Andrea Caldas

política e educação

06 de janeiro de 2019, 18h10

Pistas para uma possível análise de conjuntura

Colunista Andrea Caldas inicia uma série de análises conjunturais do governo Jair Bolsonaro: "Há muito de antigo mas, muito de nova recombinação de elementos pretéritos e presentes e projeção de novos futuros".

Já confidenciei a amigos que, mesmo fazendo análise de conjuntura política – militante e acadêmica- há trinta anos, neste momento, com este tempo e este governo, não consigo asseverar nada de completo e absoluto.

Há muito de antigo mas, muito de nova recombinação de elementos pretéritos e presentes e projeção de novos futuros.

Sendo assim, vou começar a rascunhar opiniões e compartilha-las, sem pretensão de acabamento e com o desejo de interlocução.

I – O NECESSÁRIO COMBATE AO PRAZER

O atual governo é composto por duas costelas.

A primeira: a da agenda do MERCADO
Que se insinua mais claramente desde 2015, no governo Dilma, com a escolha de Levy e a pauta do Ajuste Fiscal.
Se aprofunda com o impeachment mas, não tendo sido concluída por Temer, precisa ser estendida no governo de 2019.
Este programa se resume a aniquilar a Constituição de 88, no que ela traz, modestamente, de direitos sociais, com o fito de atenuar a crise de acumulação do Capital, em um país dependente.
Esta é a pauta assumida pela Globo, Estadão e FSP e que tinha como candidato o governador de SP que não decolou – mais uma vez!
É a pauta onipresente que atua nos bastidores dos governos.
(De muitas matizes partidárias)

Veja também:  Dono da Havan: "Se Flávio Bolsonaro cometeu algum caso, que pague por ele. Agora, não junte filho com pai"

A segunda: a pauta de COSTUMES
Que foi iniciada pelas Igrejas Pentecostais e Católica, em suas vertentes conservadoras, e atuou fortemente no Plano Nacional de Educação, com o combate à suposta “ideologia de gênero”, expressão inventada pelo Vaticano – que é acolhida, inclusive, pelo “querido” Papa Francisco.
A expressão material midiática das tvs e rádios religiosas, liberadas pelos governos de plantão, contribuíram para a disseminação da pauta do “medo”.
(Medo do direito das mulheres, medo que meu filho vire gay, medo da drogadição, medo de não entender que mundo é este).
Sim, porque sabemos que a maioria das seitas se mantem coesas pela lógica do medo, da proteção ao inimigo – real ou imaginário.

Costurando as duas vertentes, o combate à CORRUPÇÃO é pinçado como elemento tático – de uso utilitário – para projetar um governo com menos Estado (fonte de todos os males, segundo os apologistas liberais) e o JUSTIÇAMENTO, como seu corolário, atua como a instrumentação do desejo de banir o “Mal”.

Veja também:  Investigado no laranjal do PSL, ministro do Turismo recebe primeiros estadunidenses que chegaram sem visto

Não podemos compreender um sem o outro, nem mesmo escolher um combate ou outro, pois, hoje, viraram irmãos siameses, cuja separação só pode ser feita por via cirúrgica.

Ou seja, pode acontecer em contextos específicos e cataclísmicos.

Há uma conurbação do discurso do medo, do combate à escolha, à autonomia, ao prazer – fecundado pelos grupos religiosos – e a pauta econômica castradora de direitos sociais.

Só sujeitos que renunciam ao prazer, à alegria de viver, à autodeterminação podem aceitar, passivamente, perder o direito à segurança no trabalho e na velhice, o direito ao descanso e à remuneração justa.

É preciso, portanto, muita doutrinação em favor do estoicismo, do sofrimento religioso para acomodar resistências.

É preciso acreditar que se sofrermos agora teremos uma recompensa futura.

E assim, o discurso liberal que começou com o combate á Idade das Trevas a ele recorre como sobrevida para seu tempo de crise.

O ultraliberalismo reencontra seu fantasma e antagonista do passado: a religião e o medo.