Blog do Valdemar

política e teologia

04 de maio de 2016, 15h22

Para Adélia Prado

Ainda jovem universitário, adquiri o hábito de frequentar sebos à procura de raridades. Foi no Largo de São Francisco, no centro do Rio de Janeiro, que a encontrei pela primeira vez. Como acredito em sinais, penso que Francisco de Assis é bem mais do que nome de praça. Na prateleira empoeirada da seção de “Poesia”, abri um exemplar de Terra de Santa Cruz e, na primeira página, uma dedicatória da autora: “Para Valdemar, o abraço da Adélia Prado, 10/04/81”. Bem, o sobrenome não era o meu, mas deixei esse detalhe para lá e tomei o exemplar como se me fosse entregue em mãos pela própria Adélia.
A capa do livro, vendido baratinho, não era atraente; o título não revelava muito e, quanto à autora, ainda não sabia de quem se tratava. Mas, intuitivamente, compreendi que estava perante uma dessas epifanias franciscanas. Logo na primeira leitura, deparei-me com versos como este: “A parreira verga de flores, eu durmo inebriada”. Bateu-me a saudade do interior. Das ruas largas com paralelepípedos, ladeadas por calçadas altas. Os personagens das poesias de Adélia foram ganhando os rostos dos baianos de Aratuípe que eu conseguia lembrar. O passeio lento, arrastado e rotineiro na praça central, à sombra da igreja matriz.
Na lembrança, fui construindo a minha Pasárgada. Ah, meu pai! Por que não deixou tudo para trás e entrou no pau-de-arara conosco? Mainha teve de assumir tripla jornada de trabalho para prover pão e educação para os sete rebentos, desdobrando-se para manter o carinho em dia. Minhas irmãs descobriram rápido que cidade grande é lugar de trabalho durante o dia e escola à noite. Quando dava, elas se lembravam da infância e dos vestidinhos de chita.
Fui cativado pelos seus poemas a desenvolver um olhar guloso de beleza – destreza para lavar os olhos e apurar todos os sentidos, sem nunca jogar um balde de água fria na fervura da sarça que arde. Apenas observar, sem pressa de saber “para quê”.
“Ó Deus, podemos gemer sem culpa?”
Fascinou-me, na poesia de Adélia Prado, as coisas instintivas. Fui treinado para ser prático e dar respostas prontas sobre Deus. Você, não: dar-se o direito de perguntar e deixar tudo em aberto. Valorizar o mistério e dar relativa importância ao empacotamento das teologias. Aliás, esse troço de sistematizar os mistérios é uma aberração. Então, dane-se a produtividade eclesiástica! Para o inferno as cotas clericais!
“Não há como escapar à fome da alegria!”
Apanhar fruta madura no pé e morder uma goiaba sem qualquer cuidado. E quem disse que a goiabeira sente dor quando dela se tira o fruto? Querida Adélia, que seu provincianismo nos livre do mal. As igrejas cristãs parecem que sacralizaram somente o pão e o vinho. Em memória do Senhor, repartamos a goiaba com os amigos e amigas. Celebremos a amizade à sombra das árvores, cantemos sem o eco dos templos barrocos, mas com a leveza do vento no campo, que espalha a nossa voz – cantigas de louvação que não batam no teto com a obrigação de voltar para nos atingir.
“Ó Deus, ainda assim não é sem temor que te amo, nem sem medo.”
Como poderia imaginar que, naquela livraria escura, com tanta poeira, haveria um canto doído que também era o meu? Quando uma coisa me pega assim, desprevenido, hoje eu sei, tendo a sair de perto. Assim fiz contigo. Levei o livro para casa, mas o deixei naquela prateleira que a mão não alcança. Nem por pirraça nem por desgosto; mera fuga.
“Que cansaço é viver!”
Mas, convenhamos, no caminho descobrimos tanta coisa bonita… Amo tanto minha mulher e meus dois filhos que chega a doer. Em casa, tenho a força do Pedro e a candura do João refogados na brandura da Paty. “O silêncio de quando nos vimos a primeira vez atravessa a cozinha como um rio profundo”. É tão bom! Mas, concordo contigo, Adélia: bate um cansaço, às vezes, que temos que recuar para o fundo do quintal. E chorar baixinho, para não melindrar ninguém.
“Tenho tanta saudade dos meus mortos!”
Sei onde dói. Como você, tanta saudade assim seria insuportável, não fosse a bondade de Deus que, estranhamente, nos assiste. “Esperar contra toda esperança” é um desses mistérios que cabem na Bíblia e na sua poesia, mas não na minha cabeça. Não entendo, mas desfruto.
Antes de finalizar essa missiva, acredito piamente que hospedemos anjos sem os reconhecer. Seus versos me fazem bem. É bom tê-la por perto. Obrigado por partilhar suas dores e ajudar-me a lidar com as minhas! Espiritualidade simples, com cheiro de ensopado de galinha caipira com urucum.
Beijos,
Dema
Foto de capa: Reprodução YouTube

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