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01 de maio de 2019, 07h53

Por que a diversidade incomoda aos conservadores?, por Rafael Azzi

"Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, o bordão da campanha de Bolsonaro, já denunciava a perspectiva do poder vertical. Entre Brasil e Deus provavelmente se situam os EUA e outros países que sejam considerados como mais poderosos do que o Brasil

Reprodução
Por Rafael Azzi* Foi retirado do ar recentemente, a pedido do presidente Bolsonaro, um inocente vídeo publicitário de 30 segundos do Banco do Brasil. Direcionado ao público jovem, a propaganda mostrava pessoas com estilos diferentes tirando selfies, de maneira descontraída. Rubem Novaes, o presidente do Banco do Brasil indicado por Bolsonaro, deu suporte ao pedido. E, por extensão, Delano Valentim, funcionário de carreira responsável pelo marketing da empresa, foi destituído do cargo. A justificativa dada pelo presidente da República para a retirada da peça publicitária foi a seguinte: “a linha (do governo) mudou, a massa quer respeito à família”. Aparentemente,...

Por Rafael Azzi*

Foi retirado do ar recentemente, a pedido do presidente Bolsonaro, um inocente vídeo publicitário de 30 segundos do Banco do Brasil. Direcionado ao público jovem, a propaganda mostrava pessoas com estilos diferentes tirando selfies, de maneira descontraída. Rubem Novaes, o presidente do Banco do Brasil indicado por Bolsonaro, deu suporte ao pedido. E, por extensão, Delano Valentim, funcionário de carreira responsável pelo marketing da empresa, foi destituído do cargo.

A justificativa dada pelo presidente da República para a retirada da peça publicitária foi a seguinte: “a linha (do governo) mudou, a massa quer respeito à família”. Aparentemente, não havia nada na propaganda que pudesse soar como um ataque à família; mas tão somente algumas imagens descontraídas de jovens representando diversos segmentos sociais. Os atores do vídeo parecem estar distribuídos em proporções equivalentes entre homens brancos, mulheres brancas, homens negros e mulheres negras. Tal fato faz sentido na medida em que cerca de metade da população brasileira é negra e metade é mulher.

Então, o que incomodou tanto ao presidente a ponto de mandar retirar o vídeo do ar? E por que a diversidade incomoda aos conservadores? O argumento presidencial é bastante vago; mas a resposta enviada à BBC News Brasil pelo presidente do Banco do Brasil, Rubem Novaes, é mais extensa e bastante exemplar de como funciona o pensamento conservador. Segue na íntegra:

“O episódio da retirada do filme produzido para a propaganda do BB para a abertura de contas digitais pelo público jovem tem que ser visto em um contexto mais amplo em que se discute a questão da diversidade no país.

Durante décadas, a esquerda brasileira deflagrou uma guerra cultural tentando confrontar pobres e ricos, negros e brancos, mulheres e homens, homo e heterossexuais etc, etc. O “empoderamento” de minorias era o instrumento acionado em diversas manifestações culturais: novelas, filmes, exposições de arte etc., onde se procurava caracterizar o cidadão “normal” como a exceção e a exceção como regra.

Nas últimas eleições, diferentes visões do mundo se confrontaram e um povo majoritariamente conservador fez uma clara opção no sentido de rejeitar a sociedade alternativa que os meios de comunicação procuravam nos impor.

É este o pano de fundo para nossos debates atuais.”

O ponto principal da nota é a ideia de que existe uma suposta guerra cultural deflagrada pela esquerda visando “confrontar pobres e ricos, negros e brancos, mulheres e homens, homo e heterossexuais”. Segundo a nota de Rubem Novaes, a esquerda age assim ao empoderar as minorias. Quais exatamente seriam essas minorias? Pobres, negros, mulheres e homossexuais? Uma minoria deve, por conceito, ser numericamente inferior a outro grupo. Nos casos descritos, apenas os últimos, os homossexuais, são uma minoria numérica na sociedade em relação aos héteros.

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Cabe também comentário o fato de Novaes acreditar que, ao empoderar as ditas minorias, a esquerda estaria tratando “o cidadão “normal” como a exceção e a exceção como regra”. Subentende-se do texto que o cidadão “normal”, que deveria ser a regra da sociedade, é aquele que está do lado oposto das minorias colocadas, isto é: homens ricos, brancos e heterossexuais.

E qual seria exatamente o problema que haveria em empoderar um determinado grupo social? Principalmente um grupo que, mesmo não sendo numericamente inferior, se relaciona com o conceito de minoria pelo fato de não ser considerado como equivalente ao padrão social, como “normal”, conforme aponta Novaes. Para entender por que isso é um problema para alguns é preciso compreender como funciona o conceito de poder dentro da perspectiva conservadora.

Existem duas concepções básicas de poder que convivem nas sociedades atuais: uma horizontal e outra vertical.

A democracia requer um sistema de poder que se estenda de forma horizontal. Em princípio, todos os cidadãos devem compartilhar a mesma condição de poder; assim, cada pessoa, um voto. A primazia da igualdade política se configura um dos princípios básicos da democracia. Nesse sentido, os privilégios são considerados elementos inaceitáveis em que se pese a igualdade básica dos seres humanos. A democracia busca a relação simétrica e a igualdade de direitos entre indivíduos. Dessa forma, uma sociedade democrática deve sempre buscar ativamente as condições para que a igualdade de direitos se concretize e consolide.

Um sistema é considerado mais democrático na medida em que seu sistema de poder for mais compartilhado. Assim, uma sociedade justa democraticamente seria uma sociedade em que cada um recebe o que precisa para desenvolver socialmente suas capacidades.

Já o capitalismo possui outra dinâmica de pensar o poder. Cada indivíduo possui capacidades e condições diferentes de acúmulo de capital. Um dos princípios do capitalismo é a competição. Assim, a competição entre os indivíduos é o que move o progresso social: aqueles que são mais capazes se sobrepõem aos menos capazes e alcançam melhores posições de poder na sociedade. Para o capitalismo, a sociedade floresce quanto mais o poder for pra quem assim o conquistou.

Dessa forma, um sistema é mais capitalista quanto mais disputado for o poder. Nesse caso, a justiça aparece quando cada um recebe aquilo que conquistou a partir de suas capacidades. Nessa perspectiva, o capitalismo implica um sistema de poder vertical ou piramidal, no qual as posições de poder são disputadas.

Como são visões de mundo opostas, a tendência é que as pessoas acreditem mais em um modelo de pensamento ou no outro. Pessoas de esquerda ou progressistas tendem a levar mais em conta os valores democráticos. Indivíduos de direita ou conservadores se inclinam na defesa dos valores do capitalismo.

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Isso não significa que pessoas de esquerda sejam necessariamente anticapitalistas ou que indivíduos de direita sejam obrigatoriamente antidemocráticos. A maioria das sociedades hoje é tanto democrática quanto capitalista e não existem claras tendências a querer mudar essas realidades. Mas, como esses valores podem se confrontar, pessoas e partidos tenderão para que um ou outro conjunto de valores prevaleça quando em conflito numa questão política.

Trata-se de lugar comum dizer que a esquerda defende a igualdade, enquanto a direita coloca ênfase na defesa da liberdade. Na realidade, são concepções de poder e de justiça completamente diferentes. Em uma concepção, o poder é mais justo quando distribuído de forma horizontal. Na outra, o poder é vertical; sempre haverá vencedores e perdedores, dominados e dominadores, quem pode mandar e quem deve obedecer.

Essa última concepção enxerga as relações sociais como naturalmente hierárquicas. Nesse caso, uma sociedade apenas será justa quando as pessoas certas estiverem em cima; ou seja, as mais merecedoras. Às vezes, merecedoras são, simplesmente, aquelas consideradas “normais”, como se depreende a partir da leitura da nota de Novaes. O capitalismo mede o mérito das pessoas: se é rica, é porque trabalhou pra isso; ou seja, mereceu. De acordo com tal raciocínio, quanto menos interferência houver no sistema capitalista, mais mérito têm os indivíduos que conquistam poder; logo, mais justa a sociedade será.

Qualquer tentativa de mudança nessa estrutura é vista como uma interferência no estado natural das coisas e como uma injustiça. O conservador é aquele que acredita que o sistema social existente é justo. Se ricos possuem mais privilégios que pobres é porque merecem. Esse mesmo raciocínio se estende às relações de poder entre homens e mulheres, entre brancos e negros ou entre héteros e lgbts. A direita, voltada para o econômico, e o conservadorismo, com ênfase no comportamento, convergem ideologicamente porque a pirâmide social não é só de renda: ela tem gênero, cor e orientação sexual.

Tanto políticas de esquerda focadas na economia, quanto políticas progressistas focadas no comportamento que visam à redução das desigualdades e à inclusão social são consideradas pela direita e pelos conservadores como interferências injustas. Por exemplo: políticas de transferência de renda não são vistas como instrumentos de enfrentamento da pobreza; mas como dinheiro retirado de quem ganhou de forma justa (ricos), dado a quem não merece (pobres). De forma paralela, ações afirmativas não são entendidas como uma maneira de compensar perdas provocadas pela discriminação e marginalização acumuladas historicamente, mas de colocar as pessoas “erradas” em posições sociais que elas não merecem.

Todas essas políticas são vistas como tentativa de contrariar o que é “natural”, isto é, as hierarquias sociais estabelecidas. Por isso, são chamadas de ideológicas ou taxadas de comunistas. Tal formulação é incompreensível para alguém que se situe no lado esquerdo do espectro político, pois o comunismo ou o socialismo se referem também a propostas de socialização dos meios de produção, e não simplesmente ao desenvolvimento de um tipo de rede de bem estar ou de seguridade social. Mas, para quem acredita que a hierarquia social é justa, qualquer tentativa de combater a desigualdade ou de uma concepção mais horizontal no poder social é considerado como algo radical.

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Aplicado ao plano internacional, o pensamento hierárquico nos ajuda a compreender o porquê de uma retórica nacionalista não ser incompatível com uma relação de submissão aos interesses americanos. Os EUA são efetivamente mais poderosos do que o Brasil; logo, a subserviência é natural. Não natural e, portanto, ideológica seria nessa perspectiva uma política de autonomia que considerasse o Brasil como um país entre os outros, e não abaixo dos poderosos. “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, o bordão da campanha de Bolsonaro, já denunciava a perspectiva do poder vertical. Entre Brasil e Deus provavelmente se situam os EUA e outros países que sejam considerados como mais poderosos do que o Brasil.

A visão da sociedade como naturalmente hierárquica nos ajuda a entender como o pensamento conservador lida com as reivindicações de direitos dos grupos preteridos socialmente. Quando se fala de feminismo, há a concepção equivocada de que as mulheres estão contra os homens reivindicando uma supremacia feminina. De forma semelhante, quando se fala de direitos lgbt, acredita-se que os héteros possam ser oprimidos numa “ditadura gay”. A ideia por detrás desses pensamentos é que a igualdade social não só não é desejável, mas é antinatural. Assim, se um grupo conseguir poder ele necessariamente subirá na escala da hierarquia social e tomará o lugar de quem estava no andar de cima.

Nesse raciocínio, sempre existem opressores e oprimidos. Então o receio conservador é que se homens ricos, brancos e héteros não estiverem mais no patamar social superior, eles obrigatoriamente cairão para o papel de excluídos. Esta é uma conclusão lógica a partir de uma concepção de poder vertical: a ideia de que, se um grupo ganha, o outro grupo necessariamente perde, e que a partilha do bem estar social e econômico é impensável. Em última análise, os conservadores aceitam e defendem uma estrutura social estabelecida de forma hierárquica e consideram que empoderar as minorias é um problema simplesmente porque não conseguem conceber a possibilidade de uma sociedade democraticamente mais justa.

*Rafael Azzi é doutor em filosofia pela PUC-Rio

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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