12 de março de 2018, 22h19

Politicamente correto X politicamente incorreto: duas ideologias pueris

Hoje o vilão não é o mesmo de ontem. Cada vez mais trogloditas populistas que defendem propostas violentas ganham espaço. O oprimido é visto como vitimista, e o que era visto como “certo” torna-se ultrapassado

Qualquer um que já teve contato com a vasta obra de Anthony Giddens sabe que para o sociólogo inglês, os sistemas peritos são uma das bases da sociedade moderna. São sistemas de excelência técnicas ou competência profissional que fazem com que confiemos em uma pessoa que nunca tivemos contato, promovendo um desencaixe do indivíduo no tempo e no espaço.1 Permite que eu viva para além do meu vínculo familiar ou da minha vizinhança. Faz-me procurar em lugares distantes experts, doutores, médicos, advogados etc.

O autor inglês não considera a pós-modernidade, aliando-se aos estudos de Ulrich Beck sobre a sociedade de risco que, por sua vez, irão desencadear na ideia da Terceira Via. No entanto, existe um grupo de intelectuais que consideram a pós-modernidade. Um deles, talvez o primeiro dos mais influentes, é o filósofo francês Jean-François Lyotard. Para este, a forma de saber inaugurada pela pós-modernidade quer desfazer o sistema perito. Têm como referência muito mais o inventor que o expert. E se alimenta da incredulidade do metafísico porque o desenvolvimento da ciência levou as pessoas a valorizarem apenas a prática.

Assim, a ciência perde o que a legitimava: seu discurso filosófico, principalmente o desenvolvido pelos filósofos iluministas. Ser pós-moderno é viver sem crer no discurso filosófico que fundamenta nossa prática. A perícia ficou para o que é eficaz. Por isso a crise das universidades, lugar de onde emana o discurso metafísico, a teoria. Os especialistas passam a ser contestados. A narrativa sobre tudo se espalha, e cada um narra o que vê de acordo com sua validade pragmática.2 O que, na verdade, é parte de um discurso que visa menosprezar o conhecimento metafísico, de modo a parecer que tudo é intransponível, natural e lógico. No entanto, essa ausência de um discurso filosófico legitimador nos transformou em baratas kafkianas, trafegando em desespero em busca de um objetivo qualquer.

Essa crise gerou o mal-estar da pós-modernidade de que trata Zygmunt Bauman. Tudo pode ser feito, mas não de uma vez por todas. Preferimos o maleável, ao definitivo. Esquecer a memorizar. Tudo chega sem se anunciar e vai embora sem aviso. Há um desejo por diversidade, essa é a principal pauta, mas a diferença não combina com a igualdade. Por isso que, para Bauman, liberdade é uma questão de poder porque para alcançar o que eu desejo é preciso que eu atrapalhe os que impedem que o meu desejo se realize.3 Passou a ser cada um por si. E, infelizmente, as ideologias que pensavam na igualdade, estão, cada vez mais, sendo aniquiladas pelo desejo individual de ser livre acima de tudo.

A falta de uma filosofia metafísica, utópica, de uma antropologia newtoniana (como o estruturalismo ou a teoria dos sistemas) que impulsionava a modernidade, no primeiro momento, gerou uma diversidade de pensamento. Uma sensação maior de liberdade reflexiva. A perspectiva pós-moderna possibilitou múltiplas interpretações e, segundo o historiador Ciro Flamarion, “inexistem formas aceitáveis de escolher entre elas. São todas válidas se satisfizerem aos critérios do autor e daqueles que com ele concordarem”.4Isso acabou por criar uma série de visões pueris sobre o mundo social.

O declínio da multiculturalidade e o auge de uma bipolaridade viciada

O múltiplo era relativamente interessante, mas por ser constituído sobre alicerces frágeis, de vigas bambas, que sustentavam um edifício flácido, estava condenado ao desmoronamento. Nos últimos anos podemos observar a crise do múltiplo dividindo a sociedade ocidental em dois grandes blocos moralizantes: o politicamente correto e o politicamente incorreto. Uma forma conveniente e curiosa de deslegitimar as lutas de classe.

A ideia da diversidade (defendida pelo politicamente correto) é empolgante, mas ninguém levou em consideração a tradição do pensamento indo-europeu que compreende tudo de forma maniqueísta. Nietzsche tentou nos livrar desse modusoperanti, foi uma boa tentativa, mas não deu certo. Parece que existe uma pulsão que nos obriga a pensar no conflito entre o bem e o mal. A comparação, desde a mais remota das epitèmês, é essencial para dar sentido as coisas.

Mas o grande problema que irrompe dessa parva dualidade é quando o que era visto como “bem” se esgota, quando esse suposto “bem” não resolve mais os problemas práticos da vida das pessoas, forçando-as a optarem pela única opção que resta: o “mal”. E a falta de uma filosofia instrutiva, pode acarretar em consequências seríssimas.

Hoje o vilão não é o mesmo de ontem. Cada vez mais trogloditas populistas que defendem propostas violentas ganham espaço. O oprimido é visto como vitimista, e o que era visto como “certo” torna-se ultrapassado. Tudo isso é alimentado por um desejo vazio de mudança, isto é, por uma indignação manipulada.5 O politicamente correto passa a ser questionado pelo politicamente incorreto, porque o cultivo de uma ideia serviu apenas para alimentar a guerra contra a outra e, no fim, a pós-modernidade não criou nada para além dessa bipolaridade.

O gay volta a ser condenado; a democracia desacreditada; a religião, criticada pela filosofia iluminista como a grande vilã, volta (com uma nova roupagem) a ser uma referência; a liberdade de pensamento, fundamental para Voltaire ou qualquer um filósofo moderno, torna-se alvo de projetos conservadores como o “escola sem partido”; a convivência com o estrangeiro, uma bandeira pós-moderna, é substituída pelo seu oposto, o conhecido ódio.

Mas será que, talvez, nada disso tenha realmente acontecido, que esse multiculturalismo seja uma mera ilusão e que jamais tenhamos sido nem mesmo modernos, como defende o antropólogo Bruno Latour? Será que tudo não passou de um sonho do qual estamos acordando?

Não sei dizer, mas o fato é que houve um grande investimento da indústria cultural como, por exemplo, nos filmes de heróis dos estúdios de Hollywood, onde se desenha vilões com características hobbesianas. São sempre autoritários que ameaçam a liberdade norte-americana, isto é, o estilo de vida pós-moderno. Um eterno conflito entre opostos que estipula um parâmetro: ou se é como os norte-americanos; ou se idolatra um Leviatã. Esse discurso está para além da ficção, pois fornece, também, munição à retórica construída sobre os governos contrários ao dos yankes, como a Venezuela, a Coreia do Norte, Cuba, Irã etc., todos são tiranos.

Mas o modelo americano está em crise, inclusive, em sua própria terra. A liberdade que prometeu, não resolveu muito a vida das pessoas. Estas sem opção para lutar contra aquilo que passaram a odiar (o suposto excesso de liberdade), sem uma ideologia concisa, aliam-se àquilo que sempre odiaram (o autoritarismo), porque não foram apresentadas a nenhuma filosofia metafísica já que todas foram descartadas pela alienação da vida prática, a única reconhecida como legítima.E assim, o Leviatã volta a ser um monstro cultuado.

Enfim, a crise ideológica que vivemos hoje está relacionada aos dois sistemas de pensamento que a pós-modernidade pariu. Tanto o politicamente incorreto quanto o politicamente correto produziram verborragias, palavras da moda, moralistas e moralizantes, incapazes de desenvolver um discurso sólido. Tudo é pueril, nada mais tem força para explicar a realidade prática. O fascínio constante pelo novo é uma prova do que estou dizendo. E agora os velhos valores se apresentam como um porto seguro, vendendo a ilusão de que no passado tudo era melhor e, como não chegamos até aqui por meio de uma revolução, nada mudou de verdade, fazendo com que nos deparemos com a farsa da repetição histórica.

O problema disso tudo é a capacidade de resgatar os antigos sistemas de pensamento. Em um mundo onde a informação é cada vez mais acessível para aqueles que dispõem de poucos recursos interpretativos, o discurso mais simples e palatável tem a maior aptidão de se propagar. Os que controlam os meios manipulam a mensagem. Sendo assim, o retrocesso a uma ideologia conservadora, isto é, a que mantém as relações tradicionais de poder, está cada vez mais presente, servindo de mediação entre as palavras e as coisas.

As esquerdas precisam resgatar – a seu modo – o paradigma. Isso não é ausência de liberdade, pelo contrário. Um sistema e uma ideia autêntica que possa diferenciá-las de uma direita progressista ou conservadora é fundamental para libertá-las dessa bipolaridade esdrúxula.

A luta de classes ainda é um fenômeno real, assim como o discurso retrógrado que está contagiando as classes trabalhadoras. O proletariado precisa ir para a luta por meio de uma ideologia própria, autêntica e estruturada. Uma ideologia orgânica. E a teoria marxista ainda é a única que compreende as contradições sociais a partir do ponto de vista do trabalhador. Um recurso interpretativo ou uma chave de leitura que propõe a superação do conflito chave que move a sociedade, isto é, entre os que possuem e os que se vendem para possuir. Por pensarmos fora desse conflito que estamos nos afastando da mudança.

1GIDDENS, Anthony. As conseqüências da modernidade. Trad: Raul Fuker. São Paulo: EdUnesp, 1991. p. 30.

2LYOTARD, Jean-François. A condição pós-moderna. Rio de Janeiro: José Olympio, 2009. p. XV.

3 BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1998. p. 39

4 CARDOSO, Ciro Flamarion. História e paradigmas rivais. CARDOSO, Ciro Flamarion. e VAINFAS, Ronaldo. Domínios da História. Rio de Janeiro: CAMPUS, 1997.

5 Trabalhei essa questão neste artigo: https://www.revistaforum.com.br/midia-e-indignacao-manipulada/