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10 de agosto de 2018, 15h02

Por que o Nordeste é Lula

Nem os anos de desgaste de imagem encampados pela mídia tradicional, nem as denúncias e nem a prisão abalaram a imagem do ex-presidente Lula no Nordeste que, mesmo diante das condições mais adversas, é líder de intenções de voto e mantém uma alta taxa de popularidade na região. Entenda os motivos

Foto: Ricardo Stuckert
A menos de dois meses para o primeiro turno das eleições de 2018, mais de oito anos após deixar o poder, Lula segue sendo o maior fenômeno político do Brasil. Preso em Curitiba desde abril através de um processo controverso e criticado por juristas de todo o mundo, o presidente que deixou o Planalto com 87% de aprovação popular em 2010 é líder em todas as pesquisas de intenção de voto para o cargo mais alto do Executivo – em todos os cenários – mesmo impedido de participar de atos de pré-campanha, entrevistas ou debates. Boa parte da força eleitoral...

A menos de dois meses para o primeiro turno das eleições de 2018, mais de oito anos após deixar o poder, Lula segue sendo o maior fenômeno político do Brasil. Preso em Curitiba desde abril através de um processo controverso e criticado por juristas de todo o mundo, o presidente que deixou o Planalto com 87% de aprovação popular em 2010 é líder em todas as pesquisas de intenção de voto para o cargo mais alto do Executivo – em todos os cenários – mesmo impedido de participar de atos de pré-campanha, entrevistas ou debates.

Boa parte da força eleitoral de Lula, desde sempre, veio do Nordeste, considerada a região mais pobre do país. A imagem do retirante que veio para São Paulo ainda criança para fugir da fome do agreste pernambucano, onde nasceu, para se tornar líder sindical e o primeiro presidente da República sem diploma universitário, ainda representa muito política e simbolicamente para a população da região.

Nem os anos de desgaste de imagem encampados pela mídia tradicional, nem o ‘mensalão’ e o golpe de 2016 que atingiram em cheio seu partido, nem as denúncias e nem mesmo sua prisão foram capazes de abalar a imagem de Lula entre os nordestinos.

Lula em caravana pelo Nordeste (Foto: Ricardo Stuckert)

Alguns dados

Para se ter uma ideia, pesquisa recente de intenção de votos do DataPoder mostra que o petista lidera com folga as intenções de voto entre a população dos nove estados do Nordeste, com 56%. Outra pesquisa recente, da CUT/Vox Populi, caminha para o mesmo sentido e mostra Lula com 58% das intenções de voto entre os nordestinos. A nível de comparação, o segundo colocado neste último estudo é Ciro Gomes (PDT), que tem 8%.

O cenário é muito parecido com o da campanha de 2006 que reelegeu Lula à presidência para um mandato que resultou na maior aprovação que um presidente já teve na história do país. Por exemplo, em julho de 2006 uma pesquisa do Instituto Vox Populi apontava o petista com 66% das intenções de voto entre os eleitores de Pernambuco. Estudo do Instituto Datamétrica de junho deste ano, no mesmo estado, mostra Lula com 59% da preferência do eleitorado. Números muito próximos em pesquisas no mesmo estado com mais de 12 anos entre uma e outra. Ou seja, é como se Lula não tivesse sido preso e nem demonizado ao longo de todo esse período pela mídia. É como se nada tivesse acontecido para abalar a imagem do ex-presidente – ao menos no Nordeste.

E não é só nas intenções de voto que Lula segue inabalado entre a população nordestina. Sua popularidade, já confirmada nas pesquisas de intenção de voto, é reforçada nas pesquisas que medem a aprovação. Um estudo do Barômetro Político Estadão/Ipsos de julho do ano passado mostrava Lula com aprovação de 53% do eleitorado nordestino. Em dezembro, quando o petista já havia sido condenado em primeira instância, este número subiu para 73%. Popularidade parecida na região com a do ano em que deixou a presidência, em 2010, que era de 86%. Mais uma vez, parece que nada mudou.

Popularidade de Lula continua intacta no Nordeste. (Foto: Ricardo Stuckert)

“Nordeste está fechado com o PT”

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Em entrevista concedida a blogueiros na última terça-feira (7), Fernando Haddad, vice na chapa de Lula à presidência e virtual cabeça de chapa caso o ex-presidente seja impedido de concorrer, afirmou que “o Nordeste está fechado com o PT”. E ele não está errado.

Além da popularidade de Lula, as últimas pesquisas para governador mostram que os candidatos do PT ou de chapas apoiadas pelo partido do ex-presidente lideram em todos os nove estados nordestinos – muitos com chances de vitória no primeiro turno. Ou seja, Lula terá palanque com os líderes nas pesquisas de todos os estados da região.

Confira na lista abaixo

Alagoas

Pesquisa: Instituto Ibapre

Líder: Renan Filho (MDB), com 51%

Apoiado por Lula/PT

Bahia

Pesquisa: DataPoder

Líder: Rui Costa (PT), com 58%

Apoiado por Lula/PT

Ceará

Pesquisa: IFT

Líder: Camilo Santana (PT), com 71%

Apoiado por Lula/PT

Maranhão

Pesquisa: JP/Exata

Líder: Fávio Dino (PCdoB), com 60%

Apoiado por Lula/PT

Paraíba

Pesquisa: Record/Real Time Big Data

Líder: João Azevedo (PSB), com 24%

Apoiado por Lula/PT

Pernambuco

Pesquisa: Datamétrica

Líder: Paulo Câmara (PSB), com 12%

Apoiado por Lula/PT

Piauí

Pesquisa: Instituto Opinar

Líder: Wellington Dias (PT), com 50%

Apoiado por Lula/PT

Rio Grande no Norte

Pesquisa: Ibope/Tribuna do Norte

Líder: Fátima Bazerra (PT), com 31%

Apoiada por Lula/PT

Sergipe

Pesquisa: Dataform

Líderes: Valadares Filho (PSB), com 9%, empatado tecnicamente com Belivaldo Chagas (PSD), com 8,6%,

Belivaldo Chagas tem como vice Eliane Aquino (PT)/Apoiado por Lula

 

Carga simbólica

Para José Willington Germano, cientista social e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), a alta popularidade de Lula no Nordeste pode ser explicada, em partes, pela carga simbólica do ex-presidente entre os nordestinos e os mais pobres.

De acordo com o professor, o fato de Lula ser um migrante nordestino que se firmou como figura que supera as dificuldades, somado a sua trajetória, de operário a presidente da República, conta muito simbolicamente para a população mais carente, que se identifica com o petista.

“Essa dimensão simbólica de Lula para os pequenos faz toda a diferença. E, claro, também para as elites que a rejeita. As elites rejeitam essa origem popular. Mas para o povo isso tem uma carga simbólica muito grande”, afirmou.

Simbolismo da figura de Lula ainda é muito presente no Nordeste (Foto: Ricardo Stuckert)

Já Renato Francisquini, professor do departamento de Ciência Política da Universidade Federal da Bahia (UFBA), vai além. Ele acredita que a própria prisão de Lula contribuiu para fortalecer seu simbolismo e popularidade no Nordeste. De acordo com o professor, boa parte da população “desconfia” da forma como foi conduzido o processo contra o ex-presidente e que as evidentes motivações eleitorais de sua prisão têm peso no fortalecimento de sua imagem.

“Já há um entendimento entre a população que o processo contra Lula foi um processo muito atropelado, com prazos desrespeitados, não houve apresentação de provas, atos de ofício que poderiam comprovar que ele realmente recebeu algo em troca de favores para as empresas. Para a população do Nordeste no geral ficou muito clara essa desconfiança com relação ao modo como esse processo foi feito. A prisão tem sido visto com muita desconfiança, as pessoas percebem que Lula está preso por uma questão associada ao período eleitoral”, pontuou.

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“Acho que a desconfiança que existe hoje em relação ao processo com certeza pesa para que a população possa perceber e ter uma percepção diferente a respeito do Lula e do que foi o governo dele”, completou Francisquini.

A lembrança da Era Lula

À Fórum, os dois professores de universidades do Nordeste destacaram ainda que a popularidade permanente de Lula na região está muito ligada à lembrança que as pessoas têm de seus governos que, segundo eles, melhoraram profundamente suas vidas.

Além do público e notório êxito de programas como o Fome Zero e o Bolsa Família, que tiraram o Brasil do Mapa da Fome da ONU, José Willington chamou a atenção para o aspecto da educação.

“É amplamente conhecido que mais de 400 escolas técnicas e dezenas de universidades foram construídas. Mas, veja só. Quero destacar que um estado como Rio Grande do Norte, que é um estado pequeno, teve ao longo de 100 anos apenas dois Institutos Federais, um Natal, a capital, e outro Mossoró, a segunda maior cidade. O estado conta hoje, graças aos governos Lula, com 21 institutos. Isso faz toda a diferença”, explicou, pontuando ainda que as escolas técnicas chegaram, principalmente, nas regiões mais remotas, tendo em vista que antes de Lula as escolas técnicas e universidades ficavam concentradas nas capitais e no litoral.

Lula em caravana pelo Nordeste com músicos tradicionais da região (Foto: Ricardo Stuckert)

“Agora elas estão sertão adentro, e isso faz toda a diferença (…) E quem é que está nessas escolas? Índios, quilombolas, negros, MST, pescadores nas barco-escolas… Olha a diferença. Foi dado voz a quem nunca teve”, disse o cientista social.

Renato Francisquini também coloca o legado de Lula na região como um dos principais sustentáculos de sua popularidade. “Tem um fator que não é conjuntural que está associado ao período do governo Lula, que foi um período que, se entre a classe média não foi sentida uma mudança de uma forma mais significativa, entre os mais pobres, principalmente no Nordeste, foi. Houve uma mudança qualitativa muito significativa na vida dessas pessoas”, afirmou.

Ambos os professores concordam, ainda, que a lembrança dos tempos de governo Lula na região ficam ainda mais latentes diante dos desmontes promovidos pelo governo Temer, que já vêm acentuando a volta do desemprego e empobrecendo a população. Para se ter uma ideia, um estudo divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta que o contingente de pessoas sem ocupação bateu recorde este ano e atinge 65 milhões .

“Há um fato conjuntural na popularidade de Lula que é o fato de que o governo Temer tem sido um desastre completo. Aumentou muito desemprego, e a região nordeste foi mais afetada por essa crise (…) O desastre que tem sido o governo Temer é associado, pela população, ao período que Lula foi governante”, explicou Francisquini.

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“Se você andar pelas ruas das cidades do Nordeste você vê como não se via há tempos pedintes em todos os cruzamentos. Praticamente tinham desaparecido, agora voltaram. Aumentou o número de pessoas no pequeno negócio em cada semáforo e é claro que, ao meu ver, isso pesa. Apesar do rolo compressor midiático, as pessoas fazem uma comparação do que era sua vida antes e o que é agora”, completou José Willington.

Discurso midiático não “pega” no nordestino

O “rolo compressor midiático” citado por Willington, que há anos demoniza a figura do ex-presidente Lula e do Partido dos Trabalhadores, de acordo com os docentes, é menos efetivo na construção da narrativa antipetisa entre a população do Nordeste. Isso se deve ao fato de que as políticas dos governos do PT que fizeram a diferença para as famílias mais pobres acabam se sobressaindo à tentativa de desqualificação da mídia.

Lula em Sergipe. “Discurso midiático não pega no nordestino”. Foto: Ricardo Stuckert

Se de um lado o antipetismo atingiu seu ápice em 2016, com um apoio massivo pelo país ao impeachment da ex-presidenta Dilma, de outro a população nordestina fortaleceu seu apoio à Lula, visto que essas pessoas, mais do que ninguém, “sentiram na pele” as mudanças encampadas na região pelo ex-presidente.

“Os mais pobres sentiram na pele a mudança, e talvez aqui [no Nordeste] tenha acontecido com mais intensidade. Eu não sei se a população nordestina é crítica com relação ao discurso midiático, mas acho que esse discurso falhou. A mídia manipula até certo ponto, tem um ponto que não pode mais”, analisou José Willington.

Para o professor, o discurso midiático anticorrupção que foi encampado pela mídia tradicional contra Lula e o PT é historicamente encampado contra governos de centro-esquerda e absorvido pelas elites e parte da classe média.

“Eu acho que setores da classe média, a maioria, são suscetíveis a esse discurso da corrupção. E o discurso da corrupção no Brasil pega quando o governo pende para a centro-esquerda. Desde Vargas. Vargas foi levado ao suicídio com o discurso do mar de lama dos jornais, com políticas trabalhistas, aumento salário mínimo, criação da Petrobras, Eletrobras. O golpe de estado conquistou a classe média. Se você pegar o governo João Goulart, não foi só a subversão, foi também a corrupção, que pegou a classe média mais uma vez. O próprio Juscelino Kubitschek foi acusado de corrupção, acusado de ter um apartamento ganhado de um empresario amigo em Copacabana. Não é que a corrupção não existe, mas ela caiu nessa onda. Agora, acho que esse discurso não pega entre os mais pobres não pega porque a prática, a vida, faz a diferença nessas regiões”, explicou Willington.

Francisquini vai na mesma linha. “Esses anos todos em que o Jornal Nacional diariamente ficou mostrando erros do PT, certa desconfiança com relação ao que foi o governo de Lula, da idoneidade dele, esses anos todos em que houve uma critica muito contumaz dos meios de comunicação em relação aos governos do Lula têm um impacto significativo na população. Mas aí tem outra questão: uma parte da população teve um ganho significativo em termos de qualidade de vida, que talvez a classe média não perceba. Mas boa parte da população teve um ganho forte. Para essa parcela da população é mais difícil que esse discurso [midiático] seja vendido. Eles viram sua qualidade de vida melhorar de maneira significativa”.

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