Os Entendidos

Os Entendidos

Debater a diversidade com bom humor.

08 de julho de 2018, 08h28

Sobre esse tal “colorismo”

“Sou negra sim, meu mamilo nem é rosa”; “Vocês falam que não sou negro porque nunca viram meu pau”; “Meu tataravô era negro”; são o tipo de absurdo que costumam aparecer em discussões envolvendo colorismo – ou pigmentocracia, termo que prefiro. Isso porque, pra variar, a desonestidade se apropriou do termo. Teoricamente o conceito diz respeito […]

Foto: IggyLDN

“Sou negra sim, meu mamilo nem é rosa”; “Vocês falam que não sou negro porque nunca viram meu pau”; “Meu tataravô era negro”; são o tipo de absurdo que costumam aparecer em discussões envolvendo colorismo – ou pigmentocracia, termo que prefiro. Isso porque, pra variar, a desonestidade se apropriou do termo. Teoricamente o conceito diz respeito às vantagens das quais pessoas negras menos pigmentadas e/ou de traços “finos” desfrutam, mesmo que minimamente, em sociedades fundadas pelo narcisismo europeu como a nossa. No entanto, na prática o termo foi apropriado, principalmente, por neonegros e afroportunistas para acusar os mais retintos/negroides de divisionismo. Apesar de já ter falado um pouco sobre isso anteriormente, tretas recentes me levaram a elaborar mais sobre o assunto na tentativa de economizar o meu (neo)latim no futuro.

“Viva a miscigenação!/ Mistura de raças/ Somos a cor do Brasil”

Um passo fundamental para a desumanização dos povos cambindas, angolas, jejes, mandingas, bantus, dentre tantos outros, foi a anulação de seus sistemas próprios de valor, identidade e organização social. Assim que europeus passaram a chamar todos apenas por “negros”, africanos deixaram de ser pessoas para se tornarem gado/mercadoria porque dar nome às “coisas” do mundo representa uma relação de domínio sobre elas. Significa não somente definir o que o (ser/objeto) nomeado é, mas o que pode ser, assim como o seu lugar no mundo e as interações possíveis dos nomeadores. Quando se trata de seres humanos, especificamente, quem nomeia se coloca no lugar de sujeito capaz de definir objetos. Dessa forma, ainda que hoje o termo “negros” tenha se tornado uma identidade, sobretudo da diáspora africana, inicialmente ele foi usado para reduzir povos inteiros em objetos passivos aos propósitos coloniais. Não é a toa que uma das primeiras etapas do tráfico tumbeiro era a cristianização dos nomes das “peças” – ameríndias e africanas – a serem comercializadas. Como também a demonização, perseguição e apagamento de todos os elementos culturais que poderiam denunciar a incrível capacidade humana das “peças” comercializadas: a cultura. Paralelo a isso, as velhas oposições entre portugueses, ingleses, alemães, holandeses e etc. foram condensadas nas identidades”branca” e “europeia” – narcisticamente apontadas como as norteadoras do “Novo Mundo”.

Foi assim então que, num só golpe, europeus – com Vaticano, com tudo – transformaram toda a pluralidade africana numa massa uniforme de “coisas” manchadas de preto. Contudo, ao passo que as nações europeias foram se “modernizando”, as justificativas cristãs para a escravização dos negros foram ficando antiquadas. Caberia, então, a “ciência” explicar a legitimidade da escravização negra. Assim começaram os discursos pretensamente científicos sobre a inferioridade dos povos não-brancos em termos biológicos e culturais sob argumentos como “negros são menos inteligentes devido ao tamanho do seu crânio” e “somente europeus produziram cultura e civilização”. Com o passar do tempo as teses racialistas foram descartadas, mas a prática cotidiana de classificar seres humanos em termos raciais permaneceu. Os efeitos racistas dessa corrente de pensamento ainda se manifestam na precarização das condições de vida dos descendentes dos navios tumbeiros e até mesmo no continente africano, pois apesar da substituição do sistema escravista pelo industrial, o “norte” do mundo continua centrado nazoropa.

Aquenda: “África”, “negro”, “Congo”, “Egito”, e “Cabo Verde” foram alguns dos nomes dados por europeus aos povos e aos territórios do continente-mãe com o propósito de melhor organizá-los controlá-los. No Brasil, a positivação do termo “negro” é bastante recente, pois quando os primeiros traficados por aqui desembarcaram, “os negros” eram divididos entre os da terra (ameríndios) e os africanos. Após a “abolição” até meados do século passado o termo adotado politicamente era “pessoas (homens) de cor”. Somente no contexto da ditadura militar, em diálogo com a luta por direitos civis estadunidense e os movimentos de libertação africana que o combate antirracismo ressignificou o termo negro. Porém, antes de sermos negros já fomos minas, benguela, etíopes, tupis, bantus, caiapós, tapirapés dentre outros muitos grupamentos. Ou seja, nem sempre fomos vistos como uma massa uniforme e tudo ia muito melhor antes disso. Portanto, negar as diferenças internas dentro do próprio grupo negro remonta ao apagamento de nossas várias nuances internas – não só no que tange a pluralidade de pigmentos, mas às diferenças e divergências culturais, econômicas, sexuais, de gênero etc. Menosprezar isso com esse história de #SomosTodosNegros é, como passar, um novo rolo homogeneizador, além de soar demais com #SomosTodosHumanos, que é um dos argumentos mais desonestos brancos possíveis numa discussão antirracismo.

“Temos a cor da noite/ Filhos de todo açoite”

Uma vez que a negritude não é sinônimo de uniformidade e entendemos que, dentro de um mesmo grupo marginalizado, existem muitas outras margens possíveis, algumas considerações são necessárias para a compreensão do conceito de colorismo. Não é nenhuma novidade que os descendentes de africanos (escravizados) não clareiam por osmose ou convivência com os europeus. A existência de “mestiços” nas Américas não foi resultado de negros “machos” terem largado sinhás de barriga. Assim, o conceito de “mulato” deve ser (historicamente) entendido como o fruto do poder sexual de sinhôs sobre suas negras “fêmeas”. Essa “raça” intermediária foi criada porque europeus se consideravam “superiores” demais para gerarem uma prole tão “inferior” quanto a da genitora. Pois, no patriarcado Ocidente, os filhos herdam as qualidades e/ou vícios do pai. A “mãe” não passa de um receptáculo. Uma encubadora. Nesse contexto, filhos de homens pretos, independente de suas parceiras, jamais teriam como produzir algo “melhor” do que eles. Sabe aquele papo dos imigrantes europeus terem vindo para “lavar” os úteros (majoritariamente negros) do país? Ou de clarear/melhorar a família? Então, nessa lógica homens pretos “degradam” qualquer descendência. Obviamente nem sempre ter um pai sinhô significou alforria e estudos, mas ao longo de todo o período escravista, era melhor que não ter sangue “superior” nas veias.

Com a interrupção da escravatura, as elites brasileiras romperam com os ideais de pureza racial prevalentes nazoropa e reposicionaram a figura do “mestiço” na sociedade brasileira. “Mulatos” e “mamelucos” passaram, então, a serem vistos como aqueles e aquelas com potencial evolutivo e civilizatório e não mais como fonte do atraso brasileiro. Tornaram-se aqueles que, em uma ou duas gerações apurariam a “raça brasileira” até que o patamar europeu fosse alcançado. Ou seja, pardos foram promovidos a um tipo “melhorado”/preferível de negro e o incentivo a mestiçagem, portanto, representou a única via possível de “integração” do negro na sociedade brasileira. Dessa forma, a figura do “mestiço”, no contexto brazukkka, se difere dos demais por sua posição intermediária entre o grupo dominante e dos dominados. Esse lugar do meio-termo serviu tanto para firmar a falácia de que brancos e negros vivem harmoniosamente a ponto de se “misturarem” – ainda que pais negros de crianças embranquecidas frequentemente sejam confundidos como babá/motorista e familiares brancos de crianças negras não estarem isentas de racismo – como para situar a africanidade/negritude como uma “falha” a ser superada pelo povo brasileiro. Gra-da-ti-va-men-te. Numa escala “evolutiva” com o branco-europeu como único parâmetro de sucesso.

Aquenda: Por incrível que pareça para quem só se educa racialmente por tretas online (à distância), colorismo – ou pigmentocracia – não tem nada a ver com negrômetro, distribuir/cancelar carteirinha de negritude. Nada! Pigmentocracia se refere ao entendimento de que o narcisismo europeu tem predileção por tudo (e todos) que reflitam, ainda que minimamente, sua imagem e autovalorização. Trata-se da constatação de que filhos ou netos de pessoas brancas contam com alguma vantagem quando comparados aos descendentes diretos dos “colonizados”. Todavia, de alguma forma absurdamente desonesta, comentaristas de Facetruque corromperam o termo para acusar mais retintos de divisionismo. Sendo que, apesar de sermos um país orgulhoso de nossa miscigenação, as desigualdades sociais entre brancos e negros afetam pretos e pardos de forma (estatisticamente) similar. Pois, o ideal de embranquecimento e o mito da democracia racial foram postos exatamente para camuflar e evitar conflitos raciais diretos. Em caso de dúvida, pergunte-se: em que período da história do Brasil ser/ter filho(a) de pai/mãe branco(a) não pontua uma trajetória de superação de “obstáculos” de pessoas negras? Quando foi que filhos de pai e mãe pretos passaram a ter acesso às mesmas oportunidades e a herdar o mesmo acúmulo de capital (sócio, econômico e cultural) que filhos de pai/mãe brancos com outrem preto (ou até mesmo pardo)?

Foto: Javier Jaén

“Todo brasileiro tem!/ Tem sangue crioulo”

A integração dos descendentes de africanos escravizados ao mundo branco só foi possível, por aqui, a partir do momento em que cientistas eugenistas brasileiros abriram mão de uma definição de brancura nos termos de pureza estadunidenses e reinterpretaram “raça” para além de características estritamente biológicas. Para tanto, não bastava apenas embranquecer parentelas, mas conduzir pessoas negras a repudiar qualquer noção de africanidade e a adotar os modos de pensar e se comportar ditados pela elite. Sabe aquele papo de “preto de alma branca”? Pois bem, essa crença de que acumulando méritos – como diplomas e/ou renda e/ou casamento e/ou círculo social e/ou prestígio profissional – se chega “lá” faz parte disso. Assim como esse papo de que a questão no Brasil é social e não racial. Assemelhar-se ao branco, querer ser como branco em termos econômicos e culturais – porque até mesmo o mais rico dos pretos pode ser rebaixado socialmente em qualquer esquina ou portaria – faz parte desse ideal de captura/assimilação da população egressa das senzalas. Numa estratégia que tem evitado conflitos raciais diretos por conta da falsa promessa de aceitação dos “diferentes” contanto que suas diferenças sejam “ultrapassadas”. Afinal, quando ocupar a Casa Grande é uma opção na mesa, ainda que sacrificante, ir contra ela – como nas lutas anti-segregação nos EUA e na África do Sul – não é tão atraente assim.

Engana-se quem pensa que nos sistemas de segregação estadunidense e sul-africano fosse impossível que uma pessoa com sangue “sujo” conseguisse burlar as arbitrárias classificações para se passar por branca — e levar uma vida como se branco/dominante fosse. O artifício da passabilidade esteve presente em todos os contextos nos quais europeus restringiram acesso e oportunidades aos seus descendentes. Assim, muitas das estratégias usadas se repetiram pelo globo. Além das intervenções estéticas ao que a genética não conseguiu “limpar” – seja por meio de cirurgias, tratamentos químicos, “disciplinamento” capilar ou maquiagem –, muitos também cortavam vínculos com tudo que remetesse a África —  incluindo familiares indiscutivelmente negroides —  e procuravam se inserir em círculos e espaços sociais predominantemente brancos. E nem cabe muito julgamento moral quando a diferença entre ser automaticamente identificado(a) como pessoa afrodescendente representa não somente menor acesso – a escolarização, a moradia, a empregos qualificados e renda digna – como também uma sentença de morte . Como no caso do Brasil que hoje mata uma pessoa negra a cada 23 minutos. Em sociedades nas quais o lugar social do prestígio e do sucesso são arbitrariamente brancos, querer ser/ter ou se passar como branco acaba sendo uma brecha entre levar uma vida digna ou a margem.

Nesse bojo eugenista também surgiu a enganosa ideia de que diplomas, grana e outros “méritos” teriam o poder de anular desigualdades raciais históricas e tornar qualquer indivíduo tão respeitável como se branco fosse. Lembra daquele papo de que no Brasil “a questão é social e não racial”? Então, ao estender o entendimento de “raça” do campo estritamente biológico à noção de pertencimento refinamento cultural, reafirmou-se a ideia de que a miséria dos negros após séculos de trabalho forçado gratuito se deu por falta de esforço. Por conta disso não são raros os exemplos de atletas ou artistas negros que negam a própria negritude, por mais nítida que seja, para ressaltar sua trajetória de ascensão. Ainda que nenhum status os impeça de serem vítimas de racismo em qualquer portaria, alfândega ou “piada”. No sentido oposto, pessoas brancas de origem e formação considerados menos europeus passam a ser consideradas brancos de segunda categoria  –  vide “nordestinos” por aqui e “latinos” nos EUA.

Aquenda: Como a desonestidade costuma reinar soberana quando se fala em passabilidade trocarei raça por sexualidade na esperança de que a compreensão de que ambas as leituras são extremamente subjetivas facilite algo. Segundo o senso comum existe “cara de viado” e eu nunca a tive. Apesar de não ter problema com isso, não digo infelizmente porque dizer isso seria negar que ser percebido como hétero no país que mais mata LGBTs seria tão ridículo quanto cruel. Não ser o alvo óbvio de agressões homofóbicas sempre me poupou de muita coisa na rua, em entrevistas de emprego e até mesmo em casa. Obviamente que quando estou com meu preto é mais fácil sermos confundidos como quadrilha do que como casal, mas ainda assim, o “benefício da dúvida”, ao menos nesse quesito, joga a meu favor. Não sou exatamente “discreto” nem muito menos “fora do meio”, mas até mesmo em círculos LGBT costumam supor que sou hétero até um segundo momento, mas não é porque nem todo mundo me lê de cara que eu me sinto na obrigação de ficar convencendo quem quer que seja que faço parte dessa minoria ou que me posiciono contra essa opressão. Basta que eu some sem fazer parecer que a minha necessidade é mais urgente do que as outras letras da sigla ou até mesmo que dos Gs mais afeminados ou trans. Basta eu não usar o meu umbigo como bússola e ter noção de que o meu pirão jamais deve ser o primeiro. Posto isso, por que será que são sempre os mais próximos da norma(lidade) os menos dispostos a encarar o abismo dentro da mesma margem? Por que será que os mais aceitáveis — ou de identificação mais ambígua — costumam ser os com mais dificuldade em reconhecer que a sua vivência de uma opressão não serve para pautar o todo? Será mera coincidência que o mesmo país tão orgulhosamente miscigenado seja o mesmo com racismo tão visível a todos, mas sem racistas?

“Negro é a raiz da liberdade”

Sempre que me deparo com gente que se autodeclara negro(a) argumentando sua “negritude” como quem fala de acessórios/adereços – Barbie Bunduda, Barbie Macumbeira, Barbie Tererê, Barbie Neta-de-Negro-e-o-resto-pula – fica muito nítido como para algumas pessoas é possível “escolher” ser estar negro. E aí que o bicho pega! Se o próprio indivíduo levou uma vida inteira para cogitar a possibilidade de ser negro(a), qual é a da pressa de que o resto do mundo faça essa mesma leitura no imediato? Desde quando ser negro é esse programa de milhas que todos querem entrar? A treta ainda piora quando esses mesmos cidadãos vem com o papo: “se não me aceitam então boa sorte, vou ser afrobege/resistência parda”. É realmente curioso como esse lugar de trânsito e negociação da negritude costuma revelar uma busca pessoal – por “agregar valor” ou “alavancar carreira” – e passa longe de um posicionamento político diante de uma sociedade profundamente racista. Querer ser negro sem lidar de frente com o racismo, ou sem levar recusa de ninguém, além de conveniente a vera, é retomar a posição de omissão implícita no mito da democracia racial. É tomar o lado dos brancos através da negação do racismo, pois se somos todos miscigenados e ninguém é branco de verdade, não temos racismo no Brasil, pois essa roupa suja já foi toda “lavada” na mistura entre corpos.

Desde muito cedo a sociedade – através da cultura – nos faz saber muito bem qual é a raça “errada” e qual a raça “favorecida”. Logo, não é incomum que muitas crianças negras manifestem o anseio de se clarear ou de fato virar branco. Por mais que se supere isso, o mundo não nos deixa esquecer a qual das duas você pertence quando a “maldita” África está estampada na sua fisionomia. Para muitos, como eu, antes mesmo da alfabetização. Sendo assim, não deveria ser necessário explicar porque muitas pessoas pretas  –  negros sem passabilidade nenhuma  –  têm dificuldade de aceitar uma pessoa que: não sabe dizer se é negra ou não; ou que resume sua negritude a uma ou vinte características (sempre biológica ou culturais); ou que passou a achar que poderia ser negra depois de ter lido um texto já adulto(a); ou porque uma experiência com estrangeiros a fez questionar sua brancura. Se alguém precisa que um texto lhe diga que, nessa sociedade mortalmente anti-negro, tem gente que nunca pôde negociar o seu lugar ao fim da fila, fica sempre a dúvida: por que alguém, em sã consciência, faria tanta questão de ser visto(a) como  humano “inferior”? Se é preciso que um texto te diga que há negros que representam uma ameaça ao projeto das elites brasileiras de se assemelhar a Europa enquanto outros simbolizam a possibilidade de concretizá-lo futuramente, fica outra dúvida: se não é para se posicionar ativamente de modo a favorecer os mais retintos rejeitados, de que serve à luta antirracista uma autodeclaração de negritude sem compromisso com o coletivo? Não deveria caber aos alvos mais óbvios do racismo ter empatia com quem consegue se camuflar. Talvez em outros tempos reafirmar a negritude em toda pessoa afrodescendente pode ter sido o melhor caminho, mas depois que políticas de ações afirmativas – principalmente as cotas no audiovisual e concursos públicos – entraram em cena, muita gente, mais-que-oportunamente, passou a reivindicar negritude sem demonstrar o menor senso de coletividade ou posicionamento político que vá além do próprio ego. Assim sendo, sempre que confrontado com a dúvida do pertencimento comprometimento racial de alguém, ao invés de anatomismos ou atabaques, considero válido avaliar a postura ética em relação aos mais retintos. Porque, se leituras raciais não têm como ser 100% nem mesmo entre Blumenau e Salvador, é essencial que tenhamos a simples noção de que combater o racismo significa tornar o mundo melhor para aqueles lidos como negros em qualquer  contexto no mundo – independente da composição genética, religião ou referências intelectuais.

Aquenda: Pra quem acredita na balela de “o discurso do colorismo só serve para nos dividir”, saiba que muito antes da figura do “mestiço” ter sido adotada pelos eugenistas como a carta coringa redentora do país e ter ganhado passe-semilivre entre o preto e o branco, já havia distinções desde os primeiros influxos de africanos. Entre os negros boçais (ou da Costa)  –  africanos roubados de liberdade, de suas tradições, de seus familiares e de sua terra ainda não familiarizados a língua ou expectativas do colonizador –  e os crioulos  –  nascidos no contexto escravista das Américas, miscigenados ou não. Tal oposição encontra-se também nos conceitos de negro da casa grande e negro da senzala, pois em sistemas de dominação são comuns distinções entre os membros dominados “adaptáveis” à opressão e aqueles mais “indisciplináveis”. Entre os que não dão tanto trabalho e os que são uma pedra no sapato dos dominantes. Nesse contexto, ao demarcar o mestiço como grupo coringa na nossa sociedade, as elites intelectuais do Brasil não somente romperam com modelos estadunidense e sul-africano, mas assumiram, estrategicamente, a ambiguidade e a fluidez raciais já incorporadas pelas elites do país . Ou seja, por maior que seja o seu apego aos ideais de Hitler, ser “branco” nunca foi o mesmo que ser “ariano”. Afinal, nossos colonizadores nunca preencheram tais requisitos e quando se diz que “o sonho das nossas elites sempre foi ser Europa” não podemos esquecer que segundo um conde francês, em visita a D. Pedro I, na corte, branco “de verdade”, só tinha o herdeiro da rainha austríaca mesmo.