27 de outubro de 2018, 23h31

Pesquisadores brasileiros que moram nos Estados Unidos lançam manifesto pró-Haddad

Em vídeo, os pesquisadores falam dos principais argumentos técnicos que fundamentam seu apoio à Haddad. Assista e leia o manifesto na íntegra.

Um grupo de pesquisadores brasileiros que residem nos Estados Unidos se reuniram com colegas estadunidenses na Universidade de Nova York e lançou um manifesto em prol da candidatura de Fernando Haddad, candidato do PT à Presidência da República.

No documento, os pesquisadores manifestam repúdio “a tudo o que o candidato à presidência Jair Bolsonaro representa e nossa preocupação frente ao agudo retrocesso social que sofrerá o país caso seja eleito”.

Segundo eles, os espaços acadêmicos e de pesquisa sofrerão diretamente com a repressão e o desmonte das instituições em um eventual governo do militar da reserva. “A educação pública brasileira é um dos principais instrumentos de mobilidade social em um país que é simultaneamente a sétima maior economia do mundo e um dos 10 países mais desiguais do mundo, onde o 1% mais rico concentra 22% do PIB”.

Em vídeo, os pesquisadores falam dos principais argumentos técnicos que fundamentam seu apoio à Haddad. Assista e leia o manifesto na íntegra na sequência.

Manifesto

Nós, pesquisadores, mestrandos e doutorandos afiliados a universidades americanas, apoiados pela comunidade científica local, manifestamos nosso repúdio a tudo o que o candidato à presidência Jair Bolsonaro representa e nossa preocupação frente ao agudo retrocesso social que sofrerá o país caso seja eleito.

Nos preocupam as ameaças que fez e faz à ordem democrática bem como a direitos históricos do povo brasileiro, como a legislação trabalhista, a previdência, educação e sistema de saúde públicos, legislação e regulamentação ambientais, o estatuto do desarmamento, dentre outros. Nos preocupa sobretudo, ameaças concretas que faz à ordem democrática com promessas de fechar o Congresso, caso necessário, alteração do quadro do Supremo Tribunal Federal, convocação de uma nova Constituinte, alteração do código eleitoral e retorno ao voto em papel, fechamento dos Ministérios da Cultura e do Meio Ambiente, dentre tantos outros. Também nos constrange suas ameaças de retirada do Brasil do Acordo de Paris e até mesmo do Mercosul e da ONU. A democracia brasileira é jovem, possui pouco mais de 30 anos, não há previsão de quais e quão duradouras seriam as consequências de uma desestabilização institucional profunda. Não abriremos mão de um projeto de sociedade conquistado e construído por décadas de luta.

Colocamo-nos contra o autoritarismo representado por Jair Messias Bolsonaro, um candidato que ao longo de 30 anos construiu sua carreira política com base em discursos de ódio, apologia à tortura e saudosismo pelos anos da ditadura civil-militar. Repudiamos as frequentes incitações que faz à violência, sua promessa de campanha de eliminar toda forma de ativismo no país, ameaçando a existência de movimentos sociais históricos bem como a integridade física de seus integrantes, declarações abertamente racistas, misóginas, LGBTQfóbicas e contra povos indígenas, bem como seu apoio explícito ao uso da violência. Nos estarrece suas demonstrações públicas de exaltação, inclusive no Congresso Nacional, à ditadura civil-militar e a Carlos Alberto Brilhante Ustra, chefe de operações do DOI-CODI, principal centro de repressão e tortura da época. Ustra comandava sessões de tortura que envolviam colocar animais para devorar genitálias femininas, pau-de-arara, eletrochoques, sessões de estupro, a presença crianças para assistirem a sessão de tortura dos pais, submetendo os pequenos também a torturas psicológicas e físicas (como o caso de Carlos de Alexandre Azevedo, torturado quando tinha apenas um ano e oito meses). Quando Bolsonaro homenageia Ustra e trata com escárnio os sobreviventes da repressão ele deixa claro quem tem como modelo de conduta. Não nos calaremos frente ao ataque à memória e à história de nossa nação.

Como pesquisadores, nos preocupam as consequências que o cerceamento à liberdade de expressão e ao pensamento crítico terão na academia, na vida intelectual e na sociedade brasileira como um todo. Os espaços acadêmicos e de pesquisa sofrerão diretamente com essa repressão, bem como com o prometido desmonte de suas instituições. A educação pública brasileira é um dos principais instrumentos de mobilidade social em um país que é simultaneamente a sétima maior economia do mundo e um dos 10 países mais desiguais do mundo, onde o 1% mais rico concentra 22% do PIB. Nos posicionamos contrariamente a suas propostas de desmonte da educação pública, cortes ao financiamento de pesquisas acadêmicas e científicas, que comprometerão integralmente o desenvolvimento tecnológico, intelectual e econômico do país. Não fecharemos nossos olhos enquanto enquanto um futuro sombrio se anuncia.

As comunidades científicas brasileira e norte-americana se juntam para manifestar seu repúdio contra o autoritarismo, onde quer que ele se apresente.