Vinte e Dois de Março de 2009 foi um dos melhores dias da minha vida foi. Eu estava prestes a completar 18 anos (meu aniversário é em 7 de abril), e meses antes ja havia decidido qual seria meu presente de “olá, vida adulta”: me dei um domingo com Kraftwerk e Radiohead — teve Los Hermanos também, mas, filler.

Poucas são as pessoas do meu círculo de amizade hoje — que é formado majoritariamente, mas não de forma proposital, por gente ligada a ativismo social — sabem, mas o Radiohead é minha banda favorita. Conheci eles lá nos meados de 2007, quando o Orkut ainda era cool e o msn ainda respirava. Um amigo me passou Killer Cars, uma música deles, que achei daora e quando menos esperei, passei a tentar aprender inglês por conta mesmo — já que minha mãe não tinha condições de me pagar um curso e o ensino na escola era puro lixo — só pra ter o prazer de entender e cantar minhas novas músicas favoritas.

Na época, eu estava no começo de uma crise de depressão que me seguiria até hoje. Foi quando meu comportamento suicida começou a se manifestar também. Havia saído do armário, a repulsa pela minha imagem no espelho ja se tornava um pequeno monstro crescente e eu não sabia o que fazer com o desconforto que isso causava em mim e em todo mundo ao meu redor. Eu estava, como muitos na época, trancado em mim, na minha internet discada e nas minhas músicas. Um vermezinho estranho se perguntando o que diabos fazia por aqui e se sentindo pertencente a lugar nenhum.

Mas quando saí de casa no dia 21/03/09 e embarquei pra capital, nunca me senti tão vivo. E na madrugada do dia seguinte, parecendo um zumbi sem forças, depois de morrer e renascer mil vezes durante um show de quase 3 horas intensas, eu me senti vivo como nem sabia ser possível.

Nunca imaginei que realizaria um sonho nessa vida, esse eu consegui. Mas pouca gente sabe disso. Talvez quase ninguém, para sermos sinceros. E não é porquê eu não goste de falar sobre, é so que no lugar em que tô ninguém ta interessado — sério.

Como disse ali em cima, vivo hoje constantemente dentro desse contexto de militância. Se por vontade ou por acaso, não importa, mas é a realidade da situação. E até acredito que isso seja um sinal bom, porque literalmente convivo com pessoas negras e/ou LGBTs, então a necessidade de conscientização política é mais que necessária, é urgente.

Mas tem me cansado como as vezes o Henrique não existe nem em mesa de bar: de um lado, é uma sociedade antagonista a mim que me recrimina por tudo que simplesmente sou, do outro uma galera, de alguma forma, marginalizada, que só consegue me ver não como ser humano, mas como o resultado final de tudo que me fode. É como se eu nao tivesse história ou ela como um todo não importasse, so alguns capítulos : o racismo que sofro, a homofobia que me devora, os padrões que me apedrejam.

Ninguém parece estar interessado em discutir nada comigo que não seja racismo ou LGBTfobia, porque aparentemente são so dessas coisas que pessoas como eu precisam ser capazes de falar.

Quantas foram as vezes em festas, bares, rolezinhos pelo centro, que vi as minhas amizades héteros ou brancas, discutindo, sei la, do último filme dos Vingadores a o que gostavam mais em Digimon, sem nenhuma pretensão de discussão política, saca, só conversar, mas ai apareço e o papo muda para qual foi o racismo que sofri naquele dia — porque tudo precisa ser um debate.

Outro dia, literalmente, eu contando piadas com umas amigas e um conhecido gay, mas branco e cis, queria uma aula sobre como se relacionar com caras negros sem fetichizá-los. Aí voce foge e se depara com um outro ativista, que não quer saber como ta a cerveja, mas sim se você tem material sobre qualquer coisa pra passar, abre o celular e mensagem de gente querendo recomendações pra sei la o quê de mesa tal, vai no banheiro e alguém grita “hey, tu é marxista ou anarquista?”, ta indo pra casa e tem que ouvir no caminho mil coisas que só remetem ao mesmo fato: eu não existo.

Nunca um oi.

Nunca um que filme vc viu ontem.

Nunca um vai ter um evento sobre patinhos molhados tomando sorvete de goiaba, bora?

Rapaz, não consegui sair hoje para tomar uma cerveja, porque eventualmente alguém ia aparecer querendo saber da minha opinião sobre qualquer coisa que eu nao to afim de falar, mas se nao falo, todos somem.

E eu me pergunto até onde isso ai não é racismo também. Até onde me condicionarem a ter que ser enciclopédia só sobre o que sofro, nunca sobre o que vivo, não é homicídio a longo prazo como tudo que criticamos também faz. Eu quero discutir política sim, mas também quero respirar.

E eu sei que você também precisa disso.

E é por isso que to aproveitando essa noite sem ressaca, sem cigarro mas com insônia, pra por isso pra fora. Você pode até dar uma risada estridente lendo isso aqui, mas eu to ficando louco. Está cercado de gente falando de luta, empatia e cuidado com os nossos e perceber que não tem nada ali além de um capítulo rasgado de Ensaio sobre a cegueira fode demais. E eu sei que isso não é uma sensação só minha, é uma dor tao coletiva que so posso chamar de paradoxo mesmo.

Qual é a tua? Porque eu nao sei mais, to desapontado e andando no automático já.

Alguém acende a luz, porque ta todo mundo cego.

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Texto originalmente publicado aqui.

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