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04 de Janeiro de 2018, 15h43

Previsões com 100% de acerto para o ano que começa. E um pouco de futebol também

Recomendo a quem gosta dessa coisa de controle das pessoas pelo Estado que vejam o filme O ovo da serpente, sobre a gestação de um futuro nazista, e leia 1984, de George Orwell. É duro, mas ando pessimista, achando que estamos prestes a reviver tudo isso. Por Mouzar Benedito* “Neste ano, os cegos verão muito […]

Recomendo a quem gosta dessa coisa de controle das pessoas pelo Estado que vejam o filme O ovo da serpente, sobre a gestação de um futuro nazista, e leia 1984, de George Orwell. É duro, mas ando pessimista, achando que estamos prestes a reviver tudo isso.

Por Mouzar Benedito*

“Neste ano, os cegos verão muito pouco, os surdos ouvirão mal e os mudos não dirão nada”.

Haverá “uma doença horrível e pavorosa, maligna, perversa, assustadora e desagradável que deixará todos muito espantados, sem saber o que fazer e frequentemente perdidos em devaneios silogísticos sobre a pedra filosofal e sobre as orelhas de Midas. Tremo de medo quando penso nisso, porque digo que ela será epidêmica, e Averróis, em Colliget VII, a chama de falta de dinheiro”.

É gozação?

É. Mas não minha nem de adivinhos que infestam a televisão, revistas e jornais em fins de ano. Apesar de eu fazer previsões como essas há anos, isso que está escrito no começo do texto faz parte do Prognóstico Pantagruélico, certo, verdadeiro e infalível para o ano de 1533, de François Rabelais. Tradução de Leyla Perrone-Moysés. A Ilustríssima, caderno da Folha de S. Paulo, publicou em 31 de dezembro.

Um texto de quase cinco séculos de idade, que continua valendo em 2018, e continuará nos próximos anos, não?

Fácil fazer previsões assim, mas o duro é que muita gente se veste de mago, faz pose de ter ligações com o além e prevê coisas como essas como se estivesse falando sério. Preveem morte de político e de artista famosos (que ano não acontece), separação de casais “ilustres”, enchentes em alguns lugares, secas em outros, furacões no Caribe e costa dos Estados Unidos, tufões no Sudeste da Ásia, ondas de frio (com nevascas) em alguns lugares e de calor em outros…

Poderão prever para o Brasil a continuidade da corrupção empresarial e política, com propinas e coisas afins, e no futebol também, a justiça acelerada contra um lado e lenta ou inerte contra outro, revoltas em presídios, a breguice atacando firme na música popular… A poluição dos rios e do ar não sendo combatida, as florestas continuarão sendo devastadas, o Aëdes egypt transmitirá dengue, chicungunha e outras doenças, a febre amarela não será eliminada. Muitos velhos vacinados contra a gripe não serão protegidos pela vacina: terão gripe braba. Trânsito caótico nas grandes cidades, transporte coletivo péssimo, desemprego, corte de direitos sociais…

E vamos piorar!

Entre as notícias de fim de ano, uma que me deixou pasmo veio de Berlim: para mulheres não serem assediadas sexualmente, criaram lá, para a festa de virada do ano, uma área exclusiva para mulheres. Homem não entrava. Como podem achar normal isso? É um retrato da decadência por que passamos, assim como achar mais que normal – maravilhoso – existirem câmeras de vídeo em tudo quanto é esquina, lojas e mesmo prédios residenciais, para gravar ações de criminosos. Querem cada vez mais, câmeras em tudo quanto é lugar. É uma espécie de aceitação de que o mundo não tem jeito, a bandidagem só vai aumentar. Não se pensa em criar condições para o fim de pelo menos algumas bandidagens, mas apenas em reprimir. O mundo é “normal” assim. E vai continuar “caminhando” nessa linha.

Outra coisa: vejo como absurdo em São Paulo esse negócio de jogos de futebol terem só uma torcida. Adversário não entra, para não ter briga. É a aceitação de que o futebol não é esporte nem lazer, é guerra!

Recomendo a quem gosta dessa coisa de controle das pessoas pelo Estado que vejam o filme O ovo da serpente, sobre a gestação de um futuro nazista, e leia 1984, de George Orwell. É duro, mas ando pessimista, achando que estamos prestes a reviver tudo isso. E não é só no Brasil. O mundo parece cada vez mais uma coisa em que é normal ter um Trump; nos países “do Primeiro Mundo” um medo generalizado (e justificado) em qualquer aglomeração, esperando atentado terrorista… Dá para prever algo otimista?

Previsões futebolísticas

Houve uma época em que os gozadores previam: “O Corinthians não será campeão”. O time passou 23 anos sem ganhar um campeonato paulista, que aqui era o mais disputado da época. O jejum acabou em 1977, disputando a final contra a Ponte Preta. O interessante foi que a torcida não abandonou o time, daí surgiu o epíteto “fiel torcida”. Agora não dá pra prever mais isso, né?

Mas eu mesmo torço por uns times que com certeza não serão campeões em 2018, nem brasileiros nem nos seus respectivos estados. Por exemplo: Ypiranga, na Bahia; Bangu, no Rio de Janeiro, e São Bento de Sorocaba, em São Paulo.

Ranking futebolístico

Já que citei alguns dos meus times preferidos, cito também o ranking das equipes mundiais, igualmente publicado na Folha de S. Paulo (em 2 de janeiro). A lista tem 102 times de futebol e aparece no topo o Real Madrid, em primeiro lugar, seguido pelo Milan e Barcelona. Daí, em quarto lugar já aparece um time argentino, o Boca Juniors. Em quinto tem o Bayern de Munique e em sexto o Peñarol.

Bom… Selecionei os 50 primeiros da lista. Sabem que país tem mais time nessa lista? O Brasil, com 10 times: São Paulo (em 9º lugar), Santos, Grêmio, Cruzeiro, Internacional, Corinthians, Palmeiras, Flamengo, Vasco e Atlético-MG. Se for pegar os cem melhores no ranking, também, o Brasil continua em primeiro, com mais um time, o Fluminense.

Em segundo lugar, na lista dos 50 (e dos cem também) não está nenhum país europeu: é a Argentina, que tem sete times entre os 50: Boca Juniors, Independiente, River Plate, Estudiantes, Velez Sarsfield, Racing e San Lorenzo.

A badalada Espanha tem Real Madrid e Barcelona, dois dos maiores times atuais, mas depois deles só aparecem mais dois: Atlético de Madri e Valência. A Inglaterra também só tem quatro times entre os 50, a Itália só três, e a Alemanha também. Outros países europeus que têm times nessa lista são a Holanda (dois times), Portugal (dois também), França (um) e Sérvia (um). Não há nenhum time da Bélgica, da Dinamarca, da Suécia, da Rússia, da Grécia…

Mas por que estou falando sobre isso? É um tema recorrente para mim. Aqui, acham que a gente tem que imitar tudo de fora, inclusive os campeonatos de futebol. Então insistem que se na Espanha, que tem dois dos melhores times do mundo, o campeonato tem vinte equipes, por que o Brasil teria que ter mais?

A resposta está nesse ranking, embora ele leve em conta todo um histórico das equipes. Não é um retrato do momento. Mas vejam: na Espanha tem os dois bambambãs, é claro, e mais dois bons times. E o resto? Tem uns que não são nem um pouquinho melhores do que os meus que não serão campeões.

Na Inglaterra, na Alemanha, na França, na Itália e outros países também. Existem times que disputam o campeonato principal lá que podem ser equiparados aos da minha torcida, como o Bangu e outros que não citei, como o América de Belo Horizonte e o Paysandu.

No Brasil, que além de ser um “país continental”, tem muito mais times que poderiam entrar nos campeonatos daqui e de lá. Além dos dez citados da lista dos ranqueados entre os 50, e do Fluminense, basta lembrar o Botafogo (RJ), o Bahia e o Vitória, o Sport, o Náutico e o Santa Cruz e uns num nível um pouco mais baixo, mas melhores do que uns times do campeonato espanhol, como Ceará, Fortaleza, Goiás, Atlético Goianiense, Atlético Paranaense, Coritiba, Avaí, Chapecó…

Então, somando esses todos, temos 26 times. E se juntar a eles alguns paulistas como a Ponte Preta e Ituano, além de equipes de outras regiões, que se equiparam aos menos badalados dos campeonatos europeus?

Bem, tudo isso pra defender uma causa inglória; mais times no campeonato brasileiro. Todos os anos reivindico: quero o Paysandu na primeira divisão. Rê-rê… Ah, mas sem mutretas e corrupção, tá?

*Mouzar Benedito, mineiro de Nova Resende, é geógrafo, jornalista e também sócio fundador da Sociedade dos Observadores de Saci (Sosaci).

Foto: Commons