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12 de junho de 2018, 10h46

Pedro Sujo e o Rei do Mundo

Os loucos são senhores da cidade, cabendo aos cidadãos alimentá-los, vesti-los e, na falta de uma família que o faça, zelar para que a loucura não lhes domine o asseio. Disso resulta que, por curioso que seja, a loucura desperta a solidariedade cívica. Porque os loucos pertencem às cidades, não às famílias.

Houvesse justiça no mundo e os loucos teriam seus nomes inscritos no Livro dos Heróis da Pátria. Suas datas de nascimento seriam efemérides municipais e, ano sim outro também, assistiríamos, sinceramente comovidos, aos desfiles das bandas e fanfarras, em sonora homenagem.

Os loucos são senhores da cidade, cabendo aos cidadãos alimentá-los, vesti-los e, na falta de uma família que o faça, zelar para que a loucura não lhes domine o asseio. Disso resulta que, por curioso que seja, a loucura desperta a solidariedade cívica. Porque os loucos pertencem às cidades, não às famílias.

Andassem os homens irmanados com o justo, os alucinados pousariam nas fotografias à frente dos prefeitos e vereadores, nas galerias da municipalidade. Porque podemos esquecer o nome de prefeitos, juízes e delegados, mas o dos loucos de nossa infância, jamais.

É possível que ocorra nos grandes centros urbanos. Neles, uma alma desencarna e reencarna sob coletiva indiferença, mas jamais numa cidade do interior. Nelas, os loucos são eternos.

Quando eu era garoto, em Miguel Calmon, havia um louco chamado Pedro Sujo.

A mim ele despertava o terror de um Átila às portas de Roma. As lendas contadas sobre ele, a barba longa, o chapéu de palha e aquele cheiro inconfundível compunham o cenário perfeito para o temor apresentar-se na cabeça de uma criança. Pedro Sujo só tomava banho, cortava cabelo e barba, bem como trocava de roupa, uma vez ao ano, na Semana Santa.

Era gentil. Trabalhava, cumpria tarefas, fazia entregas e levava recados, num tempo em que as pernas substituíam o telefone e as redes sociais eram percorridas atravessando ruas e praças, língua a língua, estando sempre a última mais descansada e, talvez por isso, disposta a aumentar o ocorrido. Pedro ia de Miguel Calmon a Jacobina andando; trinta e quatro quilômetros tendo o sol como companhia. Voltava no mesmo veículo.

Morava na antiga usina de energia e escondia suas economias junto ao tronco de uma árvore, o que lhe garantiu a fama de enterrar dinheiro.

Certa vez Mary, minha irmã, esqueceu a porta de casa aberta, o que motivou sua filha, ainda de fraldas, sair em expedição exploratória pela calçada. Pedro Sujo, em seu perfeito juízo, interceptou a menina e a devolveu à mãe, mas não sem antes aplicar-lhe uma descompostura.

Não fosse o apreço popular pela sacanagem, o tempo enterraria seu pensamento. Tal qual Sócrates, o ateniense, Pedro Sujo não escrevia suas lições. A sacanagem, entretanto, pôs seus ideais a salvo.

E graças a ela, hoje lembramos dele.

Quando lhe perguntavam quem era o rei do mundo, Pedro Sujo, com sua municipal autoridade, vaticinava, aos berros:

– O rei do mundo é o xibiu! É o xibiu!

Entretanto, não há um único busto de Pedro Sujo em todo o Piemonte da Chapada Diamantina. Nem alguém que o esqueça.