Blog do Maringoni

03 de novembro de 2017, 09h34

Perdemos Emília Viotti da Costa

Emília se vai num tempo de mediocridade e violência da vida nacional. Um período triste em que sua luminosidade e inteligência farão enorme falta.

Emília se vai num tempo de mediocridade e violência da vida nacional. Um período triste em que sua luminosidade e inteligência farão enorme falta.

Por Gilberto Maringoni*

Nesses tempos gosmentos, o Brasil perde uma de suas maiores historiadoras e uma intelectual refinada e participante da vida política. Emília Viotti da Costa morre aos 89 anos, deixando decisivo legado e uma vida de compromisso com a transformação social.

Seus livros mais conhecidos – “Da senzala à colônia” e “Da monarquia à República” – são referências fundantes para qualquer estudante de História.

Cassada pela ditadura, em 1969, foi obrigado a se afastar da USP e a se radicar nos Estados Unidos, onde fez carreira em Yale.

Tive a imensa honra de ser por ela convidado a escrever o volume sobre a Venezuela, destinado à coleção “Revoluções do século XX”, para a Editora da Unesp, em 2008. A série de livros a preços populares foi um êxito editorial, pautado por seu rigor acadêmico.

Nas reuniões que fizemos em seu apartamento, no bairro de Perdizes (SP), ela adorava desmistificar a aura de encantamento que cobre as passagens de pesquisadores da periferia em universidades norte-americanas. Sem deixar de valorizar a excelência acadêmica dessas instituições, ela reclamava do tratamento muitas vezes dispensado a estudiosos do Sul.

“Passei quase trinta anos em Yale e, apesar de respeitada, sempre fui vista como pesquisadora de segunda linha”, ironizava. “Professor do terceiro mundo que chega ao centro sempre é tratado assim, não é chamado para reuniões importantes e vai estudar América Latina, África ou Ásia. Por mim acho ótimo. Mas os temas por eles considerados nobres ficam com os de lá ou os da Europa Ocidental”, contava.

Emília Viotti não tinha ilusões com o Império. “Fui para trabalhar, tive vida agradável e tranquila, mas sem devaneios”.

Ela tinha exata noção de sua importância na historiografia brasileira, sem perder o humor e a informalidade daqueles que não precisam provar nada a ninguém.

Emília se vai num tempo de mediocridade e violência da vida nacional. Um período triste em que sua luminosidade e inteligência farão enorme falta.

Adeus, professora!

*Gilberto Maringoni é professor de Relações Internacionais na Universidade Federal do ABC. É também jornalista e cartunista.

Foto: Divulgação