Os Entendidos

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Debater a diversidade com bom humor.

16 de fevereiro de 2018, 18h39

Parem de nos matar!

Texto do nosso colaborador Jhow Carvalho. Lucas Almeida, estudante de educação física e ex-estagiário do Studio Vitória pediu, na última segunda  (12/02), para que três jovens negros que curtiam o Bloco de Carnaval “Bleque” em Vitória (ES) posassem para uma foto. Publicada num story do instagram, o registro acompanhava a legenda: “Vou roubei seu celular”. A […]

Texto do nosso colaborador Jhow Carvalho.

Lucas Almeida, estudante de educação física e ex-estagiário do Studio Vitória pediu, na última segunda  (12/02), para que três jovens negros que curtiam o Bloco de Carnaval “Bleque” em Vitória (ES) posassem para uma foto. Publicada num story do instagram, o registro acompanhava a legenda: “Vou roubei seu celular”. A inspiração veio de uma série de memes, igualmente racista, que circula na internet e associa a imagens de jovens negros o crime de furto.

Na Quarta-Feira de Cinzas, Iarley Duarte um dos jovens que estava na foto foi avisado e fez uma postagem em resposta ao ato de injúria racial de Lucas Almeida. Atualmente a postagem tem quase 15 mil compartilhamentos. Em meio a controvérsia, descobriu-se o local de trabalho do fotógrafo. No mesmo dia o estúdio de fisioterapia começou a ser avaliado com 1 estrela em sua página no Facebook, com a recorrente frase: “Gostaria de um posicionamento da empresa em relação ao funcionário racista que fez uma foto de jovens negros no carnaval os acusando de ladrões”. Às 22h41 do mesmo dia a empresa publicou uma nota de repúdio a ação de seu funcionário e informou sua demissão. O autor da nota foi Fabrício Affonso, sócio-proprietário da empresa, que também é negro e de origem periférica. Em sua nota ele destaca as dificuldades que teve em sua trajetória profissional, comum a negras e negros que conseguem alguma ascensão social, além de reconhecer que a postagem de seu ex-funcionário beira a ingenuidade. No entanto, escreve Affonso de maneira bastante contundente: “Nem a imaturidade, nem o carnaval e nem a bebida é desculpa para o racismo. Nada é desculpa para o racismo”. Atualmente o Studio Vitória tem 48 avaliações de 1 estrela e 1.500 de 5 estrelas – nas quais a empresa é parabenizada pela demissão de seu antigo estagiário. O posicionamento do Studio Vitória nos traz à tona o seguinte questionamento: empresas que apresentam funcionários com atitudes igualmente racistas e não possuem, ocupando um cargo de poder, funcionários negros tomam que tipo de atitude?

Em seu perfil no Facebook que atualmente está desativado, Lucas Almeida tentou se retratar. Em sua explicação disse que usou o meme para fazer referência a si mesmo, por isso a utilização do verbo na primeira pessoa do singular (vou), sua justificativa foi que ele queria combater o racismo de forma irônica. O posicionamento de Lucas é um exemplo do racismo à brasileira, endossado pelo mito da democracia racial, que durante anos disseminou a ideia de que diferente de países como Estados Unidos e África do Sul, que passaram por regimes segregacionistas, o racismo no Brasil se deu de forma mais branda. Em 2014, 97% da população branca assumia que o Brasil é pais racista, ao mesmo tempo que afirmava não possuir nenhum preconceito de cor, embora conhecesse um amigo/colega de trabalho/namorado que o tivesse. Ou seja, o racismo à brasileira também é um racismo sem racistas. A escritora e artista interdisciplinar Grada Kilomba ao estudar a branquitude é taxativa em dizer que o racismo é uma problemática branca. Diz a autora que pessoas brancas não devem se perguntar “eu sou racista?” e sim “como eu desconstruo meu racismo?”.

A atitude de Lucas e a série de memes são só uma brincadeira? É válido lembrar que de acordo com o Atlas da Violência 2017, realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) a cada 100 pessoas assassinadas, 71 são negras. Em outras palavras, a população negra tem 23,5% mais chance de ser assassinada do que indivíduos pertencentes à outros grupos étnicos. A Anistia Internacional nos informa que o grupo mais afetado pelos homicídios são os jovens (de 15 a 29 anos), que representam 26,9% da população. 30 mil jovens são mortos por ano, dos quais 77% são negros. Esses dados nos mostram que homens negros jovens são assassinados como se vivessem em uma situação de guerra. No Espírito Santo, estado onde aconteceu o ato de Injúria Racial de Lucas Almeida, conforme aponta o Índice de Vulnerabilidade Juvenil a Violência 2017, a taxa de homicídios de jovens negros é de 139,48, a cada 100 mil habitantes, enquanto de jovens brancos é de 25,46, ou seja, a possibilidade de um jovem negro ser assassinado no ES é 5,5% maior do que a de um jovem branco, 6ª maior diferença do país segundo a UNESCO. Deste modo se a série de memes e a ação de Lucas “é só uma brincadeira”, ela colabora na perpetuação da imagem de jovens negros e periféricos como estereotipo de criminoso. Portanto, apesar desse tipo de ação não ser o mesmo que puxar os gatilhos que nos matam, esse tipo de discurso serve para engatilhar, simbolicamente as armas por nos tirar humanidade e compaixão. Além de ser um chute nos nossos corpos sem vida. Parem de nos matar!