27 de setembro de 2018, 17h29

Paulo Guedes, o “Chicago Boy” de Bolsonaro e seus vínculos com a ditadura Pinochet

Candidato a vice na chapa de Jair Bolsonaro, o economista chegou a dar aulas na Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas da Universidade do Chile, a convite de Jorge Selume Zaror, espécie de porta-voz no núcleo duro empresarial do ditador Augusto Pinochet

Foto: Reprodução/GloboNews

Por Frederico Füllgraf, de Santiago do Chile

Era meio-dia e meia do dia 11 de setembro de 2017, quando o reitor Ennio Vivaldi abriu uma solenidade insólita no campus central da Universidade do Chile.
Nos quatro cantos do pátio Domeyko estavam espalhadas fotos em preto e branco ampliadas, muitas delas emolduradas por buquês de flores.
Sentadas e em pé, centenas de famílias miravam o reitor com olhares de tristes a graves, alguns empunhando cartazes com dizeres tais como “Título + Toda a verdade, Toda a Justiça”.
Emocionado, Vivaldi tomou a palavra: “Esta iniciativa tem dois significados muito profundos. Por um lado, é um gesto de reparação para com as próprias vítimas e seus familiares, associadas afetivamente a seus seres queridos com esta grande instituição, que é a Universidade do Chile. Por outro, a Universidade está cumprindo com seu dever moral, ao não conceder à ditadura o terrível objetivo de – além de ter-lhes roubado a vida – tentar apagar seus êxitos como estudantes e futuros profissionais do Chile”.
Com o golpe de Estado de 11 de setembro de 1973, todas as universidades do país tinham sofrido intervenção militar – de modo especialmente truculento, a “U. de Chile”, como é popularmente conhecida – que proscreveu a então Federação dos Estudantes (FECH), majoritariamente de esquerda, impondo mudanças drásticas em sua estrutura, o fechamento de seus campos regionais, a alteração autoritária de conteúdo de cursos, a expulsão, perseguição e o homicídio de professores e alunos.
Assim, amparada pelo Decreto Nº. 0030766 da Controladoria da República, emitido uma semana antes, em setembro de 2017, a Universidade do Chile entregava diplomas póstumos a 104 estudantes assassinados e desaparecidos pela ditadura Pinochet, entre 1973 e 1989.

Aula magna de Pinochet com ordem de “desaparecimentos”

Trinta e oito anos antes, em 6 de julho de 1979, no auditório da mesma U.
de Chile, o general Augusto Pinochet proferia uma “aula magna” intitulada “Visión Futura de Chile” vociferando: “Demos mostra de uma moderação [sic!] que contrasta, em primeiro lugar, com o destino do qual, sem dúvida, teriam sido vítimas os setores democráticos deste país, se os propósitos soviéticos [sic!] se tivessem cumprido”.
Sob a mirada fixa do interventor militar, major-general Agustín Toro Dávila, o ditador
divagou alguns minutos sobre a importância do conceito de “subsidiariedade”, resumindo naquele dia o que hoje se assume como senso comum no campo neoliberal: “É o respeito a esse princípio que envolve a aceitação do direito de propriedade privada e livre iniciativa no campo econômico, que consideramos como a única maneira que leva ao verdadeiro desenvolvimento”. E arrematou: “O estatismo (sic!) retarda o progresso e sufoca a liberdade”.
A tal “subsidiariedade” como princípio norteador da Economia – ou seja, “Estado Mínimo”, com ampla privatização do patrimônio e a gestão privada dos serviços públicos como Educação e Saúde – foi uma das mais duras disputas ideológicas nos intestinos da ditadura civil e militar, que no entanto culminou com a hegemonia da linha ultra-corporativista dos “Chicago Boys”, cuja doutrina do tal “modelo chileno” vigora ainda hoje, transcorridos 28 anos do retorno do Chile à Democracia.

Porém, a “aula magna” revestia-se de tinturas particularmente macabras.
Dois dias antes, o juiz Adolfo Bañados – ministro designado pela Corte Suprema para investigar o caso “Fornos de Lonquén”, nos quais, no final de 1978, foram encontrados esqueletos de 15 presos políticos incinerados – renunciara ao seu cargo quando a causa fora transferida à justiça militar.
Antes de entregar o caso, Bañados insistira corajosamente que as vítimas não tinham sido “mortas em enfrentamento”, mas torturadas, assassinadas e queimadas; afirmação entendida como um dos primeiros alertas ao sem número de desaparecimentos forçados de presos políticos, chocando profundamente milhares de seus familiares.
A barbárie atingia a “U.de Chile” por dois lados.
Por um lado, com a repressão aos seus professores e estudantes, por outro, mediante a promiscuidade de seus interventores com a caçada sanguinária fora do campus.
O major-general Agustín Toro Dávila, por exemplo, era irmão do então coronel Guillermo Toro Dávila.

Designado por Pinochet, mediante o Decreto-Lei Nº. 4 -1973, como comandante do Regimento Nº. 9 de Infantaria de Montanha de Chillán e governador da província de Ñuble, desde 1973 o coronel tinha participação ativa em torturas e execuções sumárias de opositores à ditadura em seu regimento, cujos corpos eram jogados de uma ponte ao Rio Ñuble. Após décadas de impunidade e aos gritos de “¡Asesino!”, de uma multidão concentrada diante do tribunal, em agosto de 2017 Guillermo Toro Dávila foi finalmente preso pela Justiça Chilena.

Paulo Guedes, Jorge Selume e Pinochet

Neste contexto da versão sinistra da repressão – com a exumação de covas clandestinas, cujos corpos eram preparados com trilhos de aço atados aos pés e jogados de helicópteros ao Pacífico – o brasileiro Paulo Roberto Nunes Guedes é convidado por seu colega chileno na Universidade de Chicago, Jorge Selume Zaror, para dar aulas na Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas da Universidade do Chile, que Selume comandou como decano, de 1981 a 1985.

De origem árabe e há décadas vinculado a um poderoso grupo de empresários chilenos com a mesma origem – entre os quais Álvaro Saieh, proprietário do grupo editorial Copesa, de La Tercera, segundo maior jornal do Chile, e da rede de supermercados Unimarc -, ao vinte e poucos anos de idade, Selume já se desempenhara como alto funcionário do Ministério de Planejamento e deixaria a “U.de Chile” para ser Diretor do Orçamento Nacional da ditadura Pinochet, de 1985 a 1987.

Personagem controvertido, Selume é uma espécie de porta-voz oficioso do núcleo duro empresarial pinochetista.

Após carreira meteórica nos meandros da ditadura, com a democratização do Chile acumulou um portfólio de negócios milionários, que vão do cobre, pelo mercado financeiro, a investimentos no setor da educação privada.

Foi diretor da Transbank S.A., de propriedade do atual presidente Sebatián Piñera, e presidente, entre outros, da Banosorno Leasing S.A e corretora de Bolsa S.A., da Bolsa Electronica, da Bolsa de Valores S.A., do Banco Osorno y La Unión, da Banosorno Administradora de Fondos Mutuos S.A., ademais presidente da Região Andina do grupo norte-americano Laureate International de ensino privado, proprietário da Clínica Indisa, e até 2016 sócio-diretor do grupo Corpbanca Chile, cujo principal negócio foi a aquisição do antigo Banco de Concepción, fundado em 1871, e do Banco Consolidado, da Venezuela, logo revendido ao Banco Occidental de Redescuento.

Com 389 agências bancárias, mais de 10 mil funcionários no Chile e na Colômbia, valor de mercado de 8 bilhões de dólares e ativos de 45 bilhões de dólares, no início de 2014 o CorpBanca foi adquirido pelo grupo Itaú-Unibanco por 3,7 bilhões de dólares, tornando-se a quarta maior rede bancária do Chile.

Representante da direita dura – que nas eleições presidenciais de 2017 tinha como candidato o filho de um militar nazista alemão, José Antonio Kast, mas que apoiou Piñera no segundo turno – Selume articulou a nomeação de seu filho Jorge Selume Aguirre, um psicólogo de 37 anos, para o cargo de chefe da Secretaria de Comunicações (Secom) do Governo Sebastián Piñera, onde é conhecido como “El señor big data”.

De debochado a cínico, Selume – que também atua como Conselheiro de Políticas Públicas do think tank neoliberal Libertad y Desarrollo, espécie de Instituto Millenium da direita chilena – jamais escondeu a continuidade de sua militância virtual nas hostes do general-comandante de crimes de lesa-humanidade – responsável pela tortura de pelo menos 60.000 e o assassinato de 3.000 chilenos -, colaborando com considerável soma em dinheiro para libertar Pinochet de sua prisão domiciliar em Londres, entre 1998 e 2000, ou declarando em 2007 à revista Capital, “sigo creyendo que Pinochet hizo un gran gobierno. Y me enorgullece haber colaborado con esa administración … Concluido su gobierno, varias veces me invitó a almorzar a la comandancia en jefe”.

Originalmente egressos do Instituto de Economia da PUC de Santiago – de onde Milton Friedman e Arnold Harberger atraíram na década de 1950 a primeira leva de economistas chilenos para a Escola de Economia da Universidade de Chicago – após o golpe de 1973, os “Chicago Boys” da segunda geração, como Selume, expandiram seu domínio à Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas da Universidade do Chile, que hoje se chama Faculdade de Economia e Negócios (ECON/FEN).

“Profundamente envolvidos com a preparação do golpe, os “Chicago Boys… convenceram os generais de que estavam em condições de complementar a brutalidade empregada pelos militares, com os dotes intelectuais que lhes faltavam”, escrevia Orlando Letelier – ex-Chanceler do Governo Salvador Allende, exilado nos EUA – em seu ensaio “Los ‘Chicago Boys’ en Chile: el terrible impacto de la libertad económica”, publicado em 28 de agosto de 1976, pelo semanário The Nation.

Três semanas mais tarde, em 21 de setembro de 1976, Letelier e sua secretária Ronni Muffet voaram pelos ares durante um mortífero atentado à bomba realizado por agentes da polícia secreta DINA, encomendado pessoalmente por Pinochet.

Em troca de um suculento salário na casa dos 5 dígitos em dólares, Paulo Guedes lecionaria na ECON/FEN após a mais cruel depuração de seu quadro docente e funcional, que segundo estimativa da Associação de Exonerados Políticos da “U.de Chile” atingiu entre 3.400 e 5.000 funcionários e acadêmicos exonerados.

“Neste sentido, as universidades foram vistas como um ´teatro de guerra’, que devia ser tratado como território ocupado pelo inimigo…”, conclui a professoraJaviera Errázuriz, em seu ensaio Intervención y Depuración en la Universidad de Chile, 1973-1976. Un cambio radical en el concepto de universidad”, publicado em 2017.

Trocando correspondências com o Professor Ricardo Ffrench-Davis, um ex-“Chicago Boy” tornado seu crítico acérrimo, este me escreve: “O que com certeza posso afirmar é que naqueles anos a perseguição a professores, economistas democratas, foi muito dura. Empreenderam uma nova razzia contra os que ´não ensinavam a verdade única´, o que hoje se chama de neoliberalismo, mas em sua versão mais extremada: liberdade plena para eles; proibição, expulsão e até mesmo a morte para o resto. Dia 12/09 haverá uma celebração diante do Memorial da Faculdade pelas vítimas de FEN durante a ditadura. Tempos negros”.

Paulo Guedes e o BTG-Pactual no “mercado” dos fundos de pensão

Um ano antes do jovem “Chicago Boy”, Paulo Guedes, desembarcar no Chile, em 1980, José Piñera – irmão do atual presidente do Chile e então ministro do Trabalho e Previdência Social da ditadura Pinochet – esboçava o que chamou de “colocar o guinho no gato”, com a privatização do sistema previdenciário público de repartição.

Em troca, Piñera oferecia as AFPs, fundos privados de pensão com um plano de capitalização, que após 30 anos de recolhimento de “cotas voluntárias” de 10 por cento do salário, pagaria pensões de até 70 por cento do valor do último vencimento do contribuinte na ativa.

Este é o “modelo chileno” apregoado por Guedes, para quem o sistema vigente da previdência de repartição precisa ser reformado urgentemente, porque “é um avião cheio de bomba-relógio”.

Certamente, Guedes está mal-intencionado, apostando na desinformação da maioria dos brasileiros, pois sua figura de linguagem cai como uma luva de amarga ironia sobre a promessa não cumprida de Piñera, que aos olhos de milhões de pensionistas chilenos instalou, sim, uma “bomba-relógio” na engrenagem de seu sistema previdenciário.

Há três anos, milhões de chilenos irados, de todas as idades, tomam as ruas do país andino com a palavra-de-ordem tornada hashtag, #No+AFP, contra a privatização do sistema previdenciário instituído pelo general Pinochet em 4 de novembro de 1980, que, curiosamente, excluía as Forças Armadas, que preferiram optar pelo velho e mais seguro sistema de repartição.

Em 2013, uma equipe do Centro de Estudios Nacionales de Desarrollo Alternativo (CENDA), coordenada pelo economista Manuel Riesco, publicou um balanço fulminante sobre o desempenho dos fundos de pensão durante os primeiros vinte anos de operação do sistema privatizado.

Suas principais conclusões foram:

  • De cada 3,0 pesos arrecadados pelo sistema, seja pela contribuição dos afiliados ou sob forma de subsídio do Estado, 2,0 pesos desaparecem na engrenagem promíscua de administradoras de fundos e grandes grupos financeiros, e constituem a principal razão do pagamento de pensões extremamente baixas;
  • Em seguida, o estudo revela que, em 2012, as contribuições mais que dobraram o valor das aposentadorias pagas pelas AFPs e seguradoras, que além disso se beneficiaram de subsídios de Estado, equivalentes a 2/3 do valor pago. Motivo pelo qual os valores das pensões são incertos, pois dependem dos caprichos dos mercados financeiros, que no período de 2006 a 2012 geraram mais perdas que ganhos, além de projetarem uma expansão do sistema inversamente proporcional ao aumento da expectativa de vida da população.
  • Finalmente, a pesquisa define de modo igualmente magistral e inclemente a natureza e a lógica interna do sistema privado de pensões: “é um sistema de poupança forçada concebido para sugar recursos do fator Trabalho e transferi-los diretamente aos proprietários do capital”.

Graças aos antigos bons contatos e a expertise de Paulo Guedes como um de seus quatro fundadores, o grupo brasileiro BTG-Pactual é um dos grandes beneficiados do sistema AFP.

Segundo avaliação de março de 2017, de Pedro Ariztía do BTG Pactual Chile, os fundos imobiliários poderiam aumentar em 12 vezes seu atual valor de 972 milhões de dólares movimentado nas bolsas. Destes, o BTG controla 320 milhões de dólares em ativos, o que representa 33 por cento do chamado “mercado da indústria de fundos”. O objetivo do BTG, arremata Ariztía, é “ser o ator mais importante do mercado…, e estamos mirando o mercado de toda a América Latina”.

O mercado, no qual o BTG está de olho, é assombroso.

Os investimentos internacionais dos fundos de pensão, controlados no Chile por apenas seis empresas, cresceram 27 por cento em 2017, totalizando 97,0 bilhões de dólares, equivalentes a 44 por cento dos ativos do sistema, cujo investimento em empresas chilenas no mesmo período foi de 20,6 bilhões de dólares, correspondentes a 9,0 por cento do “caixa”-  operações em grande parte promíscuas, na medida em que entre os beneficiados se encontra o Banco de Chile, de propriedade do clã Luksic, com 13,7 bilhões de dólares, o maior patrimônio privado do Chile.

E eis o contraste.

Em 2014, segundo conclusões da Comisión Bravo, instituída pela então presidenta Michelle Bachelet, metade dos pensionistas com aposentadorias autofinanciadas – isto é, que não têm complemento fiscal, como por ex. o “pilar solidário”, que entrou em vigor em 2008 mediante uma tímida reforma do sistema – recebem aposentadorias que não superam 34 por cento do salário na ativa.

Porém, os números chegam a ser mais obscenos.

Se a soma dos investimentos dos fundos totaliza 53,3 por cento, virtualmente sobram em caixa apenas 46,0 por cento das cotas recolhidas para pagamento das pensões.

Destas, segundo reportagem do respeitado jornal eletrônico El Mostrador, de outubro de 2015, os fundos de pensão pagam aposentadorias miseráveis a 75,0 por cento dos pensionistas chilenos, que em casos extremos não superam 15 por cento dos salários, e que em média oscilam entre 33 por cento e 50 por cento do salário mínimo de 300 mil pesos Chilenos (aprox. 1.760,00 reais), decretado em agosto de 2018.

“Que mais de 90% das pensões por aposentadoria programada sejam inferiores a 156 mil pesos (aprox. 900 reais), contrasta com a dança dos milhões embolsados pelos diretores dos conselhos e os executivos VIP das AFPs. Em 2015, os dois grupos faturaram 34.3 milhões de dólares com assim chamadas ´gratificações´”, observou o jornal El Mostrador em artigo de julho de 2016, sob o título “Las redes políticas tras los nombres clave en el millonario negocio de las AFP”.