19 de setembro de 2018, 21h33

Que juventude é essa que vota no Bolsonaro?

Segundo o Ibope 28% dos jovens com idade entre 16 e 24 anos votam em Bolsonaro. Este dado é preocupante pois nos revela uma geração que está se formando com base numa mentalidade que não tem apreço pela democracia, ou que acha tudo bem um candidato com inúmeras declarações machistas e de ódio aos LGBT e negros ser o próximo presidente da República

Reprodução/Facebook

Para além da disparada do candidato do Partido dos Trabalhadores (PT), Fernando Haddad, que subiu 11 pontos e se isolou com 19% na segunda colocação, a pesquisa Ibope divulgada ontem (18) traz um dado que deve acender todas as luzes amarelas de preocupação: Bolsonaro (PSL) lidera a intenção de votos ente jovens com idade entre 16 e 24 anos.

Em números: segundo o Ibope 28% dos jovens com idade entre 16 e 24 anos votam em Bolsonaro; na sequência temos Haddad com a preferência de 18% desta parcela do eleitorado. Este dado é preocupante pois nos revela uma geração que está se formando com base numa mentalidade que não tem apreço pela democracia, ou que acha tudo bem um candidato com inúmeras declarações machistas e de ódio aos LGBT e negros ser o próximo presidente da República.

Cabe perguntar: que juventude é essa que vota em Jair Bolsonaro? Basicamente, e tirando isso por base na idade, é uma molecada que não lê jornal impresso, se informa primordialmente pelas redes sociais e, dentro desta esfera digital, são consumidores assíduos de canais do YouTube, que, como bem sabemos, está repleto de personagens com milhões de seguidores que são alvos de processos por racismo e declarações odiosas aos LGBT. Mas só isso não explica.

A pesquisa não traz uma estratificação de classe desta juventude que declara voto em Bolsonaro, mas podemos a partir dos outros dados da pesquisa intuir. Haddad lidera entre as famílias que recebem 1 salário mínimo, podemos então, intuir que a parcela da juventude deste grupo que vota em Haddad, consequentemente também vota no candidato do PT. Mas isso é cruzamento de dados que pode estar fadado ao erro.

Este número espanta pois, temos, nacionalmente, grupos de luta política organizada voltada para a juventude (UJS, UNE, Junt@s e tantos outros coletivos ao redor do Brasil). Será que a estratégia até aqui usada por estes coletivos está errada, ou seja, não está chegando na parcela da juventude que não está organizada em grupos de ativismo político? E os partidos políticos: por que estes não mais convencem a juventude?

São perguntas, acredito, que merecem profunda reflexão seguida de ação. Pois, pode até ser que o candidato do PSL saia derrotado desta eleição, mas o tipo de mentalidade que está criando corpo na atual geração é que vai ditar as regras e eleições daqui alguns anos. Portanto, temos 28% – esse número é muito alto – de uma geração que não se identifica com os mecanismos de participação proporcionados pela democracia. Se este quadro não for revertido, os debates sobre modelos de democracia – direta, representativa ou participativa – se tonarão completamente inócuos.

Por fim, passado o turbilhão desta eleição, cabe aos partidos políticos repensarem a sua presença nas plataformas digitais. Este se mostra o caminho certeiro na disputa de narrativa e construção de futuras mentalidades, mentalidades que tenham apreço e identificação pela/com a liberdade e não, ao contrário, ou seja, identificação com figura que representam a ruptura da democracia.