Cinegnose

por Wilson Ferreira

06 de fevereiro de 2017, 16h43

Para tautismo da Globo Marisa Letícia supostamente morreu

O tautismo (autismo + tautologia) crônico da TV Globo chegou a um nível bizarro e surreal com a “morte” de Dona Marisa Letícia. Enquanto a emissora mostrava imagens de pesar e condolências (minuto de silencio no Congresso e os pêsames de FHC a Lula), a Globo se apegava ao “protocolo de morte encefálica” para adiar em 18 horas o anúncio do falecimento e a palavra “morte”. Uma cobertura, no mínimo, anômala: em se tratando de políticos, celebridades e artistas o “modus operandi” da grande imprensa diante da morte sempre foi o sensacionalismo, ilações e especulações. Por que esse inesperado comedimento, como se repórteres e apresentadores usassem luvas de pelica enquanto pisavam em ovos? No dia 02 de fevereiro, Dona Marisa Letícia estava supostamente morta. Para no dia seguinte a palavra “morte” ser anunciada de forma protocolar. Para quê serviu esse pesar tautista da Globo? Algumas hipóteses: (a) AVC político, (b) Lula vai ser preso, (c) Sebastianismo e Eleições 2018, (d) Tática do diversionismo, (e) Corrente de Esperança.

Criado pelo pesquisador francês Lucien Sfez, o conceito de “tautismo” (neologismo criado pela combinação das palavras “tautologia”, do grego “tauto”, “o mesmo”, e “autismo”, auto, si mesmo) é resultante de pesquisas sobre processos contemporâneos de comunicação. Processos  abstratos e estudados por áreas especializadas como Teoria dos Sistemas ou Teoria da Informação que o leitor mais leigo muitas vezes não consegue acompanhar – sobre o conceito clique aqui.

Em postagens recentes o Cinegnose vem procurando descrever esse fenômeno do tautismo na TV Globo, principalmente no telejornalismo – objeto exemplar por ser ponto de contato de um sistema fechado em si mesmo com a realidade exterior. Em geral, as manifestações do tautismo são sutis, subliminares às vezes, exigindo do pesquisador método e atenção.

Porém, dessa vez o tautismo crônico da emissora foi direto e evidente. Poucas vezes esse humilde blogueiro testemunhou uma manifestação tão explícita, bizarra e surreal do tautismo como na edição de 02/02 do Jornal Nacional.

Nos seus pouco mais de 2 minutos dedicados à morte da esposa de Lula, Dona Marisa Letícia, enquanto um infográfico explicava a evolução do AVC ao quadro irreversível de morte encefálica, os apresentadores falavam em “ausência de fluxo cerebral”, “ausência de atividade cerebral”, “ausência de circulação sanguínea” e a confirmação de doação de órgão pela família.

Tal como o restante da grande mídia, o Jornal Nacional evitou usar  a palavra “morte”. Ao mesmo tempo, as imagens mostravam a Câmara dos Deputados paralisando uma sessão para fazer um minuto de silêncio para… a morte de Dona Marisa Letícia?… ou para a “ausência de fluxo cerebral?

Uma foto mostra Fernando Henrique Cardoso prestando condolências a Lula pela… morte?… ou pelan“ausência de fluxo cerebral” da esposa do seu opositor político? 

O mais próximo de uma notícia sobre morte foi a matéria do JN falar em “pêsames” dados pelo presidente da Câmara Rodrigo Maia e “notas de pesar” pelo presidente do senado Eunício Oliveira e a ex-presidenta Dilma Rousseff. Mas a tautista Globo em nenhum momento admitiu que estava dando a notícia sobre a “morte” de Marisa Letícia Lula da Silva.

A morte em cena no jornalismo

Por que? Segundo relato do veterano repórter José Roberto Burnier, com a fachada do Hospital Sírio Libanês como fundo (o velho clichê de enquadramento para conferir credibilidade ao que o repórter diz), porque o protocolo oficial de constatação de morte cerebral só pode ser feito 18 horas depois da interrupção da sedação. Surpreendentemente, a Globo e toda a grande mídia se apegaram no detalhe técnico de que os médicos não confirmaram a morte, mas sim a “ausência de fluxo sanguíneo”.

No mínimo, a cobertura da Globo foi anômala. Em décadas como jornalista e pesquisador de mídia, esse humilde blogueiro nunca viu a grande imprensa se apegar a “protocolos”. Até então, detalhes apenas conhecidos pelos médicos e desconhecidos do grande público… e dos jornalistas. 

Em se tratando de políticos, celebridades e artistas, o sensacionalismo da morte sempre esteve em cena: Ayrton Senna, Lady Di, Tancredo Neves, Getúlio Vargas etc., foram mortes tratadas sem rodeios ou meios termos pela imprensa. Ilações, especulações e obituários antes da hora do anúncio “técnico” sempre foram a regra.

Ayrton Senna: Globo seguiu protocolos?

O que torna anômala a cobertura da Globo é inesperado apego a “protocolos” da medicina, destoando do modus operandi histórico da grande imprensa. Talvez a Globo tenha “tecnicamente” tomado a opção correta. Afinal, jornalista não declara morte. É o médico que o faz e o jornalista apenas noticia.

Porém, na anômala cobertura o que se viu foram repórteres e apresentadores com se vestissem luvas de pelica e pisassem em ovos.

A matéria do JN criou uma situação bizarra: o morto só morre quando o médico confirma que o cadáver morreu! O que as imagens transmitiam eram pesares e rostos consternados. Enquanto a locução se apegava no protocolo no qual, tecnicamente, Dona Marisa Letícia era uma morta-viva.

Por que essa tautista negação da morte? Por que, de repente, baixou o espírito de Hipócrates na redação do telejornalismo global? Ou será foi o espírito de Getúlio Vargas? – aos amigos, tudo. Aos inimigos a Lei (ou, no caso, protocolo).

O Cinegnose vai propor algumas hipóteses desse súbito interesse tautista da Globo em protocolos médicos. Nesse caso, o tautismo crônico da emissora poderia ter sido bem seletivo.

(a) AVC político

Hipótese do jornalista Paulo Henrique Amorim – clique aqui. Para ele, o AVC de Dona Marisa vai para a conta do juiz Sérgio Moro: sua casa foi invadida pela PF de madrugada, o colchão revirado em busca de dinheiro, passaporte ou qualquer coisa, os filhos perseguidos e o marido levado em condução coercitiva. A pressão vivida por ela nos últimos tempos foi irresistível: além de Lula, ela própria foi acusada por “crimes” como, por exemplo, comprar pedalinhos para os netos.

Portanto, todos os eufemismos foram uma estratégia para desvincular a perseguição política ao AVC, evitando qualquer tipo de compaixão para com a vítima e seus familiares.

(b) Lula vai ser preso

O juiz Sérgio Moro está próximo da decisão de mandar prender Lula. Na eminência de ver concretizado seu objeto de desejo político, a Globo não pode involuntariamente humanizar a imagem do futuro e mais importante prisioneiro depois de anos de cobertura exaustiva da Lava Jato.

E o que é pior: com a morte de Marisa Letícia, criar empatia na opinião pública com o sofrimento de Lula. O fator reação popular é uma das variáveis calculadas por Moro e sua força tarefa de Curitiba. Sendo a TV Globo o cão Cérbero que guarda o inferno do bombardeio midiático diário, seria um erro fatal e indesculpável. 

Por isso, a cobertura deve ser a mais anódina, sedante, paliativa e insignificante possível. Evitar que o drama pessoal de Lula se transforme no pavio que seja aceso com a futura prisão.

 

Veja também:  Black blocs, Chomsky e o não acontecimento do “manifesto do apocalipse” de Bolsonaro

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