Os Entendidos

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Debater a diversidade com bom humor.

16 de fevereiro de 2018, 00h00

Pantera Negra

[Esse texto NÃO contém spoilers] Diferente dos meus primeiros coleguinhas de sala, eu entrei na alfabetização sem saber ler nada. N-A-D-A. Escrever então? Lembro que na primeira vez que a tia Emília – sim, nunca esqueço – botou a gente pra copiar do quadro, que era a única outra coisa negra naquela sala além de […]

[Esse texto NÃO contém spoilers] Diferente dos meus primeiros coleguinhas de sala, eu entrei na alfabetização sem saber ler nada. N-A-D-A. Escrever então? Lembro que na primeira vez que a tia Emília – sim, nunca esqueço – botou a gente pra copiar do quadro, que era a única outra coisa negra naquela sala além de mim, eu chorei. Travei, olhei pros lados e vi todo mundo de boa copiando enquanto eu mal sabia pegar no lápis direito. Como é que eu ia voltar pra casa e dizer pros meus pais que era burro? E se tivesse algo de errado comigo? Em meio ao turbilhão de dúvidas eu chorei. Não lembro bem se levantei a mão pra assumir minha falha ou se alguém reparou na minha tela azul… só lembro que a professora me chamou lá na frente e me disse que era só pra eu tentar, que não precisava ficar igualzinho ao dela. Tentar. Mas antes eu deveria ir laver o rostinho no banheiro. Naquela sala eu aprendi a ler e a escrever, e conheci também a dor do racismo com umas meninas. Só aprendi a palavra alguns anos depois, mesmo tendo contado pros meus pais. Aquele ditado: “seja forte”, “deixa pra lá”. Enfim! Contei tudo isso porque depois de, a muito custo, ter conseguido ler o meu primeiro livro – “Tico-tico no sofá”, achei que era chegada a hora de ler algo mais desafiante. Juntei umas merrecas da merenda durante algum tempo e pedi pra ir ao jornaleiro. Não tinha muitas opções pro meu orçamento então nem sei se foi bem uma escolha: SU-PER-HO-MEM-100 (Edição Especial Histórica. Grátis um pôster calendário 1993). #HistóriaDeOrigem

Como todo menino de 7 anos eu já sabia quem era esse tal de Super-Homem. Como também sabia que quadrinho era uma versão maior do que as tirinhas que tinha no jornal do domingo. Quando consegui terminar de ler, senti um orgulho enorme de mim mesmo. E também uma pena do super-herói. Na história ele levava uma SUR-RA de um tal de Lobo – um beberrão intergaláctico, caçador de recompensas, de cabelo azul espetado e desbocado pra #@☠$%💣. Com direito a sangue e tudo. Quando terminei a última página fiquei querendo saber como continuava, mas como só sairia no mês seguinte, talvez nem precise falar que pra um moleque que precisava sacrificar merenda era tempo suficiente pra desistir. Fiquei sem saber como era o fim. Só compreendi que o vilão podia ser mais interesse que o mocinho. Não só por conta do Lobo, mas por causa de uma ida ao cinema com meus pais poucos meses depois. Meu pai ia ver o segundo filme do Batman (legendado) e minha mãe ia ver A Bela e a Fera (dublado) com meus irmãos. Mesmo sabendo que não ia dar conta, resolvi fazer o adulto e encarar o do Batman. Desisti de acompanhar logo nas primeiras cenas, mas saí da sala de cinema maravilhado com a Mulher-Gato. Por algum acaso não me tornei um bêbado que sai de spandex por aí dando chicotada nos outros pela rua e acabei admirando mais a Bela quando finalmente vi o filme no VHS, mas hoje sei bem que essa foi a porta de entrada para coisas mais pesadas.

Depois dos quadrinhos, vieram os livros de detetive, as sagas fantásticas e os “clássicos” da literatura e do cinema. Mais tarde chafurdei nos animes, em mangás e em seriados de TV. Devo ter passado uma década lendo bastante. Não muito, mas o suficiente. Passei anos me projetando em pessoas, lugares e situações que eu sabia ser muito diferentes da minha realidade. E o exercício de me colocar na posição desses outros era bom. Até que deixou de ter aquela graça toda. Chegou a época de vestibular e meu foco se voltou a escolher que caminho seguir o quanto antes. Estudar as teorias por trás das coisas foi ótimo. Aprender a cavar minhas próprias respostas foi maravilhoso. Até perder um pouco do apelo. Depois, não sei se foi a idade, se a ficha tava caindo ou se foi a onda negra subindo, mas em algum momento cansei de me ver nos outros e me sentir como um eterno Clark Kent. Tão parecido com os seres humanos e, ainda assim, um completo extraterrestre. Plenamente consciente que o meu melhor nunca iria me tornar igual/mais aceito/menos inadequado. Até que eu li Americanah da Chimamanda e pela primeira vez na vida me senti inteiramente contemplado como leitor/espectador. Sem precisar me podar, camuflar ou preterir. Pela primeira vez me vi refletido no que me fazia humano. No mínimo dos detalhes, algumas piadas e cicatrizes as quais já tinha me feito acreditar serem coisas só minhas. Internas comigo mesmo.

O Pantera Negra do Ryan Coogler teve disso também. Diferente da pegada, pra mim, documental de Moonlight e Tongues Untied, esse novo filme do Universo Marvel é pura fantasia. No melhor sentido da palavra. É o mundo real refeito da forma que poderia ser. Que deveria ser! Pensado, roteirizado, dirigido, encenado, filmado, montado, produzido e pós-produzido. Por uma equipe inteira de pessoas que compartilham comigo a Diáspora. Homens e mulheres negros que, em algum momento, foram obrigados a reconstruir as raízes das quais fomos roubados. E que nesse esforço travaram lutas, consigo mesmos e com a impunidade no mundo.

Diferente do Super-homem que tira sua força do sol terráqueo (FPS 60), o Pantera Negra se faz forte através dos conhecimentos de seus ancestrais. Logo, o príncipe-rei T’Challa – interpretado pelo admirável Chadwick Boseman – dá carne a dúvidas retintas: como honrar nossos ancestrais, enaltecer sua força e grandiosidade sem nos cegar às suas limitações e lacunas? Meu povo está naqueles que compartilham da mesma terra que me gerou ou das minhas raízes? Que tipo de conforto e liberdade são verdadeira possíveis  num mundo que há séculos nos persegue, oprime e mata “civiliza”? Uma série de dilemas pontuados brilhantemente pela leal rebeldia de Nakia – interpretada pela cativante Lupita Nyong’o – e pela raiva assimilada do mais-que-pertinente vilão Killmonger – interpretado,de maneira sem igual no Universo Marvel, pelo Michael B.  Jordan. Todo esse peso, porém, é balanceado pela sagacidade da minha nova princesa Disney favorita: Shuri – interpretada pela Letitia Wright. #SentimentosSãoFáceisDeMudar

A Wakanda da telona é mais que deslumbre de cores, texturas, trilha e melaninas. É um lugar no passado, que nunca deveria ter deixado de ser presente e que adoraria poder habitar no futuro. Um país de contradições, tradiÇÕES e respeito mútuo. Pela identidade compartilhada, pela sabedoria dos que foram, pela resistência dos que são e pela grandeza dos que virão a ser. #AmémDiop

Ainda que acessível a todos os públicos, sendo o produto capitalista que é, o filme possibilita reflexões e emoções diversas. Contudo, a humanidade espelhada foi denegrida de uma maneira tão singular que vai ser difícil não sair da sala pensando nas potencialidades de Wakanda Pra Sempre! As leituras podem ser tão diversos quanto os grupos que formam o povo wakandiano, mas para muitos a experiência tem como ser um divisor de águas. O anúncio de uma jornada tão angustiante quanto recompensadora de auto-descobrimento e descolonização. Confesso que antes mesmo do subir dos créditos me senti de volta para aquela aula de alfabetização. Paralisado com a exposição de tantos anseios meus. Com lágrimas nos olhos primeiro por medo de encarar tamanha responsabilidade e depois de orgulho de integrar algo tão grandioso. Dessa vez confiante de que tentar é preciso. #SemVacilar