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29 de julho de 2013, 18h03

Palestina e Israel – Farsa em Washington na retomada das negociações de paz no Oriente Médio

Os territórios que não serão cedidos por Israel estão na verdade dentre os mais fundamentais para que o povo palestino reestabeleça suas dinâmicas socioeconômicas e assim prospere como nação

Os territórios que não serão cedidos por Israel estão na verdade dentre os mais fundamentais para que o povo palestino reestabeleça suas dinâmicas socioeconômicas e assim prospere como nação

Ronaldo Ribeiro, de Washington

Comitivas israelenses e palestinas se encontram hoje em Washington para retomar as conversas sobre a paz no Oriente Médio. As conversas acontecem depois de cerca de três anos de silêncio diplomático, ataques mútuos, guerra. A iniciativa se deu depois que o primeiro ministro israelense, Benjamin Netanyahu, em um gesto de extrema benevolência, decidiu libertar 104 presos palestinos.

Como se sabe, dado seu histórico de mão de ferro da direita israelense, Netanyahu não é flor que se cheire. Muito menos benevolente. O presidente palestino Mahmoud Abbas tem toda razão de se mostrar matreiro com relação às conversações. A coisa parece armação, baléla, safadeza, farsa…

…e é.

Netanyahu não é flor que se cheire…  O presidente palestino Mahmoud Abbas tem toda razão de se mostrar matreiro com relação às conversações

Desculpe-me a contundência, caro leitor. Sei que julgamentos tão certeiros são quase sempre ou apressados ou banais. Apesar disso, repito: os encontros de hoje são uma farsa.

Gil Vicente e Ariano Suassuna concordariam que todos os elementos de uma Farsa* estão presentes hoje em Washington. Os encontros fazem rir ao demonstrar um repugnante oportunismo por parte de Netanyahu e do Estado de Israel. A farsa se dá pelo seguinte:

O mundo árabe se encontra enfraquecido após a Primavera Árabe e os conflitos na Síria. O Hamas, a organização que comanda a Cisjordânia, já não tem a força bélica e política que tinha há dez anos. Vários de seus líderes foram assassinados por Israel e boa parte de seu arsenal foi destruído em sucessivos conflitos. O Hamas já não tem força como obstáculo aos processos de paz e não representa ameaça real  à legitimidade e à existência de Israel. Finalmente, o povo palestino, depois de ter sido várias vezes massacrado de forma cruel pelos exércitos israelenses, se encontra completamente apático e desmobilizado.

É exatamente por isso que o Secretário de Estado americano John Kerry não tem encontrado a menor resistência por parte da Liga Árabe ou dos palestinos, apesar da relutância de Mahmoud Abbas. No momento, ambos não têm o menor poder de barganha.

No momento, nem a Liga Árabe nem os palestinos tem o menor poder de barganha

O oportunismo israelense se torna claro porque pretende fazer passar por benevolência um gesto espertalhão. O que Benjamin Netanyahu quer é manter como estão os assentamentos judeus em território palestino e transformá-los em térritorios israelenses. Os muros construídos por Israel seriam algumas das novas fronteiras. Tal medida tornaria praticamente inviável um Estado Palestino na Cisjordânia, já que os assentamentos judeus fragmentariam as terras palestinas em três blocos.

Mesmo o patrocinador do aparato bélico israelense, os Estados Unidos, na voz da Secretária de Estado Hillary Clinton, já condenou em inúmeras oportunidades os assentamentos judeus em território palestino. Tentar toná-los legais é manobra de espertinhos. Artimanha de malandros. Coisa de Netanyahu.

Os Estados Unidos já condenaram em inúmeras oportunidades os assentamentos judeus em território palestino

Além disso, a retórica usada pelo Estado de Israel tem sido a das porcentagens nas negociações. Em outras palavras, Netanyahu encobre a lógica maquiavélica do Estado de Israel ao dizer que está disposto a reivindicar apenas 9% dos territórios ocupados e deixar 91% para um futuro Estado Palestino.

Se forem liberados 91% dos territórios ocupados mas se forem negados aos palestinos que seja o 1% mais fundamental para sua economia, então os acordos são falaciosos.

Porcentagens não indicam a relevância econômica, política e histórica das terras oferecidas. Se forem liberados 91% dos territórios ocupados mas se forem negados aos palestinos que seja o 1% mais fundamental para sua economia, então os acordos são falaciosos. Os 9% que Israel pretende manter, de acordo com especialistas, é uma região extremamente estratégica para um futuro Estado Palestino. O que a retórica das porcentagens acoberta é o fato que os territórios que não serão cedidos por Israel são na verdade os mais fundamentais para que o povo palestino reestabeleça suas dinâmicas socioeconômicas e assim prospere como nação.  

*Farsa é um gênero teatral que apresenta críticas bem humoradas a comportamentos supostamente desviantes. Nessas peças vários tipos sociais são ridicularizados. Vemos o padre bêbado, mulherengo e discrente; a mulher interesseira que trai o marido; o comerciante sem escrúpulos; um aristocrata de boas maneiras e vontades duvidosas, e assim por diante. Em língua Portuguesa, o melhor representante do gênero foi Gil Vicente. Em seu Auto da Barca do Inferno, Vicente desfilou tipos sociais que eram julgados por suas gracinhas em terra antes de tomar a barca do inferno rumo a perdição eterna, ou a barca da Gloria divina e da expiação de todos os pecados. Ariano Suassuna fez algo semelhante em seu Auto da Compadecida.

Que barca tomaria Netanyahu?