam “vacinados” contra o vírus da AIDS. Em ambos os casos avalio que a ação publicitária na entrada do PreP – “anticoncepcional anti-HIV – não poderia ser mais adequada. Só espero que a banca de classe média do público permita encaixar esse cuidado no orçamento.

Ainda que todos sejam adultos e estejam minimamente cientes dos riscos que tomam, mais uma vez me peguei questionando se esse descaso com a saúde e a segurança também não potencializam o hedonismo dos bacantes em detrimento de membros que já se encontram à margem. Confesso que isso foi o que mais me brochou no todo. Não que nunca tenha sido inconsequente, principalmente em relacionamentos, mas ver revezamento de pau e quase nenhuma camisinha ultrapassa vários dos meus limites.

Num todo considero a experiência válida. Recomendo a quem tem curiosidade. Tanto para participar quanto assistir, mas também para quem quiser conversar. Ótima papos são possíveis no fumódromo. Para os mais tímidos talvez seja uma boa ir com amigos. Para os inseguros aconselho cuidado para não aceitar qualquer coisa por medo de voltar chupando só o dedo. Para os produtores, desta e de outros rolês prafrentex a dica é aceitar o desafio de explorar novas fórmulas e fontes narrativas. Rememorar glórias do passado pode ser legal, mas quase nunca para todos, sobretudo para aqueles já menosprezados pela história. Por fim, para as biu preta lembro que independente do discurso vigente na nossa cultura temos muito mais para ser desejável que nossos músculos e podemos estrelar proibidões inconcebíveis na Casa Grande.

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