#FÓRUMCAST
12 de julho de 2018, 07h13

PM que beijou amigo no metrô diz ser vítima de ameaças de morte orquestradas por colegas de farda

“Estou lutando pelo direito de permanecer vivo na Polícia Militar”

Ameaças de morte enviadas para ele e a família. Viaturas com o giroflex ligado rondando a casa dos pais e do companheiro. O soldado da Polícia Militar de São Paulo Leandro Prior esteve na última terça-feira (10) na Ouvidoria da PM para levar adiante a investigação do vazamento do vídeo em que aparece fardado beijando um amigo dentro do metrô paulista na volta para casa.

Prior buscou proteção policial desde que a gravação virou motivo de intimidações disparadas por colegas de farda preconceituosos, contrariados com a presença de um homossexual na corporação militar. O policial, que já estava afastado das ruas há 11 dias, conseguiu autorização para prorrogar por mais um mês a licença médica.

Em um dos casos, a PM investiga a conduta do sargento da Rota, Fernando Nobile. Uma publicação incitava o ódio contra o soldado Prior na página do sargento no Facebook. “Aqui não aceitamos policial fardado em pleno metrô de São Paulo beijando um homem na boca. Desgraçado. Desonra para a minha corporação. Esse tinha que morrer na pedrada! Canalha safado! Se alguém não gostar do comentário. Foda-se também”. O sargento foi afastado das ruas. Ele alega que teve o perfil hackeado e que não é preconceituoso: “tenho até parente homossexual”. “Essa não é a primeira vez que invadem meu perfil. Estou indignado”, disse Nobile.

Antes de ir à Ouvidoria, o soldado Leandro Prior havia comparecido ao Decradi ( Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância), onde o caso foi registrado. Apesar de tudo, a Polícia Militar decidiu abrir investigação contra ele ao analisar o vídeo. O coldre, suporte para a arma carregada por um policial, foi motivo de abertura de processo administrativo. A PM notou que o equipamento estava aberto, o que contraria as normas de conduta. Para a corporação, a postura foi “incompatível com os procedimentos de segurança que se espera de um policial fardado e armado, que exigem que esteja em alerta”.

Entrevista / Soldado Leandro Prior

Fórum – A Polícia Militar, ao abrir processo administrativo, alegou que você usava o equipamento de segurança de forma inadequada. Em sua visão, o coldre aberto coloca em risco a população?

Soldado Leandro Prior – Se você for perguntar para a grande maioria da tropa ou observar os policiais nas ruas, vai ver que todos usam o coldre sem a abotoadura. Se nós formos levar em conta a questão da segurança, as falhas do armamento são muito mais perigosas para os policiais e a população. Armas que disparam sozinhas. É uma questão de hipocrisia cobrar o uso correto do coldre, se ninguém usa dessa forma. É legal (a cobrança da PM), mas não é legítimo.

Fórum – Muitos policiais homossexuais são empurrados para o armário com medo de retaliações, medo de um ambiente visto de fora como machista e homofóbico. Ao demonstrar afeto em público, você não temeu em nenhum momento as consequências que o ato poderia provocar se visto por colegas de farda?

Eu sou uma pessoa bem resolvida. Eles vão me mandar embora porque eu dei um selinho em um amigo? Quantos policiais fardados chegam aos batalhões para o trabalho de mãos dadas com suas esposas e se despedem com um beijo. É um ato de ternura. Um ato de carinho não pode ser desonroso para uma instituição. Um ato de ameaça é desonroso.

Fórum – Qual foi sua primeira reação ao perceber que o vídeo havia viralizado nas redes sociais?

Num primeiro momento eu tentei entender o que havia levado essa pessoa a fazer isso. Não tive dúvidas que foi por ódio, preconceito. O momento que eu entrei em pânico foi quando meu celular foi tomado por mensagens de ameaças.

Fórum – Você disse que sempre foi bem resolvido. Teus colegas no batalhão já sabiam de sua orientação sexual antes do episódio do vídeo? Como era o convívio?

Todo mundo sabia. Com os amigos eu conversava abertamente, mas é impossível você morar num batalhão, conviver 24 horas e não saber o mínimo da vida da pessoa. Eu ouvia piadas, que prefiro não repetir. As pessoas que conhecem o Leandro me respeitam, mas tem sempre uma minoria que tenta humilhar. Mas em um ambiente coletivo, como de uma empresa, você tem que levar na esportiva, senão você fica marcado.

Fórum – Você acredita que estes ataques que sofreu são orquestrados?

Assim como o amor une, o ódio também. O desejo pela minha expulsão, por eu ser homossexual, uniu certos policiais militares que não compreenderam o juramento solene que prestaram, de modo que eles, de forma orquestrada, vêm disseminando, estimulando mais ódio nos grupos contra mim. E isso gera uma tortura psicológica muito grande, um desgaste emocional não só meu como da minha família. Levantaram meu endereço, da minha família e do local onde meu companheiro trabalha. Ficaram com uma viatura parada de frente para o trabalho dele com o farol ligado olhando para o interior do estabelecimento. Rondam a casa da minha família. Eu estou desarmado, meu namorado não usa arma, minha mãe não usa arma e nós estamos vítimas de ameaças de pessoas armadas. Mas eu não vou pedir exoneração. Eu não estou apenas lutando pelo direito de permanecer na Polícia Militar. Eu estou lutando pelo direito de permanecer vivo na Polícia Militar. Meu problema hoje não é administrativo, é criminal. É ódio. É homofobia.

Fórum – Ao decidir pela carreira na Polícia Militar em algum momento você temeu sofrer represálias por ser homossexual?

Nunca existiu qualquer receio. Durante o processo, fui perguntado em alguma entrevista se tenho problemas com a homossexualidade. Eu respondi: não tenho, tanto que sou. O psicólogo me elogiou e eu fui aprovado para engrossar as fileiras da Polícia Militar.

Fórum – A repercussão do seu caso e do PM capixaba Wallace Ferreira, também vítima de homofobia nas redes sociais, trouxe alguns comentários inusitados de pessoas surpresas com a existência de PMs homosseuxais na corporação…

O que mais tem é PM gay. Na Polícia Militar, no Exército, na Marinha, na Aeronáutica, nos Bombeiros. Em todo lugar existem homossexuais. A corporação não pode barrar a presença de homossexuais, isso seria discriminação, preconceito. O problema é que algumas pessoas mal resolvidas são o perigo da instituição. Preconceituosos que detêm o poder de prejudicar militares homossexuais usam de sua força para forçar que os gays peçam baixa. São folgas que não são concedidas. Medalhas que não são recebidas. Trocas de horário que não são permitidas. Cursos de aperfeiçoamento que são restringidos. Mudanças de horário arbitrárias que são repetidas com frequência. Uma verdadeira perseguição contra policiais militares.