Milos Morpha

por Cesar Castanha

24 de agosto de 2015, 11h26

“Que Horas Ela Volta?”: cinema e sociedade em mudança

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(Divulgação)

Nos poucos segundos em que a cartela “Uma Coprodução Globo Filmes” passou pela telona do novíssimo Cinema do Museu, fui levado, em devaneio, a diversas discussões que já tive virtualmente ou na presença de amigos sobre o que exatamente é a Globo Filmes. Devo ter chegado ao fim de pelo menos alguns desses debates, mas naquele momento, enquanto esperava ter fim a burocracia que ajuda a manter nosso cinema para finalmente assistir Que Horas Ela Volta?, eu não consegui lembrar das conclusões feitas então.

O que quer que seja de fato, a Globo Filmes é também um símbolo muito forte dentro do cinema brasileiro. Para muitos, já representou tudo o que conheciam como “cinema nacional”. A confusão foi ficando mais difícil. Outras expressões do nosso cinema também conquistaram uma atenção midiática, e a diferença destas para o que era então a ideia de uma “Globo Filmes” era gritante. A fronteira parecia ser tão clara que um segmento de público poderia facilmente rejeitar um filme apenas por ele ser estrelado por “atores de novela”.

Essa diferenciação não partia apenas de uma percepção estética, mas de um entendimento de como cada filme era produzido e recebido financeiramente. A queda, em curso, dessa fronteira talvez tenha relação com as exceções nos resultados de bilheteria. O Som ao Redor e principalmente Hoje Eu Quero Voltar Sozinho tiveram uma carreira bem-sucedida nos cinemas do país. Mais forte do que essa, no entanto, deve ser a relação com a diversidade temática e estética cada vez maior dos filmes produzidos aqui. Assim, Que Horas Ela Volta? pode estar tão distante de uma ideia da Globo Filmes quanto Hoje Eu Quero Voltar Sozinho e História da Eternidade podem estar próximos dela.

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Não quero ser injusto com a Globo Filmes, certamente não conheço todos os filmes que levam sua marca, mas sei que nenhum dos que vi estava tão afastado esteticamente do que é produzido na televisão quanto Que Horas Ela Volta?. O audiovisual televisivo foi a maior referência estética da retomada. Bons filmes e maus filmes foram produzidos a partir dessa aproximação, com ou sem a logo carioca. Em todo o caso, não é o que acontece com Anna Muylaert e Que Horas Ela Volta?

Eu não sei dizer exatamente em que se constitui o rompimento de Muylaert com a televisão da Globo. Em parte, é pela apreciação do cinema como linguagem, a consciência do quadro como um universo além do que está de fato no quadro. O mais importante, porém, deve ser a forma como mantém o quadro como uma manifestação do ponto de vista. Além disso, de um ponto de vista específico tradicionalmente posto em segundo plano pela teledramaturgia.

Há um trecho da música Broadway Baby, escrita por Stephen Sondheim para o musical Follies, em que uma aspirante à estrela da Broadway canta “Heck, I’d even play the maid to be on a show” (“Caramba, eu até interpretaria a empregada para estar num espetáculo”). A lógica da nossa televisão não é muito diferente desta. A personagem da doméstica é constante e representa sempre uma mesma perspectiva de classe. Ou a personagem é fofoqueira e inconveniente ou ela é uma aliada afetuosa. De qualquer forma, não costuma ter mais que três linhas de diálogo por capítulo, que são sempre reforçando as mesmas características de personalidade. Gostaria de saber que porcentagem das novelas globais mostrou alguma vez a empregada doméstica fora dos espaços que divide com os seus patrões. Na maior parte das vezes, seu espaço (seja dentro ou fora da casa dos patrões) está excluído do conjunto de cenários noite após noite apresentado nas novelas. Está fora do quadro: não existe.

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Que Horas Ela Volta? traz o contraplano dessa representação tradicional. A câmera de Muylaert está mais interessada no que pertence a Val (Regina Casé, um gênio em cena) nos espaços que ela constrói, a partir de uma lógica antiga da relação entre empregada e patrão que está prestes a se quebrar. Se vemos a sala, é pela porta da cozinha. O quarto dos patrões é uma circunstância do corredor, e a área da piscina é tudo o que não é piscina.

O filme acompanha a gradual apropriação desse espaço, acompanhada pelo abandono libertador dele. O quadro de Muylaert representa um momento de transformação do nosso cinema: a sua autonomia em relação à estética televisiva assim como a uma necessidade temática supostamente moderna ou “exótica”, que sente e usa a palavra da pior forma. Representa também a transformação social que se deu no empoderamento da categoria no país, a conquista recente de alguns direitos trabalhistas a que antes eram exceção.

A reaproximação entre Val e sua filha, Jéssica (Camila Márdila, excelente), evoca, com otimismo talvez ingênuo, o fim dos paus de arara, um mundo novo em que não mais se abandona quem ama para sustentar um sistema perverso. Nós todos concordamos que a história não deve se repetir. O que Anna Muylaert parece afirmar, em relação ao cinema e, mais conscientemente, em relação à sociedade, é que ela não vai se repetir.

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