Os Entendidos

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Debater a diversidade com bom humor.

18 de março de 2018, 19h28

Marielle Franco: a rosa da resistência

Foi uma noite violenta, Marielle. E a natureza respondeu à altura. A ventania anunciou a tempestade que desabou do céu em meio a raios, assim como todos nós, ao sabermos do que fizeram com você. Primeiro, não acreditei. Pensei que era mais uma dessas notícias falsas que se espalham rapidamente na chamada “era digital”. Aos […]

Foi uma noite violenta, Marielle. E a natureza respondeu à altura. A ventania anunciou a tempestade que desabou do céu em meio a raios, assim como todos nós, ao sabermos do que fizeram com você.

Primeiro, não acreditei. Pensei que era mais uma dessas notícias falsas que se espalham rapidamente na chamada “era digital”. Aos poucos, as mensagens foram chegando, as pessoas diziam: “Mataram a Marielle!”. Eu não sabia o que responder, não conseguia sequer compreender o que era mentira ou não. Quando a ficha caiu, pensei: “Mataram uma de nós”. E desabei. Junto a milhares de pessoas.

Depois de tanta comoção, revolta e desespero de milhares, a resposta veio em seguida. O tempo fechou. Ficou feio. Frio. Carregado. De dor e chuva. Choramos tanto que o céu chorou junto, Marielle. Nós, mulheres, não imaginávamos que estaríamos nas mesmas ruas que estivemos há uma semana, junto a tua presença, para lutar agora contra a tua ausência.

Que infeliz é essa ironia que nos faz tomar as ruas do país para chorar por mais um corpo que tomba por lutar nas mesmas trincheiras que nós, após 50 anos da morte de Edson Luís, que assim como você, lutava por um mundo mais justo em plena Ditadura Militar. Você conhecia bem o que era viver esse horror, afinal, a Democracia nunca chegou no teu berço. E tu fez dele esplêndido mesmo assim. Ascendeu como manda o sistema. “Meritocracia”, como eles chamam. Lutou com as armas das instituições dominadas por homens brancos. E ainda assim, foi assassinada. Levaram ainda o Anderson, três tiros nas costas. O crime cometido por ele foi trabalhar. Em um país que sofre com o alto índice de desemprego. E tu, Marielle, trabalhava em um lugar onde era a única mulher negra entre cinquenta e um vereadores e, também, a quinta mais votada. Atiraram em 46 mil pessoas.

Não satisfeitos com a tua execução política, Marielle, eles agora violentam a tua memória. Inventam. Difamam. Caluniam. Riem. Procuram justificativas para defender a tua execução que é INJUSTIFICÁVEL. Seres humanos que escolhem ignorar tua defesa dos Direitos Humanos para todos os Humanos, incluindo os policiais militares. Inventam um casamento com um homem, quando você se relacionava com uma mulher. Não a mencionam. Apagam-te de diversas formas. Tua trajetória, tua força, tua sexualidade, tua raça. Mas não deixaremos barato, Mulheraça!

Eu fui questionada sobre como me sentia. Não sabia dizer. E ainda não sei dizer como me sinto, é assim que me sinto. Eu abracei e desabei junto a outras mulheres. Nós nos olhávamos. E nos abraçávamos. E sentíamos o coração bater no mesmo ritmo. A sensação é uma só: Mataram uma de nós. Só que eles não sabem que somos sementes. Não sabem que para mexer com uma flor é preciso estar preparado para deter uma Primavera. Mas quem detém uma Primavera? Quem tem o poder de controlar a natureza? Ninguém controlou a ventania, os raios e a água que caiu quando a natureza entendeu o que tua perda significava para todas e todos nós.

Executaram teu corpo, Marielle. Atiraram na tua ancestralidade, queriam assassinar teus ideais, o teu conhecimento. Mas teus ideais estão, agora, mais vivos do que nunca. Eles não sabiam que mexer contigo era atiçar um formigueiro. 50 anos depois, fizemos 1968 de novo. Há 50 anos, os estudantes temeram que sumissem com o corpo de Edson Luís – assassinado por um policial militar – e o levaram para ser velado no mesmo lugar para o qual fomos gritar: “Quem matou Marielle Franco?”. Teus olhos brilhariam ao ver milhares de pessoas em luta. Pena não termos feito antes. Triste precisarmos de um episódio desses para nos darmos conta do que é a realidade – sem anestesia alguma – daqueles e daquelas que lutam por um ideal revolucionário. E tu foi revolução, Mulher.

Foto: Mídia Ninja

O teu Flamengo venceu o Emelec lá no Equador por 2 a 1, Marielle. Mas já era tarde. Você não pôde saber. Tampouco poderá ecoar a voz do Complexo do Alemão que perdeu quatro pessoas na última sexta-feira em um tiroteio. Entre elas, um menino de 1 ano com um tiro na cabeça. Em uma guerra inútil. Tomba quem veste farda, tomba quem é empurrado pela estrutura. Só não tombam os verdadeiros responsáveis. Só é salvo pelo sistema quem nasce branco e filho de desembargadora. E, dependendo da legenda partidária, político ligado a helicóptero que transporta 450kg de cocaína por aí. Bobo de quem acredita que bandido perigoso é o da favela. Você sabia bem, Marielle, e, por isso, lutou contra o sistema.

Quando corpos negros como o teu tombam, cidadãos de bem rapidamente encontram uma forma de justificar essas mortes. A pergunta que eu faço agora é: qual será o malabarismo dessa gente para explicar a morte de uma criança que sequer teve tempo de descobrir que essa cidade era dele também?

Eles executaram você na rua, Marielle, porque descobriram que você fazia parte dessa gente que pensa que a rua é a parte principal da cidade. E porque teu desejo era que todo o povo tivesse o privilégio de poder caminhar por essas ruas sem temer. Não imaginaram que o mundo choraria tua morte. Não imaginaram que, no dia seguinte, milhares de pessoas tomariam a parte principal da cidade para perguntar: “Quem matou Marielle Franco?”.

Em 8 de Março de 2018, durante seu pronunciamento na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, ao receber flores e ser interrompida por um homem, você disse: “As rosas da resistência nascem do asfalto. A gente recebe rosas, mas vamos estar com o punho cerrado falando do nosso lugar de existência contra os mandos e desmandos que afetam nossas vidas”. É assim que seguiremos daqui. Quem te executou vai pagar dobrado cada lágrima rolada nesse nosso penar. Tua partida não será em vão. Lutaremos como você. Resistiremos, como rosas que nascem do asfalto, em ti.

Camarada Marielle Franco presente hoje e sempre!

Em memória de Marielle Franco e Anderson Pedro Gomes.