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23 de novembro de 2015, 13h08

Quebrando o silêncio sobre a violência psicológica

Por Jarid Arraes Dois anos atrás, escrevi um texto para o Questão de Gênero em que falava sobre a violência psicológica e a dificuldade para se combatê-la. Por isso, muitas mulheres vivem em relacionamentos abusivos sem que se deem conta de que é possível sair daquela situação e de que abusos verbais não são uma […]

Por Jarid Arraes

Dois anos atrás, escrevi um texto para o Questão de Gênero em que falava sobre a violência psicológica e a dificuldade para se combatê-la. Por isso, muitas mulheres vivem em relacionamentos abusivos sem que se deem conta de que é possível sair daquela situação e de que abusos verbais não são uma parte normal dos relacionamentos.

Infelizmente, até este mês, o texto continua recebendo comentários de mulheres que se identificam com os fatos expostos. São mulheres que contam um pouco de suas vidas e dos abusos que sofrem, compartilham que são xingadas, controladas e ameaçadas pelos homens com os quais se relacionam e muitas delas não sabem o que fazer para sair da situação.

Para encontrar um texto publicado há alguns anos na internet e que não tem sido divulgado nas redes, é preciso que a pessoa ativamente o procure em ferramentas de pesquisa. Ou seja, as mulheres que chegam até aqui e comentam que vivem relacionamentos onde são violentadas psicologicamente estão pesquisando na internet sobre abuso verbal e violência contra a mulher. E por mais que essa busca seja um fator inicial num caminho que pode levá-las ao término dessas relações, os comentários publicados ainda são chocantes e dolorosos.

Nos veículos de comunicação e no entretenimento, ainda se fala pouco sobre a violência verbal e psicológica. Muitas vezes, brigas repletas de xingamentos, humilhações e ameaças são mostradas de forma natural, como uma “briguinha de casal”, sem que em nenhum momento a situação seja apresentada como um tipo de violência. Assim, seja com vítimas do sexo feminino ou masculino, as pessoas vão aprendendo que as agressões verbais são uma característica comum dos relacionamentos – até porque elas não são vistas efetivamente como agressões, mas como momentos de descontrole, mágoa ou desentendimentos entre casais.

O problema disso é ignorar as consequências terríveis da violência psicológica, que muitas vezes é porta de entrada para outros tipos de violência, como as agressões físicas. Ignora-se que a saúde mental é fundamental para que o indivíduo consiga viver e desempenhar suas atividades, assim como é imprescindível para a autoestima; portanto, as consequências dos termos depreciativos, ameaças e amedrontamento interferem na vida das vítimas de formas complexas e muito graves.

Para que possamos mudar esse quadro, precisamos interferir em situações de violência psicológica e passar a nomear os abusos quando eles são mostrados. Ao invés de aceitar os ciúmes como provas de amor, é preciso que a possessividade e as práticas de controle do comportamento do outro sejam questionadas e apontadas como os atos invasivos que são. Ao invés de nos mantermos em silêncio quando sabemos que uma conhecida próxima é xingada pelo marido, podemos informá-la de que aquilo é violência doméstica e que ela não precisa se submeter a esse tipo de relação.

Como as mulheres que ainda voltam naquele texto de dois anos atrás, muitas outras ainda precisam entender que o sofrimento sentido é legítimo e que há possibilidade de libertação. O primeiro passo sempre é a informação e a conscientização. Assim, com mais consciência a respeito do que é a violência psicológica, mais mulheres buscarão formas de dar um basta em relacionamentos abusivos. Para que todas as mulheres consigam conquistar plena autonomia e segurança, o silêncio precisa ser quebrado.

Foto de capa: Reprodução / Facebook