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05 de Março de 2015, 07h35

A publicidade brasileira é ridícula

Ontem foi lançada uma nova peça publicitária da marca Always, que vende absorventes menstruais. Na campanha, acharam que seria uma boa ideia falar sobre vídeos íntimos que são publicados sem o consentimento das mulheres gravadas, mas resolveram abordar o tema criando um viral porco, utilizando a famosa Sabrina Sato como exibição sexualmente objetificada, apresentando um […]

Protestos contra o machismo da publicidade brasileira aconteceram em 2012. Imagem: Reprodução / Facebook

Ontem foi lançada uma nova peça publicitária da marca Always, que vende absorventes menstruais. Na campanha, acharam que seria uma boa ideia falar sobre vídeos íntimos que são publicados sem o consentimento das mulheres gravadas, mas resolveram abordar o tema criando um viral porco, utilizando a famosa Sabrina Sato como exibição sexualmente objetificada, apresentando um assunto extremamente difícil com trocadilhos ridículos e irresponsabilidade profunda.

A ONG Safernet, que deveria ser o lado coerente dessa grande palhaçada, ainda caiu na armadilha de culpar as mulheres por terem seus vídeos expostos sem permissão. Ao invés de voltar a campanha para explicar que o “vazamento” de material íntimo é crime, a Safernet preferiu dizer para as mulheres simplesmente não tirarem fotos sem roupa. Mas espera aí, era pra ser uma campanha de conscientização em combate a um crime ou mais uma forma de dizer para as mulheres que elas são imorais e sem inteligência?

Já a Leo Burnett, agência publicitária responsável pela propaganda, é a mesma que foi alvo de protestos do movimento feminista brasileiro em 2012. Em uma peça publicitária feita para a cerveja Nova Schin, a agência chegou a colocar mulheres sendo despidas, sem consentimento, por homens que se tornavam “invisíveis”. Na ocasião, houve uma grande mobilização online, que resultou em protestos pelas ruas de várias cidades do Brasil.

Agora a Leo Burnett quer convencer a todos de que se tornou engajada contra algo que há pouco tempo defendeu. E teria convencido, caso tivesse feito a lição de casa. Afinal, se uma agência publicitária não tem conhecimento sobre o tema abordado na campanha, o mínimo que deve ser feito é uma pesquisa séria e profunda. Há dezenas de textos online gratuitos falando sobre revenge porn, assim como instituições e ONGs feministas que poderiam falar sobre o assunto com propriedade e responsabilidade. No mínimo, o infame trocadilho com “vazamentos” de sangue menstrual não teria sido aconselhado.

Todo esse circo armado nos leva ao inevitável questionamento: a publicidade brasileira não consegue fazer algo bom e que não seja misógino? Na cartilha dos publicitários só é possível tratar mulheres de forma estereotipada e machista ou errar miseravelmente numa tentativa de ser consciente? Não é difícil compreender que é possível fazer propagandas sem machismo, mesmo que não tenham a intenção de conscientizar os consumidores a respeito de algo.

A Safernet também precisa rever, com urgência, sua ineficiência didática e sua postura omissa. Para conversar sobre vídeos íntimos publicados sem consentimento da mulher, é preciso falar diretamente com os responsáveis por essa violação de privacidade e autonomia. Algo que a ONG deveria saber sem que nenhuma feminista precisasse explicar.

Mas, como está evidente, o Feminismo brasileiro ainda tem muito o que ensinar para publicitários, ONGs e empresas. Se a Leo Burnett, a Always ou a Safernet estiverem dispostas a organizar um seminário voltado para marcas e publicitários brasileiros, acredito que muitas ativistas se disponham a facilitar uma oficina. Quem sabe, com um grande aulão, finalmente aprendam como ter respeito pelas consumidoras.

Foto de capa: Divulgação