Há algumas semanas fui convidado para falar sobre afrocentricidade na Faculdade de Educação da UFF. Após a apresentação do texto que havia preparado para a ocasião, intitulado “Carta aberta aos negros e negras que lutam pelo fim da escravidão do pensamento”, os alunos negros presentes trouxeram questões e experiências sobre o tema. Alguns alunos brancos, que eram a maioria na sala, também fizeram perguntas. Uma aluna branca me fez a pergunta mais importante que uma pessoa branca que estava naquela sala poderia fazer: “eu sou racista?”.

Os olhares negros e brancos me fitavam esperando o que eu iria dizer diante de uma questão, aparentemente, da ordem da intimidade, do privado, daquilo que só quem fez a pergunta poderia de fato respondê-la genuinamente. Mas sabemos que o racismo não é da ordem do privado, que o racismo no Brasil é estrutural e por ser estrutural perpassa todas as instituições e todas as subjetividades.

Sim, você é racista, respondi. Os olhares brancos me olhavam com surpresa e os olhares negros com alívio. A aluna então começou a discorrer sobre sua atuação como professora numa escola pública e os embates em que ela fazia na defesa dos alunos negros. Elogiei o envolvimento dela na luta antirracismo na educação, mas se envolver na luta antirracismo não torna uma pessoa branca não-racista.

O branco é uma metáfora de poder, como bem disse James Baldwin, e esta metáfora determinou as relações dos povos brancos europeus com os povos não-brancos de África, América e Ásia por meio da subjugação dos povos não-brancos pelos brancos. No Brasil, a escravidão dos negros trazidos de África e que perdurou por quase quatrocentos anos produziu efeitos de poder profundos em tudo aquilo que estrutura uma sociedade. A desigualdade social no Brasil, por exemplo, em que 75% da população mais pobre é negra, é efeito direto da escravização do povo preto. Além disso, a expectativa de vida das pessoas negras é seis anos menor do que a de pessoas brancas, a renda familiar per capita de famílias brancas é mais de 200%  maior do que a renda de famílias negras, apenas 12,8% dos jovens negros com idade entre 18 e 24 anos chegam ao ensino superior. E a essas desigualdades chamamos racismo.

O racismo não se presentifica apenas quando alguém faz um enunciado de teor racista ou ofende diretamente uma pessoa negra por ela ser negra. O racismo se faz presente em todas as instituições sociais porque estas instituições se fundam a partir da lógica racista que sustenta, desde o século XVI, a economia e a política brasileira. Um exemplo claro da dimensão estruturante do racismo se dá na formação acadêmica dos cursos de saúde tais como medicina, psicologia e enfermagem. Os currículos dessas graduações, até pouco tempo atrás, não contemplavam estudos e pesquisas sobre a saúde física e mental da população negra, e muitos currículos ainda não contemplam. Considerando que os negros correspondem a 54% da população do país, mais da metade da população não é integralmente assistida em sua saúde devido, dentre outros fatores, a formação racista dos profissionais de saúde.

O racismo não é constituidor apenas das instituições acadêmicas, políticas, econômicas, ele é constituidor também do inconsciente de todos nós.

O termo inconsciente usado aqui se refere às marcas que as experiências produzem em nós e que comparecem no nosso modo de ser, estar, sentir e perceber o mundo. O inconsciente é produzido por meio do atravessamento de experiências pessoais, institucionais, relacionais, dentre inúmeros outros vetores que se cruzam na produção do inconsciente. A questão racial é um desses vetores.

Ter tido seus antepassados escravizados; ver seus irmãos e irmãs negros jovens sendo assassinados a cada 23 minutos; crescer numa sociedade que te ameaça e te violenta simbólica e fisicamente pela cor da sua pele; viver num país em que os espaços de prestígio e de poder são ocupados apenas por pessoas brancas e, muito recentemente, por algumas poucas pessoas negras; ser visto como assaltante em potencial independentemente de onde ou de como estiver. Estas dentre outras experiências vividas pela população negra produzem inconsciente que comparece por meio de medo, depressão, baixa auto-estima, solidão, suicídio, dentre outros efeitos.

Não ter tido seus antepassados escravizados; ver seus irmãos e irmãs brancos passando pela juventude sem o risco de ser assassinados pela polícia; crescer numa sociedade que valoriza e admira a cor de sua pele; viver num país em que os espaços de prestígio e de poder são ocupados por pessoas da sua cor; não ser visto como assaltante em potencial nos espaços onde circula. Estas dentre outras experiências vividas pela população branca produzem inconsciente que comparece por meio de racismo.

A realidade produz  inconsciente e ao mesmo tempo o inconsciente produz realidade. Ser beneficiário da lógica racista que determina as estruturas da sociedade brasileira é racismo porque negros são violentados pela existência dessa lógica que é sustentada em benefício de todos os brancos. Isto quer dizer que a vida dos brancos é uma violência à vida dos negros.

Enquanto o Brasil não experimentar uma equidade racial, pessoas brancas continuarão sendo privilegiadas através das violências que pessoas negras sofrem. Privilégio branco não é outra coisa senão racismo. E o racismo comparece das formas mais sutis às mais gritantes, sempre violentas, comparece em falas da direita, comparece em falas da esquerda, comparece nas práticas de vida de pessoas brancas em geral. “Viver é muito difícil, o mais fundo está sempre na superfície”, avisou Leminski.

Uma pessoa branca que se engaja na luta antirracista, reconhecendo seus privilégios, continua sendo racista? Todas as pessoas brancas deveriam se engajar na luta antirracista, criar estratégias nos seus espaços de atuação para que a igualdade racial venha a ser uma realidade. Brancos herdaram este problema de seus antepassados e precisam se responsabilizar pelos efeitos da escravidão e os benefícios oriundos dela que até hoje gozam. A vontade de colonização, tão presente no inconsciente de pessoas brancas, que comparece nas tentativas de colonizar as opiniões, os sentimentos, as práticas culturais e os corpos negros, pode vir a ser revertida, por meio de uma sincera escuta aos negros, numa vontade de descolonização seguida de ações concretas para vencer o racismo no Brasil.

Até lá, enquanto houver racismo, negros serão violentados e brancos serão beneficiados. Ser beneficiado pela cor de sua pele em detrimento da pele do outro é racismo. E não adianta negar, dizer que não é racista. O racismo está ali, na superfície do seu inconsciente, na superfície da sua pele.

Comentários

Comentários