08 de julho de 2011, 18h13

“Peguei um ita no Norte…”

Pensando na morte de Itamar Franco, me vieram à cabeça algumas coisas que têm a ver com Itamar e outras que não têm.

Uma que tem a ver é relativa não ao tempo em que ele era presidente da República, mas depois, quando era governador de Minas e Fernando Henrique era presidente. Gostei de uma atitude dele.

Itamar conseguiu evitar que FHC entregasse Furnas aos capitalistas. Fernando Henrique ameaçou privatizar Furnas contra a vontade do governador de Minas e Itamar anunciou que se a usina fosse privatizada ele desviaria o rio Grande, a hidrelétrica ficaria sem água para gerar energia. FHC teve que voltar atrás. Muita gente achava que era blefe, mas um dos meus irmãos viu num órgão do governo em Belo Horizonte um estudo para o desvio das águas.

 Um parêntese para lembrar o desmonte do Estado na era FHC: ele incluía a entrega das ferrovias à iniciativa privada. Muita gente festejou, dizendo “agora sim, elas vão funcionar direito”. E a iniciativa privada acabou com as ferrovias de passageiros no Brasil. Chegaram a acabar com a única opção de transporte de muitos lugares, como algumas cidades do Pantanal. Ferrovia, para os que receberam toda aquela estrutura praticamente de graça, é para transportar grandes cargas, dar muito lucro. Gente não faz parte dos planos eles.

Agora, um outro desmonte que o nome Itamar me fez lembrar, mas é anterior ao governo FHC. Começa com o nome dele. A mãe de Itamar viajou grávida, de navio, da Bahia para o Rio, de onde seguiriam para Minas, e o menino nasceu em pleno oceano Atlântico, daí seu nome: Ita era o nome que se dava aos navios que faziam a navegação de cabotagem, entre o Norte e o Sul do Brasil. Então, como ele nasceu num “ita” em pleno mar, ficou sendo Itamar.

Tudo porque a Companhia Nacional de Navegação Costeira dava nomes a suas embarcações sempre começando por “ita”: Itaquatirara, Itapé, Itanajé…

Isso não existe mais. Não existe mais transporte regular de navio nas costas brasileiras. Se Dorival Caymmi fosse compor hoje, a viagem cantada em sua música, de Belém ao Rio, não seria num “ita”. Ficaria esquisito ele cantar “Peguei um busão lá no norte…”, sua viagem seria inicialmente pela Belém-Brasília.

Enfim, o desmonte acontecido já há bastante tempo é esse: cadê nossa navegação costeira? Num país com tanto mar, tantos portos, gasta-se fortunas em transporte de mercadorias em caminhões, com muitos acidentes, pra completar, enquanto poderíamos ter um transporte muito mais barato e seguro por mar, costeanto o Brasil todo.

E seria muito gostoso ter a opção de ir à Bahia, por exemplo, pegando um navio em Santos e ir saboreando a viagem. E dava pra ir para Recife, Natal, Fortaleza, Belém, Florianópolis…

Eu ia muito a São Francisco do Sul, no norte de Santa Catarina, e um dia vi uns jornais da década de 1930 lá. Tinha anúncios sobre viagens: dia tal sai o navio tal para o Rio de Janeiro, com escalas em Paranaguá e Santos, etc. Dia tal, navio para Florianópolis e Rio Grande… Muitos navios paravam lá. Fiquei com inveja. Para ir a São Francisco do Sul, eu tinha que pegar um ônibus pela perigosíssima BR-116 até Curitiba, de lá descer até Joinvile por outra estrada horrorosa, para por fim pegar a estrada até o meu destino final. Se fosse nos outros tempos, pegaria um navio em Santos e ia numa boa, e chegaria a São Francisco já apreciando a paisagem na chegada. A cidade é muito bonita, vista do mar.

Mas acabaram com a navegação costeira, tudo é transportado por caminhões e aviões. E a gente continua encarando estradas engarrafadas e perigosas, de ônibus ou carro. Ah, que desperdício de mar. Até isso o Brasil desperdiça.