Raphael Silva Fagundes

02 de junho de 2019, 18h19

Palavras incendiárias: a esquerda precisa retomar o discurso radical

O ethos de revoltado assumiu a dianteira do discurso político popular, e a direita se apoderou dele explorando ao máximo o que se tornou um lugar comum: “chega de corrupção”

A direita (PSDB, DEM, MDB) teve que mover mundos e fundos para prender Lula, porque somente assim poderia vencer nas urnas. Contudo, na disputa no segundo turno das eleições, ela depositou sua fé em Jair Bolsonaro, pois acreditava que o candidato do PSL seria o único capaz de tocar o projeto de desmonte das instituições públicas do país. E agora paga o preço disso tudo.

Recentemente o presidente afirmou que já “está na hora de termos um evangélico no STF”. E como muitos são fascinados pelo seu discurso radical, é capaz de vermos nas ruas uma manifestação exigindo de fato a presença de um evangélico entre os ministros do judiciário.

Um dos elementos que deu a Bolsonaro um grande poder de persuasão foi a maneira de como se apropriou do discurso radical, discurso que antes pertencia a esquerda. As pessoas não se importam com o conteúdo, elas querem ouvir o discurso radical. Hoje a principal característica desse discurso é a ira contra a corrupção e a ausência dessa ira nas manifestações de esquerda fez com que ela perdesse o monopólio das palavras incendiárias. O ethos de revoltado assumiu a dianteira do discurso político popular, e a direita se apoderou dele explorando ao máximo o que se tornou um lugar comum: “chega de corrupção”.

Veja também:  VÍDEO: Deputado do PSL dá soco em estudante e segurança saca arma em evento na UERJ

O discurso radical age como as ideologias, em prol de “interesses particulares que tendem a apresentar como interesses universais”. Ao ser apropriado pelas classes dominantes, é usado (assim como o mote “chega de corrupção”) para promover a integração real da classe dominante e uma “integração fictícia da sociedade no seu conjunto, portanto, à desmobilização (falsa consciência) das classes dominadas”.[1] É só se colocar contrário à corrupção (falsa consciência) para conseguir mover uma massa em prol de certos interesses. E a direita vulgar faz exatamente isso, oportunamente.

A apropriação do discurso radical

A direita não consegue impedir o avanço da “direita vulgar” que, por sua vez, apropriou-se do discurso radical. Antes, esse tipo de discurso pertencia à esquerda, mas quando esta foi aderindo-se cada vez mais às lutas por identidade, a radicalidade do seu discurso deu lugar ao apaziguamento, à convivência fraterna entre os diferentes etc…

O discurso radical, portanto, foi abandonado. A academia começou a rejeitar o marxismo como chave de leitura e se deixou seduzir pelas análises focalizadas no discurso, no simbólico etc. Sem ter ninguém para se apropriar do discurso radical, a direita vulgar o pegou para si, atendendo, assim, a uma carência popular.

Veja também:  Fiesp condiciona otimismo na economia a aprovação da reforma da previdência

Essa direita vulgar adota métodos violentos, sejam eles físicos ou pelas redes  sociais. Ou será que já esqueceram que membros dela que atiraram contra o acampamento pró-Lula? Que produziram uma série de fake news absurdas e abusivas após o fatídico acontecimento que desencadeou na morte da vereadora do PSOL Marielle Franco?

As corporações midiáticas se esforçam em manter a imagem que preserva uma ojeriza a radicalidade discursiva. O jornalista José Fucs, que teve seu artigo listado no Twitter do Estadão revela essa posição ao comentar o oportunismo de Bolsonaro em relação a greve dos caminhoneiros do ano passado: “Por trás da imagem do JB paz e amor que ele tenta vender aos incautos, o que se observa é a ação de um “incendiário” que aposta no caos social, como os terroristas de extrema esquerda e de movimentos como MTST e MST, que ele tanto critica (com fundamento)”.[2]

Contudo, a imprensa e os representantes liberais estão perdendo o conflito que criaram ao prenderem Lula, líder popular capaz de impedir o avanço do conservadorismo. Menosprezaram Bolsonaro por um longo tempo apostando na vitória de candidatos que hoje chamam de “centro”, mas que são, por seu turno, fracos, porque não conseguem mover a massa, justamente porque não são capazes de falar através do discurso radical pautado no combate à corrupção.

Veja também:  Mourão: conversas de Moro e Dallagnol são "privadas" e foram "descontextualizadas"

A esquerda precisa imediatamente reapropriar-se do discurso radical para poder assim resgatar as massas. É preciso parar de defender o óbvio e propor o absurdo, como o fim dos privilégios dos altos cargos do Judiciário e do Executivo; aumentar os impostos da grande propriedade de modo que force o latifúndio à distribuí-la; criar um sistema no qual o mega empresário financie o pequeno empreendedor; tornar a escola pública protagonista do progresso científico e social do país; expor a covardia dos ricos para disseminar a cólera popular contra as classes dominantes, já que o presidente deixou claro sua aversão aos pobres etc.. É preciso arriscar o que é aparentemente impossível, radicalizar a fala política, para construir uma consciência verdadeira e realmente útil.

[1] BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. 11 ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007. p. 10.

[2] http://br18.com.br/do-fucs-o-oportunismo-eleitoreiro-de-bolsonaro/