Os Entendidos

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Debater a diversidade com bom humor.

03 de abril de 2018, 14h36

Vânia Abreu – “Empresária de mim mesma”

Em um franco bate-papo exclusivo para a coluna Nossa Senhora do Comeback por telefone, a cantora baiana Vânia Abreu, sem gravadora desde 2003, conta sobre o gerenciamento de sua carreira, a saída da Banda Biss para investir na carreira solo, o novo show Venturo e rebate críticas sobre seu trabalho e comparações com a irmã, Daniela Mercury. […]

Em um franco bate-papo exclusivo para a coluna Nossa Senhora do Comeback por telefone, a cantora baiana Vânia Abreu, sem gravadora desde 2003, conta sobre o gerenciamento de sua carreira, a saída da Banda Biss para investir na carreira solo, o novo show Venturo e rebate críticas sobre seu trabalho e comparações com a irmã, Daniela Mercury.

Sobre o novo show Venturo: “Na verdade achei que tinha que engrossar o caldo um pouco mais diante do momento atual que estamos vivendo. Estava na hora de ser menos simbólica e mais didática”. Segundo o release da apresentação, “Venturo é sinônimo de futuro, do que está por vir”.

 

Dispensando efemérides: “Não cabe a mim fazer essa temporalidade das coisas, porque a própria marcação de tempo das obras tem a ver com a importância que ela tem na vida das pessoas. Não sou eu que devo lembrar isso, no sentido de que “tem dez anos, tem vinte anos”. Nunca fui muito voltada para essa coisa de comemoração de carreira, acho que temos que ir pra frente. Mas estou ligada na questão do tempo e penso nisso muitas vezes”.

 

A passagem pela Banda Biss: “Eu já tinha feito muito barzinho, backing vocal em muitas bandas e passado por festivais intercolegiais. A Banda Biss parecia uma incursão mais madura sobre a profissão e uma dimensão de que eu tinha um trabalho para entregar aos outros em meu nome. Esse projeto de quatro anos e meio com a banda ficou meio perdido, eu já não sabia mais o que estava representando e você fica muito subserviente a um mercado que aceita pouca mudança. Que são aqueles shows só feitos pra dançar. Tinhamos muita imaturidade. Quando eu me vi sendo cantora de axé me vi muito triste, porque eu só podia falar de alegria. Me faltavam as músicas de MPB e a riqueza que a MPB me prometia como artista. O axé me endurecia, eu só podia fazer música para dançar. Não era o lugar que me cabia por inteiro. A gente não tinha noção para onde a gente ia”.

 

A ida para o Rio de Janeiro e o contrato com a Warner Music:  “Em busca de uma sonoridade mais pop para a Banda Biss, fui ao Rio gravar uma fita demo em 1994 com Ary Sperling, os músicos Alfredo Moura, Ramiro Mussotto, Cesinha e Milton Guedes, uma produção com músicos baianos e cariocas. Com essa fita conseguimos uma reunião na gravadora Warner Music. Chegando lá me perguntaram: É isso mesmo o que você quer fazer? Você vai levar o resto da sua vida cantando isso? Eu respondi que não. Eu vim aqui para abrir portas. Então conversei com os meninos da Banda Biss e usei parte desta demo para a gravação do meu primeiro disco solo”.

 

O encontro com o produtor Ary Sperling: “Cuidei das vozes do disco Adota Eu (Sony Music/1993) dos Meninos do Pelô, produzido por Daniela e Ramiro Mussotto. Ary era um dos poucos produtores do Brasil que tinha um programa de afinação de voz. Nós tivemos alguns problemas com os meninos que era impossível resolver, porque eles não tinham experiência de cantar em estúdio. Como produzi as bases com o Ramiro, acabei viajando pro Rio para finalizar as vozes e conhecer Ary. Aí combinamos de fazer a demo”.

“Unindo pop com MPB : “Era isso o que eu queria? Não sei. Era a direção que eu queria. Você não consegue no primeiro disco, nem no último fazer tudo o que você quer. Em um disco não cabe toda a sua história e todo seu aprendizado. Então, meu primeiro disco me lançou na direção que eu queria. A pressão foi muita porque eu não tinha experiência de venda nesse mercado, eu era uma desconhecida, não conhecia compositores. Meu trabalho era pequeno. Conheci Chico César através de Moisés Santana, que me mandou uma fita cassete com a gravação de À Primeira Vista e Templo. Ary Sperling não me deixou gravar. Ele ligou para os diretores da gravadora dizendo “Vânia está louca, ela quer gravar um cara que fala nada com nada, amaratzaia, tzonhei”. E aí eu dei a música pra Daniela e ela acabou estourando. Eu não sei se na minha voz seria um sucesso. Esse é o tipo de mistério que quando a gente trabalha com música não dá conta de explicar. Eu sou muito grata à Templo.Templo sobrevive muito tempo. E está sobrevivendo até hoje linda. Eu não sei se À primeira vista sobreviveria linda assim (risos)”.

 

Gravadora X Artista: “É uma luta. Na verdade a gravadora e o produtor confiam no seu talento. Mas eles não confiam totalmente no seu feeling. Eles não confiam que você pode tomar todas as decisões sobre a sua carreira. Parte do sucesso tem uma imprevisibilidade. É sempre uma surpresa dentro do trabalho e da disciplina fazer sucesso. Então tem embate, tem aprendizado, mas não acho que foram cruéis comigo. Se a gente pensar, 90% do dinheiro é deles. E era uma estrutura gigante que ajudava muito. Um divulgador em cada cidade, a gente não se preocupava com nada a não ser cantar. Hoje todo mundo é seu produtor artístico e tem que entender de SRC, de capa, de layout, JPEG, de pegar autorização, de como lança… E a gravadora fazia tudo isso por nós”.

As dificuldades de ser independente: “Minha carreira não tem oferta e demanda para finalizar produtos como DVD. Não consegui captar recurso. Não quis fazer crowdfunding. Não me senti à vontade. Acho que esse espaço cabe mais a artistas que estão começando. Eu estava já no meio do caminho, tinha que me virar de outro jeito, na concepção de que minha carreira tem que ser gerida empresarialmente dentro das possibilidades que ela me dá. Minha carreira não deu esse retorno nos últimos anos a ponto de conseguir investir em um projeto como este, finalizá-lo e vendê-lo de forma que viesse a compensar o que foi investido.  Eu não tive empresários que me acompanharam a vida inteira. Virei empresária de mim mesma, porque a nossa profissão é totalmente autodidata. Já tive esse aprendizado lá na Banda Biss, por uma necessidade de fazer as coisas acontecerem. Fui desenvolvendo essa capacidade. Você aprende na marra. Existe toda uma engrenagem de planejamento estratégico. Domino tudo o que diz respeito à minha carreira”.

  • Confira aqui uma playlist exclusiva com as melhores canções de Vânia Abreu no Spotify:

Relação com as redes sociais: “Auxiliam, mas fechou de novo em tribos. Tenho poucos seguidores nas redes, poucos ouvintes no Spotify. Não é uma queixa e nem diz o meu tamanho como artista. É uma constatação. Então, eu divulgar meus shows para 1700 pessoas é muito pouco, ainda que seja uma honra, porque preciso me comunicar para estar em várias cidades do país. As redes sociais são ótimas, mas, esse mundo fechado em tribos paralelamente com a necessidade de globalização que temos é uma contradição. O único lugar que chega a comunicar com todo mundo é quando se vai à uma grande televisão. Para com os meus eu já me comunico. Preciso me comunicar com quem ainda não me conhece”.

Bahia X São Paulo: “Tenho um grande público na Bahia, mas, devo mais minha carreira à São Paulo, porque tive mais liberdade pra ser eu mesma e arriscar do que em Salvador, que tem um mercado muito mais restrito. Não há a quem dizer quem é mais importante, mas, reconhecer as devidas diferenças de importância é que me cabe como artista e como pessoa”.

Baiana sem rebolado/ Irmã anti-axé: “Eu ouvi críticas muito valiosas e muito duras. Ninguém estava interessado em discutir meu repertório, se eu cantava de verdade ou parecido com alguém do ponto de vista estético, a colaboração de outros artistas nos meus discos, qual era o valor do caminho que estava escolhendo, as regravações, os autores… Nem a Bahia, nem o Rio de Janeiro! São Paulo me ofereceu um pouco mais disso. Ser chamada de “baiana sem rebolado” (vide matéria publicada na Istoé Gente na coluna “Família” de Viviane Rosalem) expõe muito mais quem escreveu do que a mim, porque não me propus a rebolar no palco. Se eu fosse dançarina poderiam dizer “nossa, ela é muito incompetente, ela não tem rebolado”. Eu me propus a cantar. Isso mostra na verdade que a comparação direta do que sou artisticamente com Daniela Mercury, é o que faz com que as pessoas não vejam a direção que eu sempre quis ir. Quando me comparam com ela não enxergam quem eu sou. E isso pra mim é uma verdade absoluta. Foi uma matéria infeliz. Isso não é crítica, é só uma opinião. Uma opinião que tem espaço público, o que é muito triste, porque deveríamos usá-lo para falar do que é importante, não do que não tem valor.

Confira a entrevista completa clicando no vídeo abaixo: