07 de fevereiro de 2013, 17h47

Quando a burocracia mata. O fim de um Ponto de Cultura.

Há dois dias recebi este email:
“infelizmente, amigo, um dia sonhamos juntos por um Brasil cheio de pontos de cultura. Mas hj mais um se apaga, aqui no Norte do Paraná, na Londrina de terra roxa. 
 
Não sei o que fizemos de tão errado nesse cincos anos, mas agora somos taxados de “devedores”, “ladrões” e tenho a impressão que os ventos que sopraram a nosso favor voltaram em forma de um grande furacão. 
 
Mais um ponto que se apaga.
 
fabricio”
Essa mensagem veio da Casa das Fases, um Ponto de Cultura dos mais delicados. Os visitei uma única vez, creio que em 2006, mas o trabalho deles e delas (a maioria são velhas e queridas senhoras) me marcou tanto que tornamo-nos amigos, mais por trocas epistolares (muitas vezes recebi cartas escritas à mão, assinadas por dona Jandira – a presidenta da entidade, que faleceu no ano passado-) todas cheias de emoção e palavras de estímulo. Agora recebo esta mensagem de Fabrício, o coordenador do Ponto de Cultura, eles renderam-se à burocracia estatal e seu Ponto de Cultura será mais um que se apaga.
Haveria solução, mas quando um governo rende-se à “burocracia sem alma” (no conceito de Max Weber) o resultado é a morte da Cultura Viva. Para quem quiser conhecer o trabalho deles, segue um vídeo que encontrei no youtube e também um capítulo que escrevi em meu livro “PONTO DE CULTURA – o Brasil de baixo para cima”. Quanto à solução, o caminho para resolver esta prestação de contas e de vários outros Pontos de Cultura em situação semelhante (todos muito honestos e comprometidos e que fizeram um trabalho com resultados muito além do que havia sido contratado, diga-se), seria reunir os diversos orgãos de controle estatal (CGU – Controladoria Geral da União -, TCU – Tribunal de Contas da União- e os Ministérios do Planejamento e Cultura) e produzir um termo de ajuste que reconhecesse a prestação de contas dos Pontos de Cultura pelo cumprimento do Objeto (resultados) dos Convenios e não pelos procedimentos burocráticos das notas frias. Em São Paulo este caminho (prêmio ao invés de convênios) já foi adotado desde 2009, com a rede de 300 Pontos de Cultura do Estado e já deveria estar sendo aplicado nas demais redes (inclusive retroativamente); porém, com a mudança de governo, o pântano burocrático prevaleceu -e continua prevalecendo até o dia de hoje- na condução das políticas públicas. Triste.
http://www.youtube.com/watch?v=pPYkAqJzc6I

 

Caixas de Memória

 

“Estou loira, mulher, apaixonada e viúva”.

Velhas senhoras (e alguns senhores) se apresentam em Londrina com suas “caixinhas de memória”. Casa das Fases.

“Nenhum livro contará nossa história”. Por isso sentam e ouvem histórias umas das outras, tirando os elementos necessários para construir suas peças de teatro.

“Uma relação de afeto. Parar para ouvir a história de uma pessoa é uma coisa muito importante, muito séria”, afirma Fabrício Borges, coordenador do Ponto de Cultura, que pratica todos os dias esse exercício de ouvir.

“Minha mãe me dava o peito e eu escutava,

o ouvido colado ao peito dela…

oh meu deus!”.

Depois de visitar as integrantes do grupo, João Bernardi, o diretor, percebeu que elas contavam histórias prontas, e fez suas cenas a partir dessa observação.

“Se eu morasse na roça ia ser uma carpideira,

 uma puxadeira de terço,

uma cantadeira”.

Pequenas histórias.

“Aí me enchi de perguntas e, linda, saí pela rua:

‘Nunca mais vou passar fome! Nunca mais vou passar fome!’”.

No Ponto de Cultura, elas (e eles) se redescobrem.

“O grupo é como se fosse minha família. Quando fiquei viúva…”, inicia uma senhora de cabelos brancos. Quase ao mesmo tempo, o diretor da trupe conclama: “Imaginem que aqui fiz um buraco, vamos jogar neste buraco tudo aquilo que não presta… Imaginem!!!”. Imaginem.

“A união é o princípio de tudo. Uma rede de histórias paralelas, com individualidades, especificidades, cada um tem sua história”, complementa Jandira Testa, diretora da entidade.

Sair do Ponto de Cultura vestida e maquiada já é um feito. Elas se indagam sobre qual a impressão dos transeuntes. “Quem são estas velhas da Casa das Fases?”, se perguntam. E elas (e os poucos homens) saem às ruas.

 

“Não vai dar,

não vai dar não,

você vai ver a grande confusão…”

 

Começam com música, depois suas caixas de memória, como pequenos teatros em que se apresentam para uma pessoa apenas. Pequenos momentos em que uma caixa de papelão pendurada no pescoço transforma-se em palco e museu. A cenografia e figurino são feitos em miniatura, com pequenos brinquedos, fotos, bonequinhas, papel crepom e tecido. João Bernardi, o diretor da trupe, revela a generosidade de seu teatro:

“Quando a pessoa é surpreendida na rua por um grupo de senhoras contando histórias com suas caixas, com certeza ela vai se surpreender. Nossa! Talvez mude o rumo do que faria após sair de um banco, pensando em dívidas e contas. Depois de ouvir aquela história contada com tanto carinho, talvez a pessoa mude o seu rumo, talvez chegue em casa e conte uma história para seu filho e se esqueça por um tempo de suas dívidas e contas a pagar. Quem sabe a pessoa mude o percurso, pare numa praça, vá mais feliz para seu compromisso, talvez ligue para uma tia com quem não falava há muito tempo e com isso se prepare melhor para seu envelhecimento”.

Potencialidades são descobertas por e naquelas velhinhas do Paraná.

 

“Foi a camélia que caiu do galho e deu um suspiro…

não fique triste que este mundo é todo seu…

e você é mais bonita que a camélia que morreu”. 

 

Cheias de música, histórias e versos, elas ganham a rua. E se redescobrem:

“Nada de coisa muito séria como um namorado.

Mas um flertezinho faz bem para a alma”.

Ponto de Cultura, a singularidade na multidão.

Com um sorriso no rosto e a alma leve me despeço da Casa das Fases. Mas, antes, bolo, biscoito, chá e suco, pois é assim que elas recebem quem as visita.

 

Enquanto fazia a revisão final deste livro, recebi uma gentil mensagem.

Elas haviam regressado de uma viagem à Dinamarca, em que participaram do Magdalena Project, organizado por Julia Varley e realizado no Odin Teatret, fundado por Eugenio Barba. Agora fazem parte de uma rede mundial de mulheres no teatro contemporâneo. Lá, apresentaram dois trabalhos: um workshop para idosos da cidade de Holstebro, que resultou na performance “Du Ma Ikke Glemme Mig” (“Não se esqueças de mim”) e uma apresentação da peça “Para Dores Femininas”, representada para uma pessoa de cada vez, em uma caixa escura e com duração de quatro minutos (com público total de 150 pessoas em 4 dias).

Dona Jandira, obrigado pelas palavras e pelas notícias. E parabéns.”

 

(Capítulo extraído do livro “PONTO DE CULTURA – o Brasil de baixo apra cima” – Célio Turino; Ed. Anita Garibaldi, 2009, pg. 171)

 

 


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