14 de março de 2018, 13h27

Quando morre um cientista

Em novo artigo, Elika Takimoto aborda a morte de Stephen Hawking. “Quando morre um cientista é como se houvesse uma onda de abortos espontâneos no mundo. Quantas ideias deixam de nascer?”

Hoje, no mesmo dia que Einstein nasceu, morreu Stephen Hawking que veio ao mundo no mesmo dia do falecimento de Galileu – Foto: LWP Kommunikáció/Creative Commons

Dizem que cada vez que um filho morre, as mães de todo o Universo padecem. Dizem também que não importa a nossa idade, ao perder um pai ou uma mãe tornamo-nos órfãos. E quando morre um(a) cientista?  Como ficamos nós, meros mortais?

Eu, que peregrino pelo mundo da história e da filosofia da ciência e que não mais vejo a diferença tão apontada entre ciências exatas e humanas, recebi a notícia de hoje sobre Stephen Hawking com a mesma dor quando anunciaram a morte de Saramago, Millôr, Drummond, João Ubaldo Ribeiro, Rubem Alves, Zélia Gattai, Suassuna dentre tantos outros poetas. Digo: a sensação é como se uma biblioteca – ou uma exposição de quadros de Van Gogh – tivesse sido queimada.

É um desserviço fazer uma história datada sobre seja lá quem for porque se o tempo, como já dizia Hawking, não é linear, quanto mais a vida que corre nele. Mas, para nos situarmos, vale algumas informações. Hawking nasceu no berço de uma família de intelectuais em Oxford, no Reino Unido, no dia 8 de janeiro de 1942. Iniciou em 1959 seus estudos na Universidade de Oxford. Obteve seu doutorado em Física Teórica e Cosmologia em Cambridge.

Em 1963, com 21 anos, foi diagnosticado com um tipo de esclerose lateral amiotrófica, uma doença neurodegenerativa progressiva que com a passagem dos anos o impediu de se movimentar. Desde 2005, ele apenas se comunicava movendo um músculo sob seu olho com o qual acionava um sintetizador de voz.

Dentre tantas coisa, Hawking provou para o mundo que as limitações do corpo não têm nenhuma ligação com a nossa capacidade de modificar um universo. Em outras palavras, Hawking demonstrou que, a despeito do tamanho do nosso cérebro, nossas ideias preenchem qualquer espaço. Seu trabalho, ao longo de toda a sua vida, foi no sentido de desvendar as leis que governam até mesmo o que os olhos não veem e a mente não consegue conceber: a (quiçá aparente) infinitude do Universo.

Big Bang, Buracos Negros, Teoria das Cordas, o  Nada, Tempo, Matéria… são conceitos não somente discutidos por ele com grandes nomes da ciência como transpostos para o público leigo. Para crianças, Hawking escreveu “George e o Segredo do Universo”, “George e a Caça ao Tesouro Cósmico”, “George and the Big Bang” e “George and the Unbreakable Code”, estes dois últimos não chegaram, infelizmente, ainda no Brasil. Para adultos, há muito mais do que quatro livros. Acredito que a sua obra mais famosa seja “Breve História do Tempo” onde explorou os limites do nosso conhecimento da astrofísica, da natureza do tempo e do universo. O que me leva a essa conclusão são os números. Não os presentes no livro em forma de constantes universais, mas o que aponta quantos foram vendidos: mais de 25 milhões. Particularmente, gostei mais do “A Minha Breve História”. Neste, Hawking conta como o seu trabalho de investigação inicial mostrou que a teoria da relatividade geral clássica não se aplicava ao Big Bang ou à dinâmica dos buracos negros. Uma viagem de dar gosto em termos de criatividade.

Mas nem só de ideias vivia Hawking. Ele, pasmem, conseguiu realizar “a maioria das coisas que queria”, que incluíram sete visitas à antiga União Soviética, seis visitas ao Japão, três à China, uma à Antártida e muitas outras viagens: ao fundo do mar, de balão e num voo de avião em gravidade zero. Aparição em seriado famoso como o Big Bang Theory e em músicas da banda britânica de rock Pink Floyd, sem contar em desenhos animados como os Simpsons… Hawking fez.

Como qualquer outro ser humano, imperfeito em sua essência, que lida com arte (ciência é arte, a meu ver), Hawking deu aula de como polemizar em diversos níveis. O físico amava falar sobre o Big Bang e quando, por exemplo, era perguntado sobre o que havia antes da explosão, ele respondia: nada. Mas não um “nada” qualquer sem matéria. Era um “nada” com algumas particularidades. Porém, dizia ele, o que existia antes não pode estar contemplado em qualquer teoria que formulamos para explicar nossas observações atuais. Ou seja, nenhuma lei da física se aplica até a ocorrência do Big Bang. O Universo evoluiu de maneira independente ao que havia antes, em uma forma mais técnica: a Lei de Conservação da Matéria não se aplicaria ao Big Bang. Se isso não é fruto de uma tremenda criatividade, diga-me, portanto, de onde vem.

Ainda que viajasse pela metafísica, declarou com todas as letras que a  filosofia estava morta. Em uma conferência do Google Zeitgeist, em Hertfordshire, na Inglaterra disse que as importantes questões do universo não podem mais ser resolvidas sem a ajuda da física e da tecnologia semelhante àquela vista nos grandes aceleradores de partículas. Como se não tivesse sido suficiente tamanha declaração de fé pela ciência, Hawking ainda afirmou que este campo não pertence mais à filosofia. Aliás, ele a considerava uma linha de pensamento morta nos dias atuais.

“Muitos de nós não nos preocupamos mais com essas perguntas, entretanto, questões como ‘de onde viemos?’ ou ‘para onde vamos’, que eram tradicionalmente questões filosóficas, hoje são recorrentes exclusivamente para a ciência. Os filósofos atuais não têm estudado de acordo com as descobertas mais recentes da física, e por isso, a filosofia está morta hoje”.

Ora ora. O mesmo físico que afirmou isso disse que as grandes conquistas da humanidade foram obtidas conversando, e as grandes falhas pela falta de diálogo. No entanto, ele tentou matar (sem sucesso) o seu mais importante interlocutor: o filósofo.

Como discutir a teoria do Big Bang, um momento que aconteceu há cerca de 13,8 bilhões de anos, no qual uma grande explosão de luz fez com que uma densa esfera da matéria se expandisse, tornando-se cada vez mais leve e diluída, gerando um Universo em expansão contínua sem usar a metafísica inerente a todo esse discurso? Como explicar somente pela ciência que um pequeno ponto, menor que um átomo, contém uma densidade e uma energia inimagináveis capazes de fazer brotar tudo o que existe hoje? Como justificar somente pela matemática que o contínuo de espaço-tempo é uma superfície fechada sem fim, como a superfície da Terra, sobre a qual podemos seguir caminhando eternamente sem cair dela?

Uma declaração importante do cientista britânico ocorreu quando questionado quanto aos cortes no financiamento à investigação científica, a que Espanha – mas também Portugal – estavam assistindo: “Não se pode incentivar os jovens a seguir carreiras científicas com cortes no campo da investigação”. Vale também para o resto do mundo essa observação, incluindo o Brasil em tempos de Temer.

Volto, enfim, ao início da minha explanação.

Disse que quando morre um cientista a sensação é de ter uma biblioteca sendo queimada. Acho, depois desse texto, que é pior. Muito pior. Sei que os livros escritos não se perdem na erosão, pois o que consta neles transcende a materialidade. E quem os leu antes de serem queimados fez com que a palavra escrita cumprisse, ao seu modo e no seu tempo, o seu destino. Portanto, quando morre um cientista é muito pior. Quando morre um cientista é como se houvesse uma onda de abortos espontâneos no mundo. Quantas ideias deixam de nascer? Quantos debates perdemos quando os olhos de um grande artista se fecham para sempre? Quantas teorias são sufocadas? O quanto deixamos de crescer quando enterramos um cientista?

Hoje, no mesmo dia que Einstein nasceu, morreu Stephen Hawking que veio ao mundo no mesmo dia do falecimento de Galileu. Não quer dizer nada para muitos e talvez não signifique coisa alguma mesmo – segundo o próprio Hawking que não acreditava em Deus, em filosofia e descartou qualquer conhecimento vindo de outra área que não fosse a ciência.

Mas….

Quão mais misterioso todo o Universo se tornou com o seu nascimento, a sua vida e a sua morte?