Os Entendidos

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01 de março de 2018, 23h01

Dublando por um legado…

No último fim de semana o Brasil recebeu o show WERQ THE WORLD, que levou algumas das queens mais famosas do reality RuPaul’s Drag Race – e nossa jurada preferida, Michelle Visage – às cidades de São Paulo, Porto Alegre e Rio de Janeiro. Durante a apresentação dividida pelas interações com o público comandadas por […]

No último fim de semana o Brasil recebeu o show WERQ THE WORLD, que levou algumas das queens mais famosas do reality RuPaul’s Drag Race – e nossa jurada preferida, Michelle Visage – às cidades de São Paulo, Porto Alegre e Rio de Janeiro. Durante a apresentação dividida pelas interações com o público comandadas por Michelle, as rainhas Kennedy Davenport, Peppermint, Kim Chi, Violet Chachki, Detox, Valentina e Shangela animaram a plateia com shows de dublagem que contavam com a produção caprichada desse evento de maior porte, diferente das corriqueiras apresentações em festas e boates que são o grande palco da arte drag. E essa é a questão.

O fatality de Kim Chi! – Foto por Julio Campagnolo

Atualmente, o reality show comandado por RuPaul está exibindo sua terceira temporada All Stars – que junta participantes favoritas de outras temporadas em uma nova competição. Assim que essa temporada terminar, a décima do programa normal vai estrear com episódios mais longos e com a popstar Christina Aguilera no júri do primeiro episódio. É a coroação de uma década onde a drag queen mais bem sucedida de todos os tempos passou de estrela à supernova!

RuPaul veio da cena club dos anos 1990, quando vivia em Nova York, e ficou famoso com o lançamento do hit “ Supermodel”. Apresentando um talk show de sucesso, já era a mais mainstream das drags queens antes do renascimento com o reality que comanda agora. Mas foi com o drag race e o poder da internet, especialmente depois do programa chegar ao Netflix, que a bicha explodiu. Além das músicas, é possível consumir bonecas, sapatos, maquiagem, chocolates e livros com a cara da “ Mama Ru”, e anualmente acontece nos EUA a “ RuPaul’s DragCon”, uma convenção que reúne drag queens e fãs do mundo todo.

A All Star Kennedy Davenport prestando homenagem ao Brasil! – Foto por Julio Campagnolo

É como parte desse legado que a “Werq the world” está rodando o mundo. O próprio Ru admite que não gosta mais de se montar, fazendo isso apenas para o programa, e que prefere ganhar dinheiro através de produtos que não exijam sua presença. É como os eventos, as musicas e os brinquedos movimentam milhões de dólares ao ano e fazem de “Drag Race” uma marca.

Em menor escala, dá gosto de ver o que esses artistas conseguem fazer num palco quando dispõem de mais orçamento. Drag é uma arte da criatividade e são inúmeras as profissionais que fazem o inimaginável com poucos recursos, mas as chamadas “Rugirls” contam com a adoração dos fãs e o aparato dessa máquina de dinheiro para deixar a criatividade fluir. E assim, um público cada vez maior tem acesso a essa arte estigmatizada pela sexualidade.

Hallelloo! Uma das favoritas à coroa dessa temporada, Shangela, em fantasia que representa o Brasil. – Foto por Julio Campagnolo

A eliminação na temporada All Stars é diferente, e as artistas que vencem o desafio da semana precisam “dublar por seu legado” e pela chance de eliminar uma concorrente. É algo que ganha um novo significado ao pensar nesses anos de programa e no caminho até aqui.

Como disse Michelle Visage durante o show, a arte drag já existia antes de “RuPaul’s Drag Race” e continuará existindo depois dele. Entretanto, ela sempre estará marcada pelos anos em que o mundo aprendeu gírias, danças, dramas e delícias de uma arte que vem do escuro dos bares e boates.

É um legado e tanto!