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01 de fevereiro de 2019, 19h10

Pobre tem que se f*: como os ricos financiam a violência

Raphael Silva Fagundes: “A cultura do medo forjada pela mídia tem a intenção clara de nos alienar perante as contradições de classe”

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

“Ao todo, 38,4 mil pessoas foram demitidas nos últimos 12 meses encerrados em junho”, diz um noticiário em 2017. “No primeiro semestre de 2017, o saldo de vagas no município (abertura menos fechamento) foi de uma perda de 42.343 postos, cerca de um emprego a menos a cada 6 minutos”. “Em 2017, o Estado do Rio registrou 230.450 roubos, média de um caso a cada dois minutos”.

A conexão entre as notícias é clara, embora a imprensa, de um modo geral, não a faça. Prefere espalhar o pânico, o que muito contribuiu para que o Rio elegesse candidatos com o discurso de extermínio de bandidos, ligados a milicianos e poucos com o discurso sobre geração de empregos.

De modo geral, a mídia prefere relatar sobre crimes, e não as causas sociais que levam ao aumento da criminalidade. Isso porque para falar das demissões seria preciso construir uma imagem negativa dos donos de empresa, dos patrões que adotam tal medida para se tornarem mais competitivos e salvar suas fortunas.

Soma-se a isso, o fato de a isenção de impostos desperdiçar as chances de arrecadar mais dinheiro que poderia ser investido em programas sociais de combate à violência e geração de empregos. Com a crise, os setores ligados ao petróleo geraram uma gama de desempregados, e o que o sistema fez? Criou a MP do Trilhão, concedendo uma isenção fiscal de R$ 1 trilhão nos próximos 25 anos para as petrolíferas estrangeiras.

O jornalismo aponta fatos para influenciar na disseminação do pânico porque tem dificuldades de abordar os assuntos diretamente. São comprados pelas mesmas corporações que demitem em massa, além de defenderem a política fiscal neoliberal, causas diretas da violência que assola o país.

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Como mostrou o sociólogo José Cláudio Souza Alves, grupos de extermínio e traficantes fazem parte de uma mesma lógica de violência que sustentam o poder, “fornecem mão de obra barata e abundante à perpetuação de projetos políticos e econômicos formulados, a partir de interesses muito mais poderosos e inatingíveis” (1). O destaque para esses grupos, como explicação para a sedução dos jovens pelo o mundo do crime, nos impede de ter acesso à causa de tudo, àqueles que financiam a violência contra o pobre trabalhador e ainda o torna (covardemente!) o principal apoiador dessa lógica.

Existem pessoas que são demitidas, mas não entram no mundo do crime, mas isso não impede de que outras pessoas entrem. É uma questão lógica, nos países onde o desemprego é baixo a taxa de criminalidade tende a ser menor.

A questão racial

A mídia, na maioria dos casos, faz parecer que todos estão expostos à violência, alvos em potencial. Mas não é assim que funciona. 74,5% das vítimas são negras (2). Ou seja, um branco tem, relativamente, poucas chances de ser assassinado no Brasil.

Essa estatística revela que somos mais vítimas do racismo que da violência em si, pois se a população negra (com exceção de uma pequena elite) tivesse o mesmo acesso à riqueza social que os brancos, certamente os números de homicídios seriam bem menores.

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A população negra está exposta a perigos muito maiores que os brancos. Até a qualidade de empregos que ocupam são de maior risco, tendo mais dificuldades de entrar no mercado de trabalho que exige ensino superior. Além disso, 67% dos ambulantes são negros e 64% dos desempregados também, de acordo com o IBGE.

Não há relação direta entre trabalho e violência? Os grandes causadores da violência são os patrões. Contratar mais policiais, modernizar a polícia com drones, espalhar atiradores de elite pela cidade, facilitar o porte de armas, nada disso mudará as condições precárias da segurança no país. São soluções apresentadas pelos que são bancados pelos grandes vilões. Os que causam crises para mudar projetos políticos e econômicos, os grandes financistas e capitalistas.

É lógico que se houver emprego para todo mundo, o racismo não acabará, pois os setores que empregam mais a população negra, são aqueles em que se está mais exposto à humilhação. Contudo, a redução da criminalidade seria um fato, e talvez a própria humilhação diminuiria, já que se o trabalhador negro se sentisse humilhado poderia procurar um lugar melhor. Ou seja, a maior oferta de emprego ajudaria no combate ao racismo, embora ainda seria necessária muita luta por maior dignidade.

As vítimas de estupro, violência doméstica, feminicídio etc.., encontram-se em sua maioria nas classes pobres e, entre estes, os negros são os principais alvos.

Uma questão de classe

A porcentagem que a criminalidade atinge a elite branca (e a 27% negra) é irrisória em relação à que assombra o proletariado. Este é ainda mais violentado (pela polícia e pelo empregador principalmente) quando existe o fator cor.  Talvez por isso o problema da criminalidade não será resolvido, servindo apenas de plataforma eleitoral para elegermos o próximo hipócrita.

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É preciso destacar que existem privilégios, pessoas que estão mais expostas, que esse problema é muito mais um problema de classe que um problema geral. O cidadão da Baixada do Rio de Janeiro e da Zona Oeste está muito mais vulnerável, ele é o alvo, e não a burguesia de Copacabana que quando é atingida por uma fagulha do fogo que lambe a periferia, logo é noticiado nos jornais. Tudo para parecer que todos sofrem.

As pessoas (principalmente as privilegiadas) acreditam que se vive em um país violento, muito mais pelo noticiário que pela própria experiência (3). Assistem de camarim o filme dramático da vida real, das verdadeiras vítimas. A cultura do medo forjada pela mídia tem a intenção clara de nos alienar perante as contradições de classe.

(1) ALVES, José. Dos barões ao extermínio. Duque de Caxias: APPH, Clio, 2003. P. 168.

(2) https://temas.folha.uol.com.br/e-agora-brasil-seguranca-publica/criminalidade/homens-negros-e-jovens-sao-os-que-mais-morrem-e-os-que-mais-matam.shtml

(3) Constatação também válida para a realidade estadunidense de acordo com GLASSNER, B. Cultura do medo. São Paulo: Francis, 2003.

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