Os Entendidos

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Debater a diversidade com bom humor.

30 de maio de 2018, 09h27

O que o sol faz com as flores, Rupi Kaur & Onde não existir reciprocidade não se demore, Iandê Albuquerque

Nós vivemos em um tempo em que queremos nos relacionar com os outros sem perder com isso a nossa individualidade. Isso não seria um problema se não pensássemos relacionamentos como necessidade ou como amarras. Tu te tornas eternamente responsável por aquele que cativas. Cativar. Tornar alguém prisioneiro seu. É isso que o final das contas […]

Nós vivemos em um tempo em que queremos nos relacionar com os outros sem perder com isso a nossa individualidade. Isso não seria um problema se não pensássemos relacionamentos como necessidade ou como amarras.

Tu te tornas eternamente responsável por aquele que cativas.

O que o sol faz com as flores (capa)

Cativar. Tornar alguém prisioneiro seu. É isso que o final das contas está posto nesse enunciado de “O pequeno Príncipe”, repetido a exaustão. Arrepia-me. Nunca curti essa citação. Embora acredite sim que deva haver uma responsabilidade emocional para com o outro e, com isso, quero dizer que temos que aprender a equilibrar o nosso jeito e as nossas necessidades com as de quem nós estamos nos relacionando.

Não adianta dizer que é esquecido ou que seu jeito é distante, quando você sabe que na outra ponta a pessoa está ali, não só se preocupando e tentando fazer com que você faça parte da vida dela, mas também surtando por não ver nenhum movimento de volta.

Há que se respeitar espaços? Sim. Mas onde fica o respeito, quando apenas um lado tem que fazer o papel de compreensivo? Onde fica o respeito quando o compreensivo se anula e mutila emocionalmente para respeitar a individualidade do outro? Há quem goste de dizer que isso é fruto de uma sociedade líquida. Adoro perceber como na maioria dos casos isso parece servir como um ponto final para o debate.

Todavia, o conceito que visa compreender o que somos está aí não para celebrar uma “Síndrome de Gabriela” da sociedade. Ele aponta para comportamentos que deveriam ser repensados, colocados em perspectiva para verificar a validade para a constituição de uma sociedade mais empática. A liquidez não deveria ser pensada somente como um movimento de não permanência, mas de adaptabilidade e mesmo de alteridade simpática para com o outro.

Onde não existir reciprocidade não se demore (capa)

Talvez seja por conta de todas essas coisas que livros como “O que o sol faz com as flores”, de Rupi Kaur, ou “Onde não existir reciprocidade não se demore”, de Iandê Albuquerque, ambos publicados pela Editora Planeta, façam tanto sucesso. Eles mostram a fragilidade das nossas relações, que não vingam por causa de certa unilateridade. São tetos doloridos sobre relacionamentos. Mas não são iguais, nem na forma como são apresentados e nem no alcance do que se propõem.

Nos textos de Rupi Kaur, poemas, faltam a estetização poética. A forte presença de um eu marcado textualmente não elevam a experiência de leitura, é apenas uma identificação. O eu Rupi Kaur permanece o tempo inteiro. Isso me incomodou bastante na leitura dos textos.

A poesia não é a expressão do eu, mas uma expressão estetizada de um eu. Ainda que um poeta fale de sentimentos dele, os sentimentos do poema têm que se tornar outra coisa.

Talvez por isso que os textos de Iandê ganhem em mim maior abertura. Eles não são poemas. Por se tratarem de crônicas, a marcação desse eu ou de relações e acontecimentos mais pessoais são compreensíveis e bem vindas ao texto, porque se tornam exemplos pra se refletir sobre as questões que estão ali postas.

A forma literária faz sentido em Iandê, mas não em Rupi Kaur. E isso pra mim é uma pena. Há muito potencial nos poemas dela, que poderia ser alcançado com um melhor trabalho de composição poética.