Os Entendidos

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Debater a diversidade com bom humor.

24 de agosto de 2018, 17h05

O jornalismo leigo e interessado

Graieb em texto publicado na Veja, em 2000, diz que anda em falta “as polêmicas literárias”, mas não é o que podemos perceber quando deslocamos o nosso olhar dos veículos tradicionais em que a crítica e os demais agentes do literários agem para meios de difusão existentes no espaço digital. As chamadas “tretas literárias” estão […]

Graieb em texto publicado na Veja, em 2000, diz que anda em falta “as polêmicas literárias”, mas não é o que podemos perceber quando deslocamos o nosso olhar dos veículos tradicionais em que a crítica e os demais agentes do literários agem para meios de difusão existentes no espaço digital.

As chamadas “tretas literárias” estão vivas e hoje alcançam muito mais que apenas os atores diretamente envolvidos nela, como podemos perceber na “última treta da semana”, em que estiveram envolvidos o escritor e jornalista Ronaldo Bressane e a booktuber Tatiana Feltrin, bem como todos os que acompanham os vídeos da booktuber, ou que estão de certo modo inseridos nessa cultura booktube.

Tudo começou quando Ronaldo Bressane postou em seu perfil no Facebook o e-mail recebido de Tatiana Feltrin, com uma tabela de preços e serviços destinados a quem entra em contato com ela a fim de fazer publivídeo. O autor nessa postagem diz que a prática é um jabá e fala do absurdo que é pagar para se ter um livro comentado por uma booktuber, diminuindo assim o trabalho da booktuber em questão, bem como dos demais que fazem disso um trabalho ou mesmo um hobby.

Após a publicação, choveram comentários nela falando da impostura do autor, bem como da sua falta de respeito ao postar um e-mail que lhe foi encaminhado de forma privada. A atitude, pareceu às várias pessoas que leram a postagem como uma forma de agressão.

Ora, Ronaldo Bressane não é um iniciante no meio do Mercado Editorial, logo não é ingênuo ao ponto de não saber que quando obras são veiculadas em meios de comunicação, há que se pagar pelo espaço. A prática existe desde que o Mercado Editorial e a Imprensa existem e serve para alavancar vendas.

Por que outro motivo Ronaldo Bressane teria entrado em contato com Tatiana Feltrin, que além de ser formada em Letras, é a primeira Booktuber do Brasil, fazendo vídeos há 10 anos, respeitada entre o meio, não só de booktubers e influencers, como também de pessoas que trabalham com editoras e outros autores?

Certamente não foi pelos lindos olhos de Tatiana. Ele certamente a viu como um meio de se fazer conhecido entre um público que muito provavelmente não sabia quem ele era, e infleizmente agora sabe e da pior maneira, que não é pelo seu trabalho, mas por sua índole.

Ele a viu como desde sempre foi visto os jornais e revistas, como uma janela para alcançar várias pessoas. Mas, diferentemente de como se dá nesses outros veículos de comunicação, ele não quis pagar, por considerar que a opinião dela, não era profissional o suficiente por ela não estar inserida e não ter o status de colunista de jornal ou algo assim. E mais, ainda colocou a coisa como se em nenhum espaço em que se  fale de literatura houvesse a circulação de dinheiro, o que não é nem de longe verdade.

Stands em eventos, palestras de autores, palestras de críticos e professores, de booktubers… em todos esses espaços há grana rolando. Talvez os únicos espaços em que a prática de pagar ainda não esteja ainda estabilizada seja nesse caso de resenhas feitas por booktubers e blogueiros e eventos que estes organizam em livrarias em parcerias com editoras.

Toda essa confusão de deve ser pago ou não levantou um outra questão, a da credibilidade do booktuber enquanto sujeito que fala criticamente de livros.

Paulo Roberto Pires, em texto para o site da Época no dia 23 de Agosto, afirma que é um absurdo se pagar para um booktuber falar de um livro, por eles serem amadores e, portanto, serem portadores de um discurso simplista, superficial e movido pelo emocional, contrapondo assim à prática do crítico tradicional, de formação acadêmica e que tem a pretensão de lesgislar sobre os gostos dos leitores.

Ora, Paulo Roberto, assim como me parece ser o problema de Ronaldo Bressane, desconhece a história da crítica e da função da própria crítica literária e das suas relações com os veículos de comunicação.

A crítica objetiva e pautada em critérios e conceitos bem estabelecidos, científica, surge tão somente no século XX no Brasil, quando há, de acordo o professor Jefferson de Agostini Mello em Literatura e crítica no Brasil hoje, com a criação dos curso universitários e se desenvolve com a criação dos programas de pós-graduação e a criação de associações, como é o caso da ABRALIC.

Antes disso, a crítica feita em jornais e periódicos era feita de forma livre, apontando e direcionando os mais diversos aspectos e de diálogos das obras, ou sob as orientações teóricas da retórica, isso quando não eram feitas sob encomenda ou para divulgar o livro de algum amigo do mundo das letras, numa clara tentativa de se fazer ser lido.

E isso não é uma característica unicamente do Brasil, no que se refere ao fazer da crítica. Terry Eagleton, em A função da crítica, escreve uma breve história do crítico literário da Inglaterra desde o século XVII e chega até a corrente dos Estudos Culturais.

Bom, eles não sabem disso, deveria eu chamá-los de amadores e dizer que eles não podem falar sobre a questão? Aliás, os jornalistas, dentre os profissionais que também falam de livros, também não são muito bem vistos dentro do fazer crítico. São vistos também como pessoas que não sabem o que estão falando e que por isso mesmo escrevem de modo geral e cultural sobre as obras.

Paulo Roberto, ao falar de e citar booktubers e o que eles fazem, faz um seleção muito conveniente para respaldar a sua opinião elitista e arrogante e se esquece que em todos os meios há bons e maus profissionais, que a maioria será mesmo medíocres, mas que há aqueles que se destacarão. Há aqueles que buscam mais que orelhas de livros ou links da wikipédia, que abordam os livros levando em consideração textos críticos consagrados ou as perspectivas de sua formação em outras áreas.

Nem todos os autores lidos, por exemplo, no XIX são conhecidos por nós, embora tenham tido boa recepção entre a crítica, inclusive na grande crítica. Nem todos os críticos sobreviveram também ao tempo, tendo se tornado criaturas irrelevantes para o cenário que a história compõe do literário.

O que Paulo Roberto e Ronaldo Bressane fazem é algo que nem mesmo os demais agentes do literário fazem. Editoras, organizadores de Eventos como a Bienal e livrarias reconhecem o trabalho desenvolvido por esses “amadores”, elas entendem que o literário e, claro, o mercado, precisa da diversidade, precisa ser plural. Não há mais muito espaço para o que Chartier diz em A ordem dos livros, de um cultura pautada na regulação do que pode ou não pode ser dito sobre os livros. Os acadêmicos não têm exclusividade sobre a literatura, o crítico não tem exclusividade sobre o que se diz do texto.

Aliás, há ainda o interesse no que se quer ler sobre  texto e o que é realmente relevante para quem vai ler o livro saber sobre. Não acredito que todos queiram saber sobre as questões do tempo em Proust, ou sobre as questões existenciais em Clarice Lispector, isso em se tratando dos nossos leitores consagrados. O leitor comum quer saber o que a leitura vai levá-lo, e não interessa se é um clássico ou um romance jovem-adulto, a sentir e convenhamos que a crítica tradicional dificilmente consegue falar disso com tanta paixão e eloquência quando um outro leitor comum.

No mais, quem tem amigo ou fã em revista de ampla circulação para poder ser defendido, após apagar a postagem que fez em sua página pessoal do Facebook mostra bem as relações que existem e que existem entre os que participam do meio literário e jornalístico. Ou seja, não há nada de novo sob o sol.

Daniel Prestes da Silva é graduado em Letras pela Universidade Federal do Pará e Especialista em Língua Portuguesa e Análise Literária pela Universidade da Amazônia. Atualmente é mestrando em Estudos Literários no Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Pará, desenvolvendo pesquisa nas áreas de História do Livro e da Leitura, História da Crítica no Brasil e recepção de prosa de ficção brasileira na contemporaneidade.