03 de dezembro de 2018, 16h43

Paul McCartney atravessa no samba e tropeça em estereótipos ao homenagear o Brasil

Com um ritmo que lembra a levada bossa nova daqueles teclados Cássio da década de 70, a canção “Back in Brazil” parece arrancada de um desenho do Zé Carioca

Foto: Reprodução Vídeo

Sir James Paul McCartney resolveu, em seu último álbum, “Egypt Station”, lançado neste ano, homenagear o Brasil, ops, Brazil, e antes não o tivesse feito. A canção “Back in Brazil”, além de ser absolutamente tola e desprezível para alguém que tem uma obra deste vulto, realimenta todos os estereótipos que os gringos adoram sobre as nossas plagas.

Com um ritmo que, ora lembra os piores momentos dos pastiches americanos, ora a levada bossa nova daqueles teclados Cássio da década de 70, “Back in Brazil” parece arrancada de um desenho do Zé Carioca. O ritmo e o clima “Begin the Beguine” nos remete à idealização paradisíaca tropical de um local longínquo, sensual, onde, como diz a letra, as pessoas dançam todas as noites e tomam sol todos os dias.

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Para acompanhar a canção, foi usada uma cena gravada anteriormente no estádio Fonte Nova, quando uma modelo subiu ao palco a dançou junto com Paul. A historinha do clipe mostra a moça esperando, desolada, para entrar no show, é claro, do ex-beatle, enquanto o namorado (alto e bonito) tem que trabalhar até mais tarde.

Ao final do show, depois do desenrolar de todo o romance, eles se encontram e ela conta, em português com legendas, que foi chamada pelo astro para dançar no palco. O namorado fica exultante, lhe dá os parabéns e os dois se beijam. Neste momento, a batida Cássio Bossa Nova volta e a canção é encerrada com o casal dançando e se beijando à beira mar.

Um toque a mais de humor fica por conta da legendagem. No momento em que o namorado é avisado sobre o ocorrido, se surpreende e exclama: “Nossa, véi, que foda!”, que é traduzido candidamente para “no way, that´s amazing!”. Algo como “Nossa, que incrível!”.

Na letra, uns guinchos do tipo: “Ichiban! Ichiban! Ichiban!” e “Pa-pa-pa-pa-pa you and I” acompanham breques, refrão e o desfecho.

No desenrolar do clipe, toda a sorte de lugares comuns que você já viu e ouviu sobre o Brazil e muitos outros que nem sonhou, desfilam pela tela. O casal negro, é claro, dança com capoeiristas, artesanatos de rua, gente seminua, tambores do Olodum, um Jeep conversível sem capota, rebolados e breques canhestros e opa: “Ichiban! Ichiban! Ichiban!”.

A melodia tenta a síncope e acaba se repetindo dura e sem suingue, sempre no acento forte, o que provoca um efeito ainda mais estranho para os ouvidos brasileiros acostumados ao acento no tempo fraco. Um simulacro canhestro dos nossos ritmos.

O clipe foi lançado no dia sete de setembro. Paul escreveu no dia, no Facebook, na legenda da postagem: “Feliz Dia da Independência, Brasil”.

Ao final de tudo, fica o assombro. Um compositor do naipe de Paul McCartney, um dos maiores de todos os tempos, parece, com “Back in Brazil”, ter tentado um ‘jingle’ para agradar determinado público. No caso, nós mesmos, os brasileiros, e resultou em algo muito aquém, tanto de seu talento quanto da diversidade brasileira.

É bom lembrar que, em outros tempos, no seu álbum “Flowers in The Dirt”, de 1989, Paul já havia homenageado o Brasil, através do seringueiro, sindicalista e ativista Chico Mendes, morto um ano antes, com a bela canção “How Many People”.

Não que precisemos ser lembrados sempre por nossas mazelas, mas, tampouco, idealizados por um bem viver tropical caliente onde não nos reconhecemos mais nem nas novelas.

Uma pena.

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