#FÓRUMCAST
03 de Maio de 2018, 09h58

Por que algumas tragédias nos ofendem tanto?

O incêndio que gerou o desabamento é daqueles raros momentos em que as metáforas se encarnam, se tornam literais. A cidade está em ruínas, o país está desmoronando, os pobres estão sendo esmagados, o preço do aluguel é de matar. Na literalização da metáfora perdemos a capacidade de simbolizar, o acontecimento fica lá, maior do que nossa capacidade de dar significado a ele e as reações são as mais variadas

Fui dormir tarde, mas não estava conectado. Quando acordei, já perto das dez da manhã, abri o Whatsapp e recebi mensagens de familiares e amigos falando sobre o incêndio que gerou o desabamento de um prédio onde moravam 150 famílias. Tragédias assim são do tipo imediatas – tomam nossa imaginação, vivificam o horror de tal forma que o primeiro impulso, inconfessável, é se esforçar para ignorá-la na esperança de que ela não nos atinja em cheio.

Ainda acordando, abri o celular e pensei que, se no meu Facebook, cheio de amigos da esquerda universitária, já deveriam estar pululando as análises políticas e as instruções sobre como ajudar, achei que em um grande jornal, ou seja, em um jornal que tem recursos e um quadro de jornalistas grande o bastante para averiguar os fatos, eu conseguiria as primeiras informações do que aconteceu. Foi o erro recorrente de achar que se pode fugir da política, mesmo que por alguns momentos, em busca do dado objetivo.

O que eu encontrei no portal de um dos maiores jornais do país foi um panfleto de ódio que qualquer jornalista deveria ter vergonha de assinar. Onde eu esperava encontrar número de feridos e desaparecidos, informações públicas sobre como entrar em contato com autoridades na busca por familiares, possíveis causas do incêndio, estado dos prédios na vizinhança, números de telefone e endereços para doações, ou seja, onde eu esperava encontrar trabalho jornalístico factual, na esperança de que em tragédias deste tipo se pode colocar um pouco as inclinações políticas de lado em prol de uma solidariedade comum, por temporária que seja, encontrei o ódio e fui lembrado de que vivemos no terceiro mundo de vários pontos de vista: das condições de moradia da maior parte da população à cobertura midiática antipopular.

A reportagem, que destacava a hostilização de Temer em sua ida ao local do desabamento, tinha dezoito parágrafos: seis eram dedicados à chamada principal, seis dedicados à declarações do governador que chamou o acontecido de “tragédia anunciada” e criticou a atual legislação que proíbe a expulsão imediata de pessoas que ocupam prédios, quatro traziam declarações do prefeito que se esforçava para tirar qualquer responsabilidade pelo acontecido da prefeitura. Das vítimas e seus respectivos nomes, ocupações e histórias, nada. Foi o primeiro contato que tive com o que aconteceu, uma moldura gigantesca, grossa e tosca, e no meio, já difícil de enxergar, o fato em si. Quem tem acompanhado a cobertura midiática vê que a tendência é prosseguir na condução de uma leitura bastante específica – a que criminaliza indivíduos pobres e movimentos sociais. No mesmo jornal, um colunista publicou há pouco um texto, dos mais compartilhados pelos assinantes, comparando os movimentos de ocupação com as milícias do Rio de Janeiro. O procedimento é claro: transformar a vítima em algoz.

Em países de imprensa democrática, qualquer cobertura sensacionalista ou politizante de tragédias é imediatamente criticada, primeiro pelo público, depois pelas próprias associações de repórteres. No Brasil, em que algumas famílias tratam a informação da mesma maneira com que outras tratam o gado, não há tempo para o luto coletivo, apenas para a desfiguração do rosto dos adversários políticos e, como neste caso, daqueles que nos ofendem, que nos envergonham. Por mais que este outro tenha perdido tudo, tenha talvez perdido familiares, por mais que este outro esteja ainda soterrado.

O incêndio que gerou o desabamento é daqueles raros momentos em que as metáforas se encarnam, se tornam literais. A cidade está em ruínas, o país está desmoronando, os pobres estão sendo esmagados, o preço do aluguel é de matar. Na literalização da metáfora perdemos a capacidade de simbolizar, o acontecimento fica lá, maior do que nossa capacidade de dar significado a ele e as reações são as mais variadas. O silêncio respeitoso, algo cada vez mais raro na época das redes sociais, dá espaço à expressão tumultuosa de confusão, medo e negação. E, principalmente, de um estranho tipo de rancor de ter sido colocado nesta situação por um acontecimento que supostamente não nos envolve.

Eu me perguntei então por que os grupos mais abastados, embora não apenas eles, se sentem ofendidos com certas tragédias que acontecem com os pobres? Por que num país em que cenas desumanas são cotidianas, a etiqueta, que ainda preza pela expressão inútil de piedade, mesmo quando hipócrita, de aparências, em alguns casos específicos falha? Por que em alguns casos difíceis de esquecer, como a brutal expulsão das famílias do Pinheirinho, a piedade falsa se converte imediatamente em sentimento de ofensa, em vontade de punir? Como é possível que os miseráveis ofendam com sua miséria? As reações inacreditáveis, como a do ex-prefeito que, antes de o fogo ter se apagado, já chamava as vítimas de facção criminosa, vêm de um sentimento de culpa que, impossível de ignorar, produz ódio? De onde vem o esforço em tentar a todo custo deslegitimar não apenas o modo e o local de moradia, mas a própria vida das pessoas? Por que enquanto ainda se procuram sobreviventes soterrados, polícia e mídia, duas faces de uma mesma moeda, passam a lista de vivos e mortos pelo sistema de antecedentes criminais? Para ter o direito de não sentir responsabilidade pelas mortes?

Parece que sim. Porque, com que cara vamos nos apresentar aos nossos pares internacionais e dizer que nós, tão civilizados quanto eles, viemos de um país que tem produzido tragédias, catástrofes típicas de países em guerra ou em miséria extrema, cada vez mais como regra e não como exceção? (Já se passaram 50 dias desde o assassinato, tão brutal, tão recente de Marielle, sem que se saibam os mandantes!). Os ofendidos parecem dizer: “Malditos miseráveis que não sabem esconder bem sua miséria”! Como dizer o país de onde se vem nas viagens de férias a Miami ou Paris sem passar vergonha? Sabendo que os jornais do mundo sabem que este é o país em que as pessoas que lutam para não ter que pagar aluguel correm o risco de serem esmagadas por prédios estatais em pleno centro da maior metrópole da América do Sul? Como torcer, daqui a poucos meses, sorridente e confiante, desejando mostrar o melhor desse país na Copa do Mundo? Este lugar terrível em que a reação imediata da burguesia, da mídia e dos políticos depois de uma tragédia dessa escala é tentar desumanizar a vítima até o ponto de se desobrigar de se solidarizar com ela? Ser miserável por força do destino nacional, a estrutura social desenhada para concentrar renda e produzir miséria, em casos assim não basta. É preciso culpar o miserável para tentar, inutilmente, justificar o injustificável: que nós convivemos no mesmo bairro, na mesma cidade e no mesmo país que ele e que, como casos assim transparecem, quem não é vítima, não tem como não se sentir também como cúmplice. Isso é o que ofende e que é imperdoável. A revelação, por breve que seja, das contradições verdadeiras e cotidianas que estruturam o país. É isso que tentam esconder com tanta raiva e fúria.