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09 de agosto de 2012, 12h03

Paulo Coelho, James Joyce e a defesa dos monumentos como desejo de distinção

Um dos efeitos mais daninhos do abismo de letramento existente na sociedade brasileira entre aquela ínfima minoria que maneja os códigos da cultura erudita e a esmagadora maioria iletrada tem lugar não naquela nem nesta ponta do espectro, mas na fatia comumente chamada em inglês de midbrow, ou seja, o leitor não-especializado, geral, consumidor de […]

Um dos efeitos mais daninhos do abismo de letramento existente na sociedade brasileira entre aquela ínfima minoria que maneja os códigos da cultura erudita e a esmagadora maioria iletrada tem lugar não naquela nem nesta ponta do espectro, mas na fatia comumente chamada em inglês de midbrow, ou seja, o leitor não-especializado, geral, consumidor de revistas e jornais, mas não necessariamente familiarizado com os códigos da cultura erudita (lembrando, pra começar a conversa, que no Brasil é praticamente impossível usar esses conceitos – erudito, de massas, midbrow – sem ser acusado de hierarquizá-los, como se eles fossem categorias morais e não conceitos sociológicos). Em sociedades onde o letramento foi mais universalizado – não falemos dos países do Atlântico Norte, limitemo-nos à Argentina, nação mais comparável à nossa –, o leitor midbrow tende a se relacionar, creio eu, de forma menos angustiada com os códigos, tanto da cultura erudita como da cultura de massas. Em sociedades como a nossa, onde há um abismo de letramento, uma das formas através das quais o leitor midbrow tenta aceder a certa distinção associada com a cultura erudita é no ataque sistemático às formas da cultura de massas. Demonstrar desprezo pelo funk carioca ou pelo tecnobrega constroi, imaginariamente para o leitor midbrow, alguma comunhão com a esfera da cultura erudita da qual ele está, na maior parte do tempo, excluído.

É isso que está em jogo num dos esportes nacionais: atacar, vilipendiar, desprezar e achincalhar Paulo Coelho. Já havia acontecido com Jorge Amado, autor com o qual, apresso-me em ressalvar, Coelho tem pouco em comum. No caso de Paulo Coelho, esse esporte é jogado com muito mais frequência em jornais e revistas – veículos da cultura midbrow por excelência – do que nos espaços da cultura erudita propriamente tal.

Ao contrário da Argentina, o Brasil não possui uma grande tradição de literatura de entretenimento, popular e de consumo massivo. Gêneros como o romance policial e a ficção científica, que construíram poderosas tradições no país vizinho, nunca floresceram no Brasil com vida independente. Isso não quer dizer que boa literatura policial não tenha existido no Brasil. Só significa que nos casos em que isso aconteceu (Rubem Fonseca, por exemplo), seus autores transitavam pelos códigos da cultura erudita e eram consumidos como tal. Coleções de livros massivamente vendidos em bancas de jornal sempre foram casos raros entre nós. Mesmo quando essas coleções existiram – como a “Imortais da Literatura Universal”, da Editora Abril, que fez sucesso em bancas durante a ditadura –, não era uma literatura nacional de entretenimento que se vendia.

Paulo Coelho é uma figura solitária nesse espaço. Não há escritor vivo, em nenhuma língua neolatina, que tenha vendido mais livros que Paulo Coelho: são 140 milhões de exemplares, em 73 línguas e pelo menos 160 países. Chegou a lugares que nem Pelé nem Sepultura jamais chegaram. Gente que nunca havia lido um livro, leu Paulo Coelho. Seu escritório recebe centenas de emails diários com testemunhos de como seus livros transformaram a vida de leitores. Ao contrário de outros escritores que vendem milhões, como John Grisham e Dan Brown, Paulo Coelho arrasta milhares de pessoas para onde vai. Coelho fez mais pela formação de um público leitor no Brasil que qualquer uma das tolas campanhas do Ministério da Cultura, como esta última – leia mais, seja mais, duplamente errada, já que “ler mais” não garante a ninguém “ser mais”, e leitores não se formam a partir da missão de “ler mais”, mas de ler aquilo de que gostam. A campanha tem a cara de uma Ministra que visivelmente não lê nada e que, portanto, mantém com a leitura uma relação fetichista — mais, mais, mais.

Como ocorre com 90% dos autores que leio, alguns textos de Paulo Coelho me agradam, outros nem tanto. Gosto muito, por exemplo, de Onze Minutos, que considero um belo livro. Mas, nessa questão, sempre fui caetânico: é muito melhor que se leia qualquer coisa, desde que você goste. A chance de que um livro leve a outro livro é infinitamente maior de que ele leve de volta à não-leitura. E, neste aspecto, Paulo Coelho tem feito um bem imenso à literatura. Para não falar, claro, das suas posições corajosas em questões como a biografia proibida de Roberto Carlos escrita por Paulo César de Araújo ou a defesa do direito de reprodução e circulação de arquivos na internet.

Nesta semana, Paulo Coelho foi atacado de todos os lados por uma entrevista à Folha em que dizia que Ulysses havia feito mal à literatura e que o romance cabia num tuíte. Na verdade, a proposição de que Joyce mata o romance é um dos grandes clichês da crítica literária do último século. Paulo não disse nada absurdo nem original. É a pura verdade que Joyce leva o romance ao seu limite – depois de Ulysses, só há variações sobre o que Joyce fez ou um retorno a formas prejoyceanas. Quanto à boutade de Paulo, de que o romance cabe num tuíte, nada mais verdadeiro. Hamlet, Anna Karenina, Guerra e Paz e Édipo Rei também cabem. Aliás, este joyceano fanático que vos fala já resumiu Ulysses em um parágrafo numa das celebrações do Bloomsday n’O Biscoito Fino e a Massa.

Onde está, portanto, o escândalo? Em lugar nenhum, a não ser na desesperada tentativa de defender um monumento da alta cultura para, com isso, acumular alguns pontinhos na escala da distinção. O problema é que isso é, ironicamente, contraditório com a própria obra joyceana. Joyce não é Proust, que detestava o cheiro de povo. O mundo de Joyce é o da cerveja, dos pilantras, das safadas e dos cornos, das cantorias bêbadas nos becos. Em todas as celebrações anuais do Bloomsday em meus blogues, sempre me bati contra o mito do Joyce “ilegível”.  Por vezes difícil, sim, Ulysses é, acima de tudo, um livro divertido e debochado. Na tentativa midbrow de distinção, é melhor agarrar outro monumento. Tente Proust ou Musil. Com Joyce não funciona. Dizer ‘prefiro Joyce a Paulo Coelho’, por exemplo (uma das infinitas bobagens que foram ditas), demonstra total incompreensão de ambos: pilar da obra joyceana é a permeabilidade mas também a irredutibilidade entre cultura popular e cultura erudita. Ao mesmo tempo em que se apropriava de rimas, baladas, canções patrióticas, folclore, slogans e várias outras formas da cultura popular, Joyce sempre insistiu que o valor dessas formas era próprio, irredutível à esfera da cultura erudita à qual pertence sua obra literária.

Em outras palavras, Joyce daria gargalhadas de seus “defensores” contra as heresias do Mago.


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