02 de julho de 2018, 22h54

PSOL: um abrigo da resistência negra

Joselicio Junior destaca: “Com todos os limites e contradições, me orgulho de estar à frente de um partido como PSOL, que vem se tornando um abrigo importante de lideranças e coletivos que trazem a centralidade do combate ao racismo na dinâmica da luta de classes”

Desde que assumi a presidência estadual do PSOL São Paulo, o debate racial sempre permeou a nossa gestão, seja por ser um militante há alguns anos do movimento negro e trazer essa luta com centralidade na trajetória política, ou mesmo pelos desafios que existem na ocupação de um importante espaço de representação política. Ser jovem, negro, morador da periferia, que ousa ocupar um espaço de dirigente partidário tem um peso histórico e simbólico importante, mas também traz desafios imensos. Além disso, considero que o enfrentamento ao racismo deve ocupar o centro de um programa de esquerda no Brasil.

Em que pese o necessário ajuste histórico entre a esquerda tradicional e o movimento social negro sobre a origem da formação da luta de classes no Brasil. Tendo em vista que por muito tempo se convencionou associar o início da luta de classes brasileira ao anarcossindicalismo do século XIX, ignorando a resistência indígena e negra, conflito entre a casa grande e a senzala, as insurreições, revoltas e formação de comunidades livres como os mocambos, ingredientes que formam o conflito de interesses antagônicos na formação social brasileira.

Outro embate importante é sobre a centralidade da luta de classe em detrimento da luta “específica”.  Há uma disputa entre o “classismo clássico” versus o “identitarismo”, termos absolutamente insuficientes para compreender a realidade de nosso país. Primeiro porque não é possível ignorar que a base da acumulação de riqueza da elite brasileira foi o escravismo, que perdurou quase 4 séculos, e o rompimento com esse regime passou por um grande acordo no andar de cima, para manutenção de privilégios dos exploradores e completa exclusão dos explorados.

Além dos aspectos econômicos, também há um debate ideológico, como havia por parte da elite nacional que, influenciada pelas ideias das teorias da eugenia e outras do racismo “científico” vindas da Europa, apresentava a necessidade de um processo de embranquecimento da sociedade brasileira para garantir o seu desenvolvimento. Isso produziu uma abolição que formou um abismo econômico, social e cultural entre negros e não negros que se arrasta até os dias atuais. Portanto, o racismo e o colonialismo estruturam toda a dinâmica social brasileira.

Identidade negra

A construção de uma identidade negra foi uma estratégia fundamental para a resistência negra, tendo em vista que o colonizador buscou a todo momento diluir as tradições e formações culturais dos povos africanos. Não por acaso que escravizadas(os) oriundas(os) de uma mesma etnia eram espalhadas(os) para tentar evitar que pudessem se relacionar enquanto comunidade. No pós-abolição também se buscou diluir ou criminalizar as culturas afro-brasileiras para tentar impedir sua organização social enquanto povo. Nesse sentido, a identidade negra vai além da disputa estética de autoafirmação e busca por visibilidades, ela está associada a uma estratégia de organização social contra-hegemônica.

Para que a esquerda brasileira construa um novo ciclo social de disputa da sociedade é fundamental esse ajuste de contas. Reduzir o combate ao racismo estrutural a uma “luta identitária”, ou mesmo, não compreender a importância da identidade negra como forma de sociabilidade e organização social, permitirá que setores conservadores protagonizem essa disputa, tendo em vista que o debate racial vem ganhando escala e é uma realidade da sociedade contemporânea.

O PSOL está inserido nesse contexto. Um partido que tem na base da sua formação a tradição da esquerda “classista”, com um perfil de quadros dirigentes formado majoritariamente por homens, brancos, classe média e universitários. Porém, o partido foi fundado em contexto histórico, onde parte da esquerda estava no governo central e os principais movimentos sociais e sindicais associados a esse projeto também, acarretando grandes desafios para a formação de uma base social e até mesmo uma identidade partidária de massas.

Parte da visibilidade externa do partido se deu a partir das bancadas parlamentares e também via os processos eleitorais, mas na dinâmica interna também foram ganhando peso os debates das mulheres, negritude, LGBT’s e ecossocialistas. Particularmente as mulheres obtiveram conquistas significativas, como a paridade de gênero em todas as direções partidárias e, mais recentemente, a cota de 30% de negras e negros também nessas direções. Esse debate interno tem contribuído para uma mudança qualitativa dos espaços de direção e isso traz reflexos também na disputa externa do partido na sociedade, com um olhar mais atento e aberto para formação de chapas e candidaturas com uma maior representatividade de mulheres, negras e negros, LGBT’s, jovens, candidaturas que propõem inovações na dinâmica de fazer política.

Experiências

Em 2016, tivemos experiências muito interessantes, como a eleição das vereadoras Áurea Carolina e Cida Falabella, em Belo Horizonte, através da articulação do MUITAS; a eleição da Sâmia Bomfim, em São Paulo; a eleição da Taliria, em Niterói, e Marielle, no Rio de Janeiro, sem contar votações expressivas de candidaturas negras tanto para prefeito como para vereança, mostrando que há espaço para a disputa de novas narrativas na representação política.

As eleições de 2018 estão carregadas de incertezas, reflexo de um golpe institucional que instalou um governo ilegítimo, que impôs uma agenda de retirada de direitos da classe trabalhadora, o que produz um cenário de desesperança para uma boa parcela da população, abrindo brechas, inclusive, para a articulação de candidaturas ultraconservadoras. Mas, ao mesmo tempo, existe um espaço a ser ocupado por candidaturas alternativas e que apresentem novidades na representação política.

É bem interessante o processo que estamos vivendo na formação da chapa de deputadas(os) estaduais e federais. Aqui no estado de São Paulo, estamos construindo chapas muito bonitas, com diversidade e representatividade, com mulheres, negras e negros, LGBT’s, ecossocialistas, lideranças sindicais, de movimentos populares. Especificamente na pauta racial deveremos ter mais de 20 candidaturas que trazem essa discussão em suas plataformas, um salto quantitativo e qualitativo muito importante.

Esse crescimento traz desafios significativos. Assim como as mulheres vêm travando uma luta para que as candidaturas não sejam apenas para preencher a chapa e seguir o que a legislação determina, o volume de candidaturas negras também deve abrir uma discussão da importância e o papel que elas devem cumprir na disputa real de ampliação e crescimento do partido. Portanto, o aumento do número de candidaturas é só o primeiro passo.

Desafios

O ano de 2018 apresenta desafios gigantescos para o PSOL. Primeiro, tem a responsabilidade, junto com a aliança construída com o MTST em torno do nome do companheiro Guilherme Boulos e Sônia Guajajara na chapa presidencial, de apontar para construção de um novo ciclo de organização da esquerda brasileira. Nesse sentido, nos orgulha ver Boulos assumindo bandeiras históricas da negritude em seu discurso, como o enfrentamento ao genocídio do povo negro. Também temos o desafio de furar a “cláusula de barreira”, o que exigirá dobrar a representação partidária na Câmara Federal e, sem sombra de dúvida, há uma disputa por onde se dará esse crescimento.

Quero ressaltar que as tradições africanas nos trazem ensinamentos importantes, como a necessidade de buscar um equilibro e o respeito aos mais velhos que trazem os ensinamentos, a saberia acumulada ao longo da sua trajetória, como também destaca a importância dos mais novos na continuidade do legado e da tradição. Acredito que 2018 traz essa força. Não devemos abrir mão dos baluartes, dos dirigentes históricos que nos trouxeram até aqui, mas, sem dúvida, se queremos construir um projeto de fôlego, em sintonia com as novas dinâmicas sociais, é fundamental abrir espaço, alargar os espaços de representação.

O que se coloca diante de nós é extremamente desafiador. Temos nitidez dos limites que a estrutura partidária ainda impõe, que os reflexos de uma sociedade patriarcal, racista e misógina também apresentam os seus resquícios em um partido de esquerda, que muitos embates ainda serão necessários e que isso nos exigirá um processo de organização para a construção de um projeto coletivo. Não haverá salvadores da pátria ou lideranças individuas, que darão conta desse processo de acumulação de força para um novo ciclo histórico.

Com todos os limites e contradições, me orgulho de estar à frente de um partido como PSOL, que vem se tornando um abrigo importante de lideranças e coletivos que trazem a centralidade do combate ao racismo na dinâmica da luta de classes, que contribui para esse debate mais amplo no campo da esquerda que reivindica, de forma justa, espaço, representatividade e estrutura para disputar com força os processos de luta política como as eleições.

Assim como foi fundamental a luta do movimento negro no processo de redemocratização do país, trazendo bandeiras como o mito da democracia racial, a necessidade do Estado Brasileiro de reconhecer a existência do racismo e construir um processo de reparação histórica que culminou na luta por ações afirmativas, como o ingresso nas universidades e nos concursos públicos, a luta contra o genocídio do povo negro e o projeto de faxina étnica, está na ordem do dia o debate sobre a ocupação dos espaços de poder.