15 de março de 2018, 10h03

Quando as evidências se esvanecem na naturalização da violência

Contra o rivotril social só há uma solução possível: encarar nossa dor, olhar para nossos monstros sociais e lutar contra eles, coletivamente

Parece evidente que a morte de Marielle Franco guarda relações com sua obstinada luta contra a violência policial, contra a violação de direitos das populações periféricas.

Como fora evidente a execução de Dorothy Stang e de tantos outros defensores de direitos humanos.

Mas, a evidência é sempre – e sempre! – habilmente disfarçada na bala perdida, no assalto.

Ora, que clima mais pródigo para disfarçar evidências que o da violência generalizada, produzida e reforçada.

Artificializada a tal ponto que se torne natural.

E a naturalização da desumanização tem como consequência que duvidemos de nossas certezas, que nos anestesiemos ao assistirmos a dor cotidiana, até decidirmos acreditar que tudo foi fortuito.

Dejours chamava este estado de “normalidade sofrente.”

Sim, porque encarar a nosso própria desumanização social assusta e dilacera.

Melhor acreditar que foi bala perdida, melhor defender que bandido bom é bandido morto, melhor é reescrever o maniqueísmo de mocinho e bandido.

Contudo, quando desacreditamos das evidências que nos batem à cara passamos a viver no mundo da insensatez.

E neste mundo só se sobrevive dopado, alienado.

Contra o rivotril social só há uma solução possível: encarar nossa dor, olhar para nossos monstros sociais e lutar contra eles, coletivamente.

Esta é a homenagem que podemos prestar a Marielle, a Dorothy, a Amarildo e a tantos outros que morreram “furtivamente”.

Que não seja em vão!


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