Os Entendidos

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Debater a diversidade com bom humor.

27 de novembro de 2017, 00h27

Descolonizar a Psicologia: considerações a uma Psicologia Preta

O Brasil é ainda um país extremamente colonial. Boa parte da estrutura de poder e da mentalidade política presentes no período em que éramos colônia de Portugal segue em pleno funcionamento nos dias de hoje. Foi por meio dos processos de colonização que africanos foram sequestrados de África e trazidos para cá sob regime de […]

O Brasil é ainda um país extremamente colonial. Boa parte da estrutura de poder e da mentalidade política presentes no período em que éramos colônia de Portugal segue em pleno funcionamento nos dias de hoje. Foi por meio dos processos de colonização que africanos foram sequestrados de África e trazidos para cá sob regime de escravidão. Tendo sido proclamada a Independência e, anos mais tarde, tendo sido abolida a escravidão, os danosos efeitos da colonização e da simultânea escravização do povo preto não foram alvo de políticas de reparação histórica.

O principal motivo da lógica colonial ainda ser tão presente no Brasil foi a colonização do pensamento e do inconsciente que os mais de trezentos anos de colonialismo/escravidão produziram. O pensamento colonial é aquele construído a imagem e semelhança do colonizador. Tendo sido colonizados por uma branquitude-patriarcal-europeia, fica identificado como sendo bom, inteligente ou relevante a criação do colonizador, inclusive e, talvez principalmente, sua produção de conhecimento. Como desdobramento dessa colonização do pensamento, homens-brancos-europeus serão tomados como sabedores das questões filosóficas, existenciais, políticas, econômicas, artísticas e psicológicas de todos os povos. O pensamento colonial é universalista, mas nega que o seja como um ato de resistência sintomático de negação da própria doença.

Em se tratando da Psicologia, os currículos das universidades brasileiras são impregnados de colonialismo e os autores mais estudados são homens-brancos-europeus. Estes autores, que são importantes na história ocidental da psicologia como ciência, em especial da psicologia clínica, construíram conceitos para manejar com as subjetividades brancas com foco no sofrimento psíquico. A importação e incorporação direta das conceituações psicológicas e psicanalíticas produzidas na Europa, desconsidera a singularidade dos processos de subjetivação não-brancos e impõe uma nosologia a imagem e semelhança da subjetividade do colonizador.

Ao limitar-se nas conceituações brancas e europeias sobre saúde mental e sofrimento psíquico, a Psicologia brasileira deixa de contemplar e de poder tratar adequadamente cerca de 54% da população do país que é composta por negros e negras. A subjetividade negra é ignorada na grande maioria das graduações em Psicologia. E um dos efeitos diretos disso são pacientes negros sendo vítimas de racismo pelos profissionais que deveriam acolhê-los e, ao mesmo tempo, sentindo que não estão sendo compreendidos em suas questões e nem escutados como pertencentes a um povo que durante mais de trezentos anos foi escravizado e que só há cento e vinte e nove anos foi liberto.

A saúde mental de vidas negras importa

A subjugação dos africanos à condição de escravos produziu efeitos devastadores em suas subjetividades. Para além das mortes de africanos nos porões dos navios, nas rebeliões ou nos castigos perpetrados pelos colonizadores, muitos africanos em condição de escravidão atentaram contra a própria vida. A retirada forçada de sua terra, de sua comunidade, de sua língua, de seus laços afetivos e a subsequente diáspora pelo mundo na condição de escravos teve efeitos de desterro e de perda de referências tão acentuados que a própria identidade e consciência corporal entraram num processo de desintegração. O resgate da cultura africana através do canto, da dança e da espiritualidade foram elementos fundamentais na preservação, ao menos em parte, da saúde mental dos africanos. As fugas e construções de quilombos garantiram o restabelecimento do senso de identidade e de coletividade dos africanos permitindo que, por piores que fossem as condições de vida, muitos sobrevivessem e inscrevessem em terras brasileiras as heranças culturais de África.

Como descendentes de africanos escravizados nascidos pós-abolição, ainda que não tenhamos vivido os horrores da escravidão do modo como nossos ancestrais viveram, trazemos em nossa memória corporal as marcas desse período. Para além disso, estamos inseridos num país que implementou e que perpetua com múltiplos dispositivos uma política de embranquecimento da população. Política esta que se inaugura com a abertura do país para a entrada de imigrantes europeus no século XIX e que se desdobra até os dias de hoje nos quais: a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado; a expectativa de vida dos negros é seis anos menor do que a dos brancos; 75% da população mais pobre é negra; a renda per capita de famílias negras é 200% menor do que a renda de famílias brancas; apesar de ser mais de 54% da população nacional, negros são minoria no congresso, nas universidades, na televisão e em todos os espaços de poder e prestígio da sociedade.

Vivemos num país anti-negro e isto tem nocivos efeitos sobre as subjetividades negras. O termo subjetividade aqui se refere à produção de modos de ser, estar, sentir e perceber o mundo. São inúmeros os vetores que se atravessam na constituição das subjetividades. O racismo é um desses vetores que, nas subjetividades negras, é o catalisador dos demais, a partir do qual toda uma configuração existencial é montada.

Diversos intelectuais negros e negras se dedicaram a produzir conhecimento sobre os efeitos do racismo nas subjetividades negras. Já na década de 1930, a psicanalista Virgínia Bicudo realizou uma vasta pesquisa com negros em São Paulo. O psiquiatra Frantz Fanon, a partir do seu trabalho clínico e acadêmico, escreveu, nos anos 40, o livro “Pele negra, máscaras brancas” que é referência nos estudos da saúde mental da população negra. Nos anos 80, a partir do trabalho de psicólogos negros como Wade Nobles e Naim Akbar surge, inicialmente nos Estados Unidos, a Psicologia Preta como sendo a construção de teorias e práticas em psicologia clínica tendo como referência as subjetividades negras. No mesmo período, a psicóloga e psicanalista brasileira Neusa Santos Souza escreveu o livro “Tornar-se negro” em que faz uma releitura dos conceitos fundamentais da psicanálise a partir da experiência negra.

O fato destes e demais pensadores da subjetividade negra não serem estudados na grande maioria dos cursos de psicologia no Brasil é mais um elemento da política de embranquecimento e da prática genocida do Estado brasileiro e de seus braços, como a academia, que por vezes se dedica a matar as epistemologias negras e a reiterar o culto ao colonialismo.

Efeito diáspora

A saída forçada de África e a vida num país anti-negro são elementos que se entrecruzam na produção da subjetividade negra. Chamo de efeito diáspora a sensação de não se sentir pertencente ao ambiente onde se vive, a dificuldade de ser genuinamente acolhido e incluído nas dinâmicas sociais numa posição equânime com os demais membros da sociedade e não numa posição de subalternidade.

A experiência da negritude é marcada pelo desprezo e pelo ódio que a branquitude projeta sobre as vidas negras desde a escravidão até os dias de hoje. Esse ódio, que brancos frequentemente projetam na relação com tudo aquilo que não é espelho, é, por vezes, introjetado nas subjetividades negras resultando num doloroso processo de auto-ódio. Essa engrenagem subjetiva de introjetar o afeto do outro como sendo seu é muito semelhante ao que se dá com uma vítima de abuso ou outra violência. A vítima, por vezes, sente-se culpada pelo ocorrido quando o afeto de culpa deveria ficar com o abusador. Culpa e auto-ódio se atravessam na dolorosa experiência de elaboração do trauma de uma violência. Os abusos do racismo sobre os corpos e as subjetividades negras têm como um de seus efeitos a culpa pela condição socioeconômica precária em que a maior parte da população negra se encontra, e o auto-ódio por toda a raça negra e por si mesmo por se sentir falho, menor, sem qualidades diante dos privilégios da branquitude.

Uma direção de tratamento para a cura desses afetos que corroem a subjetividade negra está em devolver para a branquitude, ou seja, para o abusador, a responsabilidade pela violência do racismo e deixar com eles esses afetos. O movimento de deslocamento da posição de auto-ódio para a posição de empoderamento passa pela experimentação do afeto de raiva como sendo o trilho através do qual o que ficou represado e introjetado na subjetividade negra culpando-a pela condição em que se encontra e fazendo-a sentir-se inferior possa escoar por toda malha subjetiva do tecido social. Liberta do auto-ódio, a subjetividade negra ganha espaço para a construção de outras relações consigo, com os demais negros, com a branquitude; a sensação permanente de não sentir-se em casa, ao invés de ser paralisante, se torna motor para a criação de modos singulares de existência diaspórica e matéria-prima para a produção artística, cultural, acadêmica, política.

Uma Psicologia Preta só é feita por psicólogos(as) pretos(as)

Quando abri a porta do consultório pela primeira vez para João, ele me olhou meio surpreso e perguntou: você é o Lucas? Sim, respondi. Bem-vindo. João sorriu e sentou no sofá como a gente costuma sentar no sofá de casa de vó. Ele estava sentindo-se em casa, mas era a primeira sessão. Partilhou suas questões doídas com um leve sorriso no rosto. “É tão bom não precisar explicar meu sofrimento”, ele disse ao longo da sessão. “Tão bom sentir isso que estou sentindo aqui”. João é um jovem negro que iniciava terapia pela terceira vez, mas dessa vez com um psicólogo negro. Ele chegou até mim sem saber que eu era também negro e ficou surpreso e feliz quando eu abri a porta. Muitas portas vêm sendo abertas ao longo do processo terapêutico de João. Ser cuidado por um psicólogo preto tem produzido reparações possíveis aos danos que a diáspora causou. Há uma dimensão da subjetividade negra que só outro negro pode acolher. João sentiu isso desde a primeira sessão e respira aliviado a cada encontro por não precisar explicar.

É no encontro entre subjetividades diaspóricas que a cura ou a reparação possível dos traumas do racismo pode acontecer. Os efeitos de se viver num país anti-negro só podem ser genuinamente acolhidos por quem traz essas marcas no próprio corpo. A escuta clínica de psicólogos brancos que vierem a estudar sobre as subjetividades negras estará mais sensível e ampliada do que daqueles que não estudaram, mas a clínica não é feita só de escuta, é feita de corpo, de marcas e de pele. A pele branca com seus privilégios impede que profissionais brancos alcancem a magnitude da problemática de se viver sob uma pele negra.

O postulado da neutralidade ou da distância entre paciente e terapeuta como fator favorável a uma boa análise é falso porque a neutralidade não existe. Um psicólogo branco ouve as questões do paciente como branco, um psicólogo negro ouve as questões do paciente como negro. Não se retira a pele e suas marcas pra fazer psicologia clínica. Evidentemente que ser um profissional negro não implica diretamente em fazer Psicologia Preta, para fazê-lo é necessário tanto conectar-se com a própria negritude, quanto estudar o processo de subjetivação negro a partir da produção de conhecimento de psicólogos e demais intelectuais negros sobre o tema.

Na Psicologia Preta é a possibilidade real de acessar, sentir e compreender o afeto do outro que está em questão. A aposta é na proximidade e não na distância. Quando isso se dá, a experiência de acolhimento e de pertencimento, tão rara nas subjetividades negras, é sentida pelo paciente, como no relato acima, e isto por si só já é promoção de saúde.

Clínica e política são inseparáveis na Psicologia Preta porque o sofrimento de pessoas negras não é da ordem da neurose, da ordem do privado, mas é sim produzido e mantido social e historicamente através de dispositivos políticos que desde a abolição trabalham para exterminar a população negra. A cura dos traumas do racismo e a luta pela igualdade racial caminham lado a lado na prática profissional do (a) Psicólogo (a) Preto (a). A dor dos pacientes é entendida para além do sofrimento psíquico, mas também como um problema político. É neste sentido que clínica e política se fundem produzindo, nos psicólogos e nos pacientes, deslocamentos e reparações aos danos que a diáspora e o racismo causaram.

O encontro entre pretos é cura.