Os Entendidos

Os Entendidos

Debater a diversidade com bom humor.

11 de agosto de 2017, 16h34

Sidney Magal salvo pela lambada em “Rainha da Sucata”

Com inclusão de música em abertura de novela, Magal volta ao sucesso em 1990, após hiato de três anos. Desde o lançamento do disco Mãos Dadas (Somlivre/1987) que Sidney Magal havia desaparecido das paradas de sucesso. Liberado pela gravadora sem um hit retumbante tal como Sandra Rosa Madalena ou O meu sangue ferve por você, o futuro artístico parecia incerto e sem […]

Com inclusão de música em abertura de novela, Magal volta ao sucesso em 1990, após hiato de três anos. Desde o lançamento do disco Mãos Dadas (Somlivre/1987) que Sidney Magal havia desaparecido das paradas de sucesso. Liberado pela gravadora sem um hit retumbante tal como Sandra Rosa Madalena ou O meu sangue ferve por você, o futuro artístico parecia incerto e sem perspectiva. O público pareceu se esquecer do furor causado pelo amante latino e Magal não se encaixava com o som que tocava na época. A onda disco já havia passado, as bandas de rock levavam vantagem e o estilo latino que o popularizou perdeu espaço. Nem mesmo a rainha do rebolado, Gretchen, conseguia emplacar. Foram três anos de escanteio, até que um novo estilo musical o trouxe de volta aos pés do povo.

A lambada
Após o desembarque do axé trazido por Luiz Caldas, Sarajane e Chiclete com Banana, foi a vez da lambada conquistar as pistas de dança de todo o país, já apresentada no carnaval baiano. Trazendo influências do carimbó, do zouk, da cumbia e do merengue, pouco a pouco o estilo foi adotado por grandes nomes da música popular,como Fafá de Belém e Elba Ramalho. Dois obtiveram maior destaque no gênero: o paraense Beto Barbosa e a banda Kaoma com a vocalista Loalwa Braz (1953-2017) através da música Lambada (Chorando se foi), considerado um marco com reconhecimento internacional. Foi neste momento que Sidney Magal encontrou a oportunidade de voltar à cena com um ritmo não tão diferente de quando começou sua carreira fonográfica. Se Beto Barbosa foi coroado rei, Magal, com o repertório certo, poderia ser o seu concorrente. E assim foi.
O disco 
O projeto feito pelos produtores Max Pierre e Alberto Traiger (este já conhecido por empresariar as carreiras de Tom Jobim, Ivan Lins e Rosana) visava pegar carona no bate-coxa que sacudia multidões, uma vez que a lambada alavancava as cifras das gravadoras. O repertório estava de ponta: sucessos revisitados de Rita Lee (Lança-Perfume), Banda Beijo (Beijo na boca), Chiclete com Banana (Meia-lua inteira, de Carlinhos Brown), Luiz Caldas (Haja amor) e as inéditas Morena Bonita (Dido Oliveira), Eloísa (Renato Terra/Claudio Rabello) e “Brilho cor de prata” de Michael Sullivan e Paulo Massadas, incluída na trilha do filme “Inspetor Faustão e o Mallandro”, receberam arranjos suados de Ary Sperling, feitos sob medida para sacolejos frenéticos. Uma em especial foi levada por Max Pierre aos dirigentes da Rede Globo para ser escolhida para ingressar a trilha sonora da novela Rainha da Sucata, do autor Silvio de Abreu, que iria ao ar no dia 2 de Abril de 1990 em horário nobre. Escrita por Torcuato Mariano e Cláudio Rabello, Me chama que eu vou recebeu o aval de Sergio Motta para ser tema de abertura, criada por Hans Donner, em ótimo momento de sua criatividade:  Deu vida a objetos de sucata para se transformarem em uma rebolativa boneca. Um golaço!
 Popular outra vez
O disco que estava programado para ser lançado de forma independente atraiu a atenção da CBS (atual Sony Music) para obter o passe de Sidney Magal. Melhor momento, impossível. Durante o tempo em que a novela esteve no ar, tanto o segmento musical como o cantor deitaram e rolaram nas programações das FM’s e da televisão, chegando a gravar o tema em espanhol, especialmente para o mercado latino com adaptação feita por Karen Guindi. Com gás, a Somlivre soltou uma trilha complementar chamada Lambateria Sucata e Magal novamente estava lá figurando entre outros artistas com Beijo na boca.
Em 1991, o prêmio Sharp, considerado o Grammy da música brasileira indicou Ary Sperling como melhor arranjador e na categoria Canção Popular, Me chama que eu vou, estava entre as favoritas. Ainda deu tempo de fazer um belo espetáculo no Canecão (Rio de Janeiro) com direção e roteiro de Jorge Fernando, com coreografia de Carlinhos de Jesus. O vídeo foi captado e exibido em um especial da TVE.
Com muita sorte, Sidney Magal conseguiu sobreviver e fugir de um provável ostracismo, atravessando os anos 90 com folga. E graças à música de Torcuato Mariano e  Cláudio Rabello novos chamados surgiram e ele foi indo, mantendo o status de ídolo por mais duas décadas.
Para ouvir no Spotify:
https://open.spotify.com/album/05TNbUCzit77sIv1iy4s5I