05 de junho de 2018, 18h18

Peça com atriz travesti no papel de Cristo é proibida pelo prefeito Marcelo Crivella

Prefeito do Rio, sem ver o espetáculo, disse que não permitiria nada que "desrespeitasse as religiões"

O espetáculo O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu foi proibido pelo prefeito Marcelo Crivella de ser apresentado em espaços da Prefeitura do Rio. A peça tinha apresentações marcadas para o próximo final de semana, na Arena Carioca Fernando Torres, em Madureira, espaço cultural do Município no subúrbio da cidade, mas a produção do evento foi pega de surpresa na manhã desta segunda-feira ao ser informado por um eletricista que a peça estava cancelado.

Uma reunião foi realizada na tarde desta terça-feira entre a produtora do evento, Sophia Prado, e a subsecretária de Cultura, Rachel Valença. “A subsecretária não ofereceu nenhum espaço público como alternativa pra gente. Ela sugeriu que procurássemos o Sesc do mesmo bairro, um espaço privado. Mas não temos nenhuma garantia de que eles vão aceitar que a gente apresente a peça lá”, disse Sophia

Na mesma tarde, LGBTs protestaram contra a proibição em um ato realizado no bairro do Méier, Zona Norte da cidade. Uma faixa direcionada ao prefeito do Rio foi estendida com os dizeres “Cure seu preconceito”.

Secretaria de Cultura alega que liminar impede uso da arena

A peça compõe a mostra Corpos Visíveis, que na programação conta com shows dos cantores transexuais Mulher Pepita e Kaique Theodoro, com a exibição de filmes ligados a temática LGBT e um outro espetáculo teatral. Toda a programação está ameaçada de não acontecer neste final de semana.

Segundo a Secretaria Municipal de Cultura, uma liminar do mês de abril impede a utilização da Arena Fernando Torres devido a uma disputa judicial entre a antiga gestora do espaço, a Associação Cultural Amigos do Agito e a vencedora da licitação, a AGUAS (Associação para Gestão de Unidades Administrativas Sociais), para gerir a arena. Por decisão do juiz Marcelo Martins Evaristo da Silva, o espaço está fechado há um mês.

No entanto, um vídeo de Crivella divulgado na página do prefeito no Facebook põe uma pá de cal em qualquer possibilidade de a peça ser apresentada em um espaço público. O prefeito dispara no vídeo que “nenhuma peça que desrespeita religiões será realizada na cidade”.

Protagonista do espetáculo, a atriz Renata Carvalho não compreende a posição do prefeito. “Ele não poderia opinar em uma coisa que ele não viu. Não assistiu à peça e nem leu o roteiro. A opinião é reiterada pela produtora da mostra Corpos Visíveis, Sophia Prado. “Se trata de uma afirmação transfóbica que não condiz com o conteúdo da peça. Nosso projeto é de inclusão, não seria de nosso interesse trazer um conteúdo que ferisse qualquer grupo religioso.. Não faríamos qualquer evento que ferisse a dignidade de qualquer grupo”, disse.

Realização do evento estava acertada com a Secretaria de Cultura, diz produtora

A produtora da mostra Corpos Invisíveis contou à reportagem que a Secretaria de Cultura tinha conhecimento da liminar desde o mês de abril, mas a decisão judicial não era tratada como impedimento para a realização do evento. “Nós temos várias trocas de emails com a Secretaria garantindo que a Corpos Visíveis seria realizada no Parque Madureira. Fizemos reuniões com a subsecretária de Cultura, Rachel Valença, que nos informava que a Secretaria de Cultura havia assumido a administração do espaço”, informou a produtora.

A produção acabou avisada de uma maneira surreal sobre a inviabilidade do evento. “Estávamos já a caminho da arena para uma visita técnica quando um eletricista, encaminhado pela mesma Secretaria, ligou para a gente avisando que não iria porque a peça estava cancelada”, recordou.

LGBTs protestaram na Zona Norte do Rio contra o prefeito Marcelo Crivella e a proibição do espetáculo. Foto: Filipe Nogueira

A protagonista do espetáculo não tem dúvidas sobre o real motivo da proibição do esetáculo. “O que causa censura é Jesus ser materializado no corpo de uma travesti”, definiu Renata Carvalho.

Peça sofre atos de censura por onde passa

O espetáculo O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu apresenta a seguinte questão: Como seria a vida de Jesus nos dias de hoje se encarnado no corpo de uma travesti. A peça foi escrita por uma pessoa trans e provoca tentativas de censura por onde passa. No Rio Grande do Sul, uma ação tentou proibir a apresentação do espetáculo em Porto Alegre, mas a Justiça decidiu pela liberdade de expressão. A produção do Evangelho não teve a mesma resposta em Jundiaí, interior de São Paulo. Uma liminar chegou a impedir a apresentação, mas foi derrubada em segunda instância.

Atriz de teatro há 20 anos, Renata garante que não se intimida com as reações negativas. “O que me assusta é o silenciamento das pessoas trans e a ocultação do nosso genocídio de todos os anos. Ser uma pessoa travesti já traz consigo vários discursos, marcas, estereótipos, estigmas e deslegitimação de nossas vivências e identidade. Uma das causas é, sem dúvida, esse discurso religioso tão excludente e desinformado que criminaliza nossos corpos”, concluiu.