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19 de junho de 2012, 11h29

Polêmica da privacidade agrava tensões na internet

Ex-editor do The New York Times diz que “quando Murdoch invade a nossa privacidade, é um crime. Quando Mark Zuckerberg, dono do Facebook faz o mesmo, é o futuro”. Comparação provocou furor entre os defensores e críticos das novas tecnologias de comunicação e informação

Ex-editor do The New York Times diz que “quando Murdoch invade a nossa privacidade, é um crime. Quando Mark Zuckerberg, dono do Facebook faz o mesmo,  é o futuro”.  Comparação provocou furor  entre os defensores e críticos das novas tecnologias de comunicação e informação Por Carlos Castilho [19.06.2012 11h29] Publicado por Observatório da Imprensa. O debate público sobre a internet está alcançando um novo patamar por conta da polêmica em torno do site Facebook, considerado a maior rede social virtual do planeta, com cerca de 900 milhões de usuários. Saiu do terreno da tecnologia e está entrando na seara dos valores culturais, comportamentos e ética. Enquanto...

Ex-editor do The New York Times diz que “quando Murdoch invade a nossa privacidade, é um crime. Quando Mark Zuckerberg, dono do Facebook faz o mesmo,  é o futuro”.  Comparação provocou furor  entre os defensores e críticos das novas tecnologias de comunicação e informação

Por Carlos Castilho [19.06.2012 11h29]

Publicado por Observatório da Imprensa.

O debate público sobre a internet está alcançando um novo patamar por conta da polêmica em torno do site Facebook, considerado a maior rede social virtual do planeta, com cerca de 900 milhões de usuários. Saiu do terreno da tecnologia e está entrando na seara dos valores culturais, comportamentos e ética.

Enquanto a discussão era entre os nerds da tecnologia, ela era apaixonada apenas quando os egos saiam fora dos trilhos. Agora, a tendência é que a polêmica comece a mexer com aquilo que as pessoas consideram mais valioso: os seus valores. Os valores estão associados à segurança e à estabilidade — e, por isso, quando são questionados, o tom do debate sobe.

Foi o que aconteceu há dias com o debate em torno de um artigo publicado pelo ex-editor chefe do The New York Times Bill Keller, no qual ele compara a invasão da privacidade alheia promovida pelos editores do jornal News of the World, do bilionário Rupert Murdoch, e a coleta de dados de seus usuários feita pelo Facebook.

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Keller foi irônico ao afirmar que “quando Murdoch invade a nossa privacidade, é um crime. Quando Mark Zuckerberg, dono do Facebook faz o mesmo,  é o futuro”.  A comparação provocou furor  entre os defensores e críticos das novas tecnologias de comunicação e informação (TICs).  Jeff Jarvis, do blog Buzzmachine,  pulou nas tamancas ao protestar que a diferença básica entre Murdoch e Zuckerberg é que o primeiro capturou ilegalmente informações alheias enquanto o segundo as recebe de forma consensual e gratuita.

A polêmica desatada pelo artigo de Bill Keller é apenas uma das inúmeras que povoam não só a internet como toda a imprensa e até mesmo aqui, o Observatório.  Muitos dos argumentos levantados hoje sobre a privacidade na internet são quase iguais aos que marcaram a chegada do telégrafo, há quase dois séculos, como mostra o jornalista inglês Tom Stange no livro The Victorian Internet (A internet vitoriana).

O pesquisador e escritor Nicholas Christakis, reproduz em seu livro Connected citações de autores do início do século 20  que lamentam a perda da privacidade provocada pelo fato de que as operadoras de mesas telefônicas podiam ouvir conversas de usuários da linha. Christakis cita trechos do livro America Calling: A Social History of theTelephone to 1940, onde é mencionado o fato de que muitas pessoa “temiam o telefone porque ele impedia pensar antes de responder uma pergunta, como era feito nas cartas”.

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No mesmo livro [pág. 267] são feitas referências ao fato de que o uso do telefone permitia que as pessoas ligassem para amigos sem aviso prévio, ato considerado uma invasão da privacidade alheia. Outros ainda se queixavam de que o “telefone permite diálogos sexuais inapropriados e mudanças imprevisíveis nos rituais de namoro”.

A resistência à mudança é um fenômeno tão velho quanto a humanidade. O fato novo provocado pelo debate num ambiente virtual é a sua dimensão. Nunca tantas pessoas tiveram a oportunidade de dar o seu palpite sobre uma mudança tecnologia que está afetando a vida de todos nós, até mesmo daqueles que a  ignoram.  Não é uma mudança qualquer. Ela já considerada pelos estudiosos como a mais importante desde a descoberta da imprensa, há quase 500 anos.

Com tanta coisa em jogo, não é de estranhar que a polêmica ainda vá esquentar bem mais.  Estamos apenas no começo. Estamos na fase da discussão das implicações individuais sobre a disseminação de TICs como o Facebook, Twitter, Google e outras.  Não vai tardar muito e entraremos na fase aguda das implicações coletivas — e aí a coisa vai pegar fogo porque envolverá nações, empresas, civilizações, culturas e interesses incalculáveis.  De alguma forma já entramos na etapa coletiva, como fica evidente na reação do europeu comum às consequências da crise bancária na zona do euro.

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Bill Keller deve ter escrito seu texto movido pela preocupação com a quebra de tabus e mudança de valores na área que ele mais conhece, a da informação publica.  Seu texto vale como um desabafo porque não tem base material e nem histórica. Como desabafo é tão válido quanto as milhares de opiniões que circulam diariamente na Web e que formam parte deste imenso manancial de percepções .  É complicado, complexo e perturbador, mas é inevitável e de alguma forma alentador porque pela primeira vez na história do homem estamos começando a substituir a força física pela força do conhecimento  na hora de discutir mudanças de valores, comportamentos e rotinas.

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