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08 de agosto de 2014, 03h39

Paternidade honesta, participativa e feminista

Por Jarid Arraes

Em uma cultura voltada para o consumo e que relaciona a compra de presentes com demonstração de afeto, uma data comemorativa e comercial como o Dia dos Pais não é um alvo frequente de debates e reflexões. Porém, indo além da óbvia crítica ao teor consumista da data, o Dia dos Pais pode ser uma oportunidade para que os homens reflitam sobre o que é ser um pai verdadeiramente responsável e cuidador, ultrapassando o papel clichê do “pai que ajuda”.

O “pai que ajuda” é bastante valorizado pela sociedade; é aquele pai que segura o bebê enquanto a mãe vai ao banheiro, que troca uma fralda ou mesmo que busca a criança na escola. Esses pais, que vão um pouco além do papel de provedor financeiro, são amplamente celebrados: “Meu marido é um ótimo pai, me ajuda com o bebê” é uma frase proferida com frequência, como se trocar a fralda de um bebê fosse uma atividade extremamente antinatural aos homens. Mas será que a paternidade se resume a essas tarefas tão ocasionais?

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A paternidade não é nenhum fenômeno místico totalmente diferente da maternidade, simplesmente porque não há papéis exclusivos de um determinado gênero quando o assunto é educar e cuidar das crianças. Se responsabilizar por uma criança, educá-la, alimentá-la e providenciar-lhe saúde e afeto são responsabilidades sociais de qualquer pessoa humana que tenha filhos. Por isso, ter um filho e criá-lo com amor não é algo que as mulheres têm mais predisposição a fazer – e nem deve ser um privilégio exclusivo de casais heterossexuais. Na verdade, ter um filho e uma família não é e nem nunca foi uma exclusividade de casais, já que há tantas famílias com configurações diversas, por vezes chefiadas por tios ou avós, ou simplesmente compostas por outros parentes. Portanto, o homem que elege a mulher como mais apta a cuidar de uma criança não está sendo coerente com a realidade: trata-se somente de uma fuga de suas responsabilidades paternas devido a sua falta de empenho em ser participativo na vida dos filhos.

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Ao contrário dos valores tão enraizados em nossa cultura, os homens não são insensíveis demais e nem possuem menos habilidade para cuidar de crianças. É certo que cada indivíduo, independente de seu gênero, possui mais facilidade para algumas tarefas do que para outras – algo que também é válido para as mães. Sob esse ponto de vista, o homem que tem um filho é absolutamente capaz de ser responsável por aquela vida. A presença paterna deve ir além das tarefas esporádicas e o pai pode e deve colocar seu filho para dormir, cozinhar seus alimentos, administrar remédios e levá-lo ao médico, mesmo que essas atividades não sejam prazerosas. Demonstrar amor com palavras, beijos e brincadeiras faz parte de uma paternidade responsável e comprometida, mas não é nem de longe suficiente para que a criança se sinta querida, importante e segura.

Além de tudo, a importância da paternidade está em seu enorme potencial de fazer a diferença no mundo, ainda tão calejado de tantos séculos marcados pelo machismo. O pai que participa, seja ele heterossexual ou não, casado ou não, é aquele que faz de seu exercício paterno uma oportunidade para estabelecer valores de igualdade, respeito e responsabilidade dividida entre todos aqueles que escolhem ter crianças em suas vidas. Esse é o pai que ensina, por meio de um exemplo diário e concreto, que homens e mulheres são equivalentes e livres. Pensando nas relações de gênero e em como os paradigmas do machismo são ensinados às crianças,  a equidade de gênero no ambiente familiar é muito mais do que dar uma simples ajudinha; um dia essas crianças se tornarão adultas e, durante esse processo, serão fortes reprodutoras dos valores feministas aprendidos, também, com seus pais.

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Foto de capa: Pixabay