13 de abril de 2018, 22h15

Pular a cerca: é para punir ou aplaudir?

Acompanhando o que se passa na política, no Judiciário, na cabeça de muitos jornalistas, nos comentários raivosos publicados nas mídias sociais, me deu vontade de escrever este texto.

O que vale para uns, não vale para os outros. O que é crime, se quem o pratica é meu adversário, é esperteza ou coisa à toa se o praticante é da minha turma. O que é imoral nos nossos adversários, é uma qualidade em nós. Isso radicalizou, mas esse tipo de pensamento não é de hoje.

Ficar velho é ruim. Velho com memória eu não sei se é pior. Eu me lembro de coisas de “antigamente” e penso nisso. E vou contar uma historinha verdadeira que ilustra um pouco um comportamento maniqueísta cada vez mais presente.

Quando a ditadura balançava, em 1982, realizaram-se as primeiras eleições para governador, prefeitos de capitais e cargos legislativos, com partidos que não eram a Arena, governista, e o MDB, oposição que só às vezes se levava a sério, mas com alguns membros corretos e coerentes. Surgiram o PT, PTB e PDT. A Arena virou PDS e o MDB virou PMDB, que agora quer ser MDB de novo.

Com um jejum político muito longo, a gente queria se lambuzar naquelas novidades. Assim, acompanhávamos todos os acontecimentos políticos em tudo quanto é lugar do Brasil. Sabíamos quem era o candidato a qualquer cargo executivo em quase todos os estados. As eleições para presidente ainda estavam fora de questão.

Tínhamos divergências, éramos radicais, mas convivíamos bem com certas tendências de partidos adversários. Eu era do PT e tinha muitos amigos no PMDB, que foi opção de uma parte da esquerda. O PDT em São Paulo era fraco, mas a gente o considerava aliado também. Era um clima de discussão permanente, não no sentido de briga, mas de troca de ideias e argumentos. E nessa época já deu pra ver uns comportamentos moralistas que, podem dizer, eram de falsos moralistas, mas eu não diferencio muito moralistas de falsos moralistas.

Lula foi o candidato do PT a governador, e o do PMDB foi Franco Montoro. Encontrei um militante do PMDB do bairro do Butantã que sempre me fazia discursos de esquerda. Dizia que o PMDB estava mais à esquerda que o PT, pois o partido dele abrigava os ainda não legalizados PCB e PC do B.

Franco Montoro não era visto como homem de esquerda. Acredito que, originário da democracia-cristã, tinha se tornado um socialdemocrata de verdade (ao contrário de muitos que se dizem socialdemocratas e são de direita). Perguntei ao peemedebista, brincando: “Então você vai votar no Lula?”. Ele entendeu… Montoro não era de esquerda. Mas ele tinha que ter algum motivo para não votar no Lula. E me respondeu: “Eu não voto no Lula porque ele anda comendo a Fulana”. Não cito o nome que da “Fulana” porque, mesmo sendo uma mentira (fake news, se diz atualmente), isso seria tratado como verdade e viraria motivo para agressões covardes a ela.

Como? De onde ele tirou isso?, pensei. E falei: “Ô, cara, duvido muito que a Fulana dê para o Lula, mas se der, e daí? Os dois são maiores de idade, e ela sabe muito bem o que faz”. E ele fez pose de impoluto: “Governador tem que ser sério, não pode ser homem que tenha relações sexuais fora do casamento”.

Nas eleições seguintes, continuávamos acompanhando as candidaturas em todo o Brasil. Encontrei o mesmo cara novamente. Nessas eleições, o candidato a governador pelo PMDB de Minas Gerais era o Newton Cardoso, que estava sendo acusado de ter estuprado duas menores de idade. Tecnicamente, diziam seus defensores, não era estupro, elas toparam… Mas juridicamente, argumentavam outros, relações sexuais com menores de idade, ainda que consentidas, eram consideradas estupro.

Bom, brinquei com o cara novamente: “Você não votou no Lula porque achava que ele estava comendo a Fulana. E se votasse em Minas Gerais agora, votaria no Newton Cardoso? Vai recomendar aos peemedebistas mineiros que não votem nele porque é um estuprador?”. Aí o cara fez pose de esperto e sapecou: “Pô… Mulher vem dando chance, tem que comer… Ele tá certo”.

Façam o que eu digo…

É difícil encontrar um moralista que não se comporte assim.

Eu me lembro de uma coisa bem besta, envolvendo um juiz de direito. Uma época, acho que no início dos anos 1990, o SBT começou a transmitir às sextas-feiras, no final da noite, um programa de streap-tease. Ruinzinho… Vi uma vez e achei que não tinha graça nenhuma, não vi mais.

Um juiz de Brasília tentou tirar o programa do ar, porque ele ia contra a moral etc. Queria porque queria proibir o programa “imoral”. Estava quase conseguindo, quando, uma noite, a polícia foi chamada a um motel onde estava tendo uma briga. E quem estava lá? Eram o juiz, a mulher dele e uma prostituta, no mesmo quarto. Segundo a prostituta, ela foi chamada para um sexo a três, mas chegando ao motel o sujeito queria que ela cheirasse cocaína. Ela não quis, e daí deu-se a encrenca. Não ouvi mais falar desse juiz.